Primeira mulher latino-americana e brasileira a assumir a presidência da International Aids Society (IAS), a dra. Beatriz Grinsztejn é infectologista e chefe do laboratório de pesquisa clínica em IST, HIV/Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz)

Primeira mulher latino-americana e brasileira a assumir a presidência da International Aids Society (IAS), a dra. Beatriz Grinsztejn é infectologista e chefe do laboratório de pesquisa clínica em IST, HIV/Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz). Uma pessoa determinada, elegante e afável. Uma expoente da ciência e da pesquisa clínica no campo da saúde. Dra. Beatriz sempre presta atenção, muita atenção, aos interlocutores e nunca deixa ninguém sem resposta. É uma das vozes mais respeitadas mundialmente quando o assunto é HIV/aids.
Estudou medicina na Universidade Federal Fluminense, graduando-se em 1985, e seguiu uma carreira ímpar e bem-sucedida. Em uma entrevista exclusiva à Agência Aids, algumas horas antes de sua posse na IAS, entre um compromisso e outro, agenda apertada e dividida em apresentações, mesas e reuniões, na semana toda em que aconteceu o Congresso em Munique, ela destacou a importância de “falar, falar e falar sobre as iniquidades que são o grande propulsor desta pandemia”.
Ressaltou a intenção de “trazer uma nova visibilidade para a América Latina e o Brasil” na sua nova função à frente do IAS,o que já tem sido feito neste tempo de sua atuação. Se depender de seu compromisso, seriedade, atenção e coerência nesses anos de atuação na área da saúde e na causa, o tema da 25ª Conferência, “Put the people first” (colocar as pessoas em primeiro lugar), será ampliado e estimulado em sua gestão frente a IAS. Exatamente desta forma dra. Beatriz Grinsztejn tem conduzido sua carreira, trajetória e história desde que se deparou com o primeiro caso em um paciente que encontrou em seu caminho: sempre colocou as pessoas em primeiro lugar!
Te convido para ler e assistir a entrevista na íntegra.
Agência Aids: Estamos aqui com a Dra. Beatriz Grinsztejn, que vai assumir de a presidência da IAS em poucas horas (a entrevista foi concedida antes de sua posse oficial que aconteceu no encerramento do Congresso). O que essa conquista representa para o nosso continente?
Dra. Beatriz Grinsztejn: É um prazer estar aqui conversando com você e com a Agência Aids. Eu acho que é um momento realmente muito especial para o Brasil e para a nossa região de ter alguém assumindo a presidência da IAS. Uma mulher vindo de uma região aonde a gente tem altos níveis de machismo imperando, um patriarcado dominante.. Eu espero poder trazer maior visibilidade para a América Latina e para o Brasil dentro desta nova função que vou exercer, apesar de que eu tento trazer isso sempre em todo meu trabalho de pesquisa todos esses anos. Só vou trazer essa característica para essa nova posição que estou assumindo.
Agência Aids: O que nós podemos esperar de sua gestão, Dra. Beatriz quando nós falamos de populações mais vulneráveis, quando nós falamos de acesso a medicamentos, quando nós falamos de mulheres em situação de absoluta vulnerabilidade na África, e quando nós falamos de uma pandemia que grassa o mundo há 43 anos e que mata, ainda hoje, uma pessoa por minuto no mundo?
Dra. Beatriz: Eu acho que uma questão fundamental que a gente tem que falar, falar e falar é sobre as iniquidades. Se a gente não identificar e entender que as iniquidades são o grande propulsor dessa pandemia, a gente não estará agindo como precisa agir para realmente almejar o fim da pandemia do HIV. Então a gente tem que lidar exatamente com essas populações mais marginalizadas ouvindo, ouvindo, antes de tudo o que essas comunidades esperam e organizando serviços, sejam nos serviços de saúde ou na comunidade que possam atender as necessidades dessas pessoas. Então trazendo para nossa realidade da América Latina, eu falo sobre jovens gays, mulheres trans, que estão fora dos serviços de saúde, como a gente pode chegar a essas pessoas para que elas possam ter o que a gente tem hoje de melhor, o Brasil tem um programa de acesso universal ao tratamento, acesso universal à PrEP, a gente precisa trazer as pessoas para que elas, de fato, possam se beneficiar de tudo o que nós temos a oferecer a elas. Embora a gente tenha um programa de PrEP único que começou em 2017, um programa com uma política pública de PrEP, isso é uma coisa muito rara, que atende a qualquer indivíduo que tenha interesse em usar PrEP, a gente precisa expandir esse programa. A gente precisa fazer com que as pessoas possam saber o que está disponível e que elas possam se beneficiar. E agora também com as novas tecnologias para prevenção, caso a gente consiga acessá-las não é, porque não adianta só a gente ter as drogas, a gente ter as tecnologias se não forem acessíveis, se elas não chegaram a nós por preços que sejam possíveis, coisa que ainda não aconteceu. A gente precisa avançar fundamentalmente nas questões de acesso. A gente precisa ouvir as comunidades, a gente precisa chegar as comunidades marginalizadas e a gente precisa ter acesso as tecnologias que possam servir melhor as pessoas que precisam se prevenir de adquirir a infecção por HIV.
Agência Aids: A senhora está falando justamente de acesso, de prevenção e o mundo está olhando para o Lenacapavir e está olhando para a Gilead. Pássaros piam e jornalistas escutam os pássaros piar. Soubemos que a senhora teve uma reunião com o pessoal global da Gilead, houve algum avanço nesse sentido? Eles estão mais sensíveis para que o acesso dessa nova droga dê certo, como parece que vai dar, que o remédio esteja à disposição do mundo?
Dra. Beatriz: Tivemos inclusive uma sessão da mídia com a presença do Unaids, da Gilead e GSK/VIV Healthcare. Ouvimos bastante sobre o Lenacapavir nesta Conferência, nesse estudo que foi apresentado entre mulheres jovens na África. Nós ainda vamos ouvir sobre o estudo Purpose 2 que de fato está sendo feito nas populações que são importantes para a epidemia na América Latina que são homens gays ou outros homens que fazem sexo com homens e pessoas trans. A gente ainda vai ouvir esses resultados até o final do ano a gente deve ter acesso aos resultados desse estudo e a Gilead está ouvindo, ouviu de nós, ouviu de todo mundo que agora o que importa é saber como eles vão poder disponibilizar essa droga para as diferentes regiões atendendo também não só os países de baixa renda, mas também os países de média renda porque de fato as pessoas que precisam acessar, são pessoas marginalizadas na comunidade não importa a renda do país. A renda é daquele indivíduo vulnerável e a gente sabe que os determinantes sociais em saúde são. críticos em relação ao aumento da vulnerabilidade em relação a aquisição do HIV. Então o acesso é fundamental. Caboltegravir de longa ação também está sendo estudado. Os resultados são muito bons. A gente tem de fato essa opção que já está no mercado, que já tem resultados excelentes em relação as populações que importam para nós na América Latina e a gente está ainda em um processo de ver como essa droga vai se incorporar ao nosso Sistema Único de Saúde caso se consiga acordar um preço que faça que essa droga possa ser incluída no formulário de antirretrovirais que a gente dispõe para prevenção no Brasil. O Lenacapavir no dado momento que ele for registrado, isso é uma conversa que está por vir também dependendo do resultado do Purpose 2 especificamente para nossa região. As conversações em relação as populações de mulheres na África elas estão com certeza mais avançadas e existe uma grande, uma enorme pressão para que a Gilead de fato, torne esse produto acessível para as pessoas que precisam dele.
Agência Aids: Dra. Beatriz falando em acessibilidade, nós ouvimos algumas críticas sobre o fato da IAS não ter tradução para o espanhol. Isso no Global Village. Nós temos uma parte do mundo que fala espanhol e que se sentiu alijado. Que não conseguiu acompanhar algumas mesas interessantes com assuntos atuais, com assuntos importantes. Isso pode mudar na sua gestão?
Dra. Beatriz: A gente de fato tem tradução acontecendo usando um sistema de inteligência artificial. Temos tradução acontecendo na Conferência.Talvez a gente não tenha divulgado apropriadamente mas temos de fato tradução acontecendo através deste tipo de mecanismo.
Agência Aids: Quando falamos de aids eu gostaria que a senhora desse uma nota para a atuação do mundo como um todo. Uma nota para nós, homens, mulheres, quando falamos dessa pandemia que está aí há 43 anos. Qual é a sua nota e por que?
Dra. Beatriz: É difícil dar uma nota porque essa nota seria dinâmica. Temos períodos de avanços e períodos de retrocessos. A gente sabe bem como se conforma um período de retrocesso como a gente viveu recentemente em nosso país. Mas eu acho, que muito ainda há para ser feito. Temos 9.2 milhões de pessoas, embora tenhamos terapia antirretroviral altamente eficaz, ainda temos 9.2 milhões de pessoas que não usam antirretrovirais. A expansão de PrEP no mundo é muito inferior ao que ela precisa ser. Então eu acho que tem muito trabalho a ser feito. Eu acho que determinadas regiões estão indo melhor que outras. Mas que de fato todos nós ainda temos um trabalho enorme a ser feito.
Agência Aids: Qual a importância do Global Village em uma Conferência como esta?
Dra. Beatriz: Total, não é? A Conferência não seria nada sem o Global Village. Como eu disse, nós precisamos ouvir a comunidade para saber o que ela quer que a gente ofereça a ela.Então eu acho que é fundamental o Global Village, eu diria que o número de atividades que acontecem aqui são fundamentais para que a gente de fato entenda o que se passa nessa diversidade de lugares representada no Global Village. Eu acho que o Global Village é a vida dessa Conferência, é fundamental. O objetivo da IAS é trazer junto os cientistas, a comunidade e os políticos. A base para que as políticas públicas possam ser realizadas. Essa Conferência tem o objetivo de trazer junto essas pessoas para que o progresso possa ser feito ouvindo sempre a voz da comunidade.
Agência Aids: Doutora Beatriz, quando eu falo de aids, me vem uma palavra, esperança. Aids, para a senhora, uma palavra?
Dra. Beatriz: Esperança também. Eu acho que sem esperança, a gente não vai a lugar nenhum. E a segunda palavra é trabalho. Eu acho que a gente precisa trabalhar muito para seguir nesse rumo que a gente acabou de comentar. Tem muita coisa a ser feita. Muito já foi feito, mas existe muito a fazer para que de fato as pessoas que precisam possam se beneficiar das tecnologias já disponíveis.
Leia o discurso de posse
“Que semana foi essa! Espero que vocês saiam se sentindo revigorados e inspirados, mas talvez também um pouco ansiosos sobre o caminho à frente. Estou impressionada com o poder de nossa comunidade global de HIV, vibrante, ousada, diversa e resiliente. Nós vamos cada vez mais depender dessas características para enfrentar nossos desafios. Como uma mulher lésbica da América Latina, no Brasil, e diretora da primeira Clínica de saúde focada em minorias de gênero, eu testemunhei em primeira mão como ainda estamos falhando com as pessoas mais marginalizadas. No Brasil, novas infecções de HIV estão aumentando entre jovens negros que fazem sexo com homens, ilustrando a violência estrutural de gênero e racismo que alimentam a epidemia. A base da resposta ao HIV foi construída em seus vínculos inexoráveis com os direitos humanos. No entanto, o espaço da sociedade civil para advogar e colaborar está sendo restringido. Políticas neoliberais e cuidados conservadores, e os direitos dos marginalizados. Governos reacionários têm erodido proteções e espaço cívico ou até mesmo travado guerras. A fadiga do dólar é uma realidade, e cruzar a última milha para acabar com a Aids como uma ameaça à saúde pública exigirá mais atenção e recursos. Mecanismos como o PEPFAR e o Fundo Global estão sob pressão. Agora não é o momento de questionar o valor dessas organizações vitais. Nossas conversas esta semana revelaram oportunidades interligadas para enfrentar esses desafios. Número um, a promessa dos injetáveis de longa duração, incluindo o PrEP com Lenacapavir para mulheres cisgêneras e o Cabotegravir-LA para mulheres cisgêneras e HSH e indivíduos trans, destaca a necessidade de diferenciar o paradigma de prevenção e garantir acesso em todo o Sul Global. Segundo, reunir o compromisso político para atender às demandas do HIV é uma responsabilidade compartilhada. Este compromisso deve estar embutido na integração da atenção primária à saúde, leis protetivas e financiamento sustentável. A convergência de ciência, política e ativismo sempre foi nossa força. Durante minha presidência, vou fortalecer a solidariedade do nosso movimento para enfrentar os desafios atuais.”
Biografia

Dra. Beatriz Grinnsztejn, Fiocruz
Dra. Beatriz Grinsztejn é médica infectologista dedicada ao tratamento e pesquisa de HIV e aids. Junto com colegas, fundou o Serviço de HIV/aids da Fiocruz, que se tornou o maior provedor de cuidados para essa condição no Rio de Janeiro, Brasil. Desde 1999, atua como diretora da Unidade de Pesquisa Clínica em HIV/Aids no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz). Beatriz também é a pesquisadora principal de uma unidade de ensaios clínicos há 13 anos.
Ela estabeleceu fortes parcerias com diversas redes de pesquisa, incluindo NIAID-NIH, HPTN, ACTG, HVTN, CoVPN, CCASAnet, ANRS, Canadian HIV Clinical Trials Network, Kirby Institute e CEPAC Group, desempenhando várias funções técnicas e de liderança. Nas redes ACTG e HPTN NIAID-NIH, Beatriz participou do Comitê Executivo e de vários comitês científicos relacionados à pesquisa sobre antirretrovirais, saúde da mulher e homens que fazem sexo com homens. Ela é a investigadora principal (IP) do Brasil para o CCASAnet, que criou um repositório compartilhado de dados sobre HIV de locais nessas regiões. Além disso, Beatriz é membro dos Comitês Consultivos de ART e PrEP do Ministério da Saúde do Brasil, do Comitê Consultivo Técnico da OPAS, da Força-Tarefa de PrEP e do Painel de Especialistas do Unaids. Ela também integrou o Painel de Diretrizes de ART da OMS.
Tem contribuído significativamente para o avanço da ciência na prevenção e tratamento do HIV, liderando ou participando de estudos globais seminais como HPTN 052, iPrEX, START, Reflate TB, Opposites Attract Study, HPTN 077 e HPTN083. Ela é copresidente do estudo HPTN 083, que avalia o cabotegravir injetável para PrEP em homens HIV-negativos que fazem sexo com homens e mulheres trans. Também é a IP do estudo de demonstração PrEP Brasil, que forneceu dados para a incorporação da PrEP no sistema de saúde pública brasileiro como uma política de saúde pública.
Beatriz dirige a primeira clínica de saúde trans estabelecida no Rio de Janeiro, oferecendo cuidados e serviços de prevenção de gênero afirmativo. Ela é a IP do estudo PrEParadas, o primeiro estudo de demonstração de PrEP no Brasil dedicado a mulheres trans, e co-IP do estudo imPrEP, financiado pela Unitaid, que visa expandir a PrEP no Brasil, Peru e México. Mais recentemente, Beatriz integrou o esforço internacional contra a pandemia de covid-19 e está liderando ou envolvida em diversos estudos observacionais, de prevenção e tratamento da covid-19. Ela tem mais de 300 publicações científicas revisadas por pares e orientou mais de 25 alunos de mestrado e doutorado como professora do Programa de Pós-Graduação em Pesquisa Clínica em Doenças Infecciosas da Fiocruz.
A Sociedade Internacional de Aids (IAS) reúne, educa e defende um mundo no qual o HIV não representa mais uma ameaça à saúde pública e ao bem-estar individual. Após o surgimento do HIV e da aids, cientistas preocupados criaram a IAS para reunir especialistas de todo o mundo e disciplinas para promover uma resposta concertada ao HIV. Hoje, a IAS e seus membros unem cientistas, formuladores de políticas e ativistas para galvanizar a resposta científica, construir solidariedade global e aumentar a dignidade humana para todos aqueles que vivem com e são afetados pelo HIV. A IAS também sedia as conferências de HIV mais prestigiosas do mundo: a Conferência Internacional de Aids, a Conferência da IAS sobre Ciência do HIV e a Conferência de Pesquisa para Prevenção do HIV.
Roseli Tardelli (roseli@agenciaaids.com.br)
* A Agência de Notícias da Aids cobriu esta edição da Conferência com o apoio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi) do Ministério da Saúde e da Coordenadoria Municipal de IST/Aids de São Paulo. Os portais de notícias IG, Catraca Livre e a EBC (Empresa Brasil de Comunicação) também receberão informações sobre o evento.
Dica de entrevista:
Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI)
Tel.: (21) 3865-9144
E-mail: comunicacao@ini.fiocruz.br


