
Num país marcado por desigualdades sociais e barreiras no acesso à saúde, alcançar quem mais precisa de diagnóstico e cuidado segue sendo um dos maiores desafios na resposta às infecções sexualmente transmissíveis. Mas experiências apresentadas nesta quarta-feira, 4 de junho, durante o XV Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis, no Rio de Janeiro, mostraram que é possível avançar — e com criatividade, articulação comunitária e foco nas populações vulnerabilizadas.
A mesa “Focalização e priorização da testagem de HIV, hepatites virais, HTLV, sífilis e outras ISTs como estratégias para redução de desigualdades”, com moderação de José Boullosa Alonso Neto, do Ministério da Saúde, apresentou três experiências que têm como base a inovação, a territorialidade e o trabalho junto a populações vulnerabilizadas: o Projeto A Hora é Agora, desenvolvido pela Fiocruz, a atuação dos educadores de pares na Bahia, e as práticas de testagem descentralizada e premiação em São José do Rio Preto (SP).
A força do projeto “A Hora é Agora”

A pesquisadora Marly Marques da Cruz, da Fiocruz, detalhou o trabalho desenvolvido pelo Projeto A Hora é Agora, que nasceu em Curitiba e hoje está presente em municípios como Porto Alegre, Florianópolis, Campo Grande e Fortaleza. Voltado principalmente para homens que fazem sexo com homens (HSH), o projeto busca ampliar o acesso à testagem e ao cuidado por meio de estratégias como unidades móveis, distribuição de autotestes, atendimento noturno, armários digitais, linkadores e até mesmo entrega de medicamentos em casa.
“A gente precisa alcançar quem ainda não sabe o seu status sorológico. E para isso, usamos estratégias como o Índex Teste e campanhas em redes sociais, além de incentivar a notificação de parcerias sexuais”, explicou Marly. Ela também destacou a importância dos profissionais chamados “linkadores”, que atuam no acolhimento e no apoio à vinculação ao cuidado — e mais recentemente, também na revinculação de pessoas que haviam abandonado o tratamento.
Uma das inovações recentes do projeto foi a inclusão do PrEP Delivery e o uso do Social Network Strategy (SNS), que mobiliza redes sociais e comunidades para ampliar o alcance da testagem. “Precisamos garantir que o acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento ocorra em um ambiente livre de estigma e discriminação”, afirmou.
Educadores de pares e o papel da escuta: a experiência baiana

Representando a ONG Motirõ, de Salvador, o ativista Javier Angonoa apresentou a experiência do trabalho com educadores e educadoras de pares, ressaltando que o enfrentamento das desigualdades passa necessariamente pela escuta e valorização do saber das populações afetadas.
“Não adianta a gente achar que só porque temos serviços e tecnologia, todo mundo vai acessar. Há muitas barreiras — racismo, LGBTfobia, desinformação, serviços pouco acolhedores”, disse Javier. Os educadores de pares, segundo ele, atuam como pontes entre a comunidade e os serviços de saúde, levando informações acessíveis e realizando escutas qualificadas.
O projeto Rolê da Prevenção, realizado durante o carnaval de Salvador, é um dos exemplos práticos do trabalho. Com uso de trailers para testagem e distribuição de insumos de prevenção, a ação conseguiu atingir cerca de 25 mil pessoas. “Graças ao Poder da Prevenção, aumentamos em 16% o número de pessoas testadas durante o carnaval”, destacou.
Interior paulista mostra que é possível descentralizar a testagem

Fechando a mesa, a enfermeira Estela Alves Camargo apresentou as boas práticas implantadas no município de São José do Rio Preto (SP), que tem quase meio milhão de habitantes. Com uma equipe de cerca de 70 profissionais, o município criou o Complexo de Doenças Crônicas Transmissíveis, que reúne testagem, prevenção e tratamento em um mesmo espaço.
Além disso, o município adotou um modelo de matriciamento, capacitando todas as unidades de saúde — básicas e especializadas — para realizar testagens e ofertar atendimento de forma descentralizada. “Pegamos a campanha Fique Sabendo, que acontece por sete dias no estado de São Paulo, e a tornamos permanente, disponível todos os dias do ano”, contou Estela.
Para motivar profissionais e usuários, a cidade aposta em estratégias de incentivo, como premiações para unidades que mais testam e brindes para quem realiza o teste. A aposta deu certo: em comparação com 2019, o número de testagens cresceu 216%.
Focalizar é incluir
As três experiências reforçam que focalizar ações não significa excluir, mas sim priorizar quem mais precisa. Para isso, é necessário investir em tecnologias, comunicação acessível, parcerias com a sociedade civil e formação continuada dos profissionais de saúde.
Como destacou José Boullosa na abertura da mesa, “é preciso pensar em estratégias específicas para cada território, sempre com foco nas populações mais vulnerabilizadas e no fortalecimento da resposta comunitária ao HIV, às hepatites e às outras ISTs.”
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
XV Congresso da Sociedade Brasileira de DST (SBDST), do XI Congresso Brasileiro de Aids e do VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids
Site: https://dstaids2025.com.br/home.asp
* A Agência de Notícias da Aids cobre os Congressos com o apoio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério



