
Em meio às transformações políticas, sociais e sanitárias que marcaram o Brasil nas últimas três décadas, a Gestos — Soropositividade, Comunicação e Gênero se consolidou como uma das organizações da sociedade civil mais combativas, criativas e comprometidas com a promoção dos direitos humanos. Criada em 1993, no Recife (PE), em um dos momentos mais críticos da epidemia de HIV/aids, a Gestos nasceu com uma missão clara: acolher, cuidar, informar e defender.
Mais de 30 anos depois, a instituição segue de pé, atuando local, nacional e internacionalmente, produzindo conhecimento, influenciando políticas públicas e mantendo viva a chama do ativismo social. Por trás dessa trajetória, está o trabalho coletivo de muitas mãos e corações. Uma dessas pessoas é Jô Meneses — cientista social, antropóloga, educadora, ativista e uma das principais vozes da organização. Com mais de 20 anos de envolvimento com a Gestos, Jô viu de perto os caminhos e descaminhos da resposta brasileira ao HIV, e ajudou a construir uma abordagem interseccional que articula saúde, gênero, raça, sexualidade, território e democracia.
Nesta entrevista, Jô compartilha memórias, conquistas e desafios — da criação de cartilhas feitas por jovens periféricos nos anos 1990 às ações atuais com populações em situação de rua e pessoas vivendo e envelhecendo com HIV. Fala de estigmas, de afetos, de redes de cuidado e da urgência de se comunicar com quem historicamente foi silenciado. Com a mesma delicadeza e firmeza que marcam a história da Gestos, Jô nos convida a pensar um futuro mais justo — e a reconhecer que só se constrói esse futuro com muitas vozes, com coragem e, sobretudo, com “a gente”. Confira:
Agência Aids: Jô, você está na Gestos há mais de 20 anos. Você se lembra do seu primeiro contato com a organização? Como foi?

Jô Meneses: Entrei na luta contra a aids em 1995. Conheci a Gestos através de uma companheira do movimento feminista. A gente queria muito fazer um trabalho com adolescentes, e ela me chamou para ir para a Gestos. Conseguimos aprovar um projeto com o Ministério da Saúde, isso em 1995, ainda na época do Programa Nacional de DST e Aids. Começamos a trabalhar com adolescentes numa comunidade próxima à Gestos, falando sobre práticas sexuais seguras e prevenção. Foi criada uma cartilha idealizada e desenhada por eles e elas. Depois fizemos o “Fazendo Arte contra o HIV”, um projeto com oficinas de rádio, teatro e artes plásticas, onde os adolescentes produziam materiais sobre o enfrentamento ao HIV. Depois disso, fui para a gestão municipal e, em 2009, voltei para a Gestos. Desde então, venho assumindo a coordenação junto com outras companheiras.
Agência Aids: Que cenário você encontrou na época em relação à resposta ao HIV/aids no Recife e no Brasil?
Jô Meneses: Naquele momento, a gente estava construindo e fortalecendo a resposta. Era um momento em que havia muito diálogo entre sociedade civil e governo, um diálogo propositivo, mas também crítico. Em 1995, começavam as discussões sobre a terapia antirretroviral. Ainda não estava garantido no SUS, então era preciso pressão para garantir o tratamento gratuito. Felizmente, o SUS foi determinante para que o Brasil oferecesse acesso aos medicamentos. Em muitos países isso ainda não é realidade. Era um cenário desafiador, que nos impulsionava a trocar muito entre nós da sociedade civil e a fortalecer os argumentos para incidir nas políticas públicas.
Agência Aids: A Gestos nasceu em 1993, num período crítico da epidemia de HIV/aids. Como essa origem moldou a missão da organização até hoje?
Jô Meneses: A Gestos já nasce com essa missão clara: acolher pessoas que vivem com HIV, garantir seus direitos e promover a prevenção. Com o tempo, fomos compreendendo que enfrentar o HIV significava dialogar com muitas outras políticas, além da saúde. A aids foi se interiorizando e atingindo populações mais pobres, o que mostrou que era preciso integrar políticas de alimentação, desenvolvimento, educação e outras. Hoje, quando o Ministério da Saúde afirma que a aids é uma doença determinada socialmente, a gente vê como esse olhar é coerente com o que já defendíamos.

Agência Aids: A ONG sempre trabalhou com a intersecção entre HIV, gênero e direitos humanos. Como você vê essa abordagem hoje, diante dos novos desafios?
Jô Meneses: No início, nossa interseccionalidade estava muito voltada para classe, raça, gênero e orientação sexual. Mas isso foi se ampliando. Hoje, a identidade de gênero é muito mais multifacetada. Também incorporamos o território como elemento essencial. O que o território oferece de oportunidades ou desafios? No Brasil, precisamos olhar para as diferenças regionais. Cada região tem suas peculiaridades. E dentro disso tudo, é preciso pensar como garantir acesso à saúde, à educação, à informação. É uma interseccionalidade mais complexa, mas absolutamente necessária.
Agência Aids: A defesa da democracia sempre esteve no DNA da Gestos. Como vocês têm mantido essa bandeira viva nos contextos de retrocesso político?
Jô Meneses: Temos um movimento para dentro e outro para fora. Internamente, formamos as pessoas que atendemos sobre a importância da democracia, para que possam ter argumentos em seus cotidianos e comunidades. Externamente, nos somamos a todas as lutas pela manutenção da democracia. Defender o SUS, a educação laica e a diversidade é defender a democracia. Direitos das pessoas LGBT+, das mulheres, de quem vive com HIV não sobrevivem em regimes autoritários. Estamos em conselhos, comissões, e em todos os espaços onde seja possível garantir escuta e participação social.

Agência Aids: Em que medida a atuação local em Recife dialoga com a agenda internacional da Gestos? Como vocês equilibram essas frentes?
Jô Meneses: É desafiador. Muitas vezes se pensa que as discussões internacionais não impactam o local, mas impactam, sim. Atuamos para influenciar os posicionamentos do Brasil em conferências internacionais. Quando um documento internacional reconhece direitos humanos, ele pode influenciar políticas e orçamentos aqui. A Gestos tem status consultivo na ONU e participa de espaços como a CSW e as conferências de população e desenvolvimento. Também atuamos em redes latino-americanas para fortalecer essas lutas.
Agência Aids: Quais projetos ou campanhas marcaram sua trajetória pessoal dentro da Gestos?
Jô Meneses: O “Fazendo Arte contra o HIV” foi marcante, porque os jovens podiam expressar sua forma de enfrentamento através da arte. Outro projeto importante foi o estudo “Mulheres Violenciadas”, sobre mulheres vivendo com HIV e violência. Revelar a sorologia para um parceiro pode gerar violência. A violência institucional também é marcante, especialmente para mulheres negras. Participamos de um estudo multicêntrico com organizações da América Latina sobre esse tema. Também me marcou o Índice de Estigma, uma pesquisa que traz dados quantificados e qualificados sobre o estigma vivido por pessoas com HIV. Hoje estamos envolvidos em campanhas sobre envelhecimento e HIV, escutando e acolhendo pessoas 50+, com histórias longas na epidemia.
Agência Aids: O que você destacaria como grandes conquistas da organização nesses 32 anos?

A Gestos — Soropositividade, Comunicação e Gênero está localizada na Rua dos Médicis, 68, no bairro da Boa Vista, em Recife (PE). O atendimento ao público acontece de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 18h. Para mais informações, é possível entrar em contato pelos telefones (81) 3421-7670 e (81) 98709-3999, acessar o site gestos.org.br, enviar um e-mail para gestos@gestos.org.br ou acompanhar a instituição pelas redes sociais no perfil @gestospe.
Jô Meneses: Temos muitas, mas vou destacar duas. A primeira é nossa contribuição para mudar a comunicação sobre aids, que era muito baseada no medo. Conseguimos dialogar com o Ministério da Saúde para tornar a comunicação mais acolhedora. A segunda é nossa incidência internacional. Levamos para a ONU a perspectiva de quem vive com HIV no Brasil, especialmente mulheres e populações vulnerabilizadas. Somos respeitadas nesses espaços.
Agência Aids: Há alguma história de vida que tenha te marcado profundamente no contato com o público atendido?
Jô Meneses: Sim, muitas. Uma mulher chegou na Gestos vivendo com HIV e passou a participar do nosso grupo de ativismo. Ela tinha uma neta que se reconhecia como menino trans. Ela nos disse: “Se eu não estivesse na Gestos, eu não teria compreendido esse processo”. Hoje, toda a família acolhe esse menino com mais tranquilidade. Outra história muito triste foi de um homem que saiu da rua e veio com a filha bebê para a Gestos. A companheira dele ainda estava em situação de rua e grávida. A bebê que ele trouxe tinha colostomia, supostamente causada pelo uso de drogas da mãe durante a gravidez. Ele trouxe a companheira, ela pariu, e vimos como a maternidade não estava preparada para lidar com uma mulher em abstinência. A família dele ficou com as crianças, mas ele faleceu. Foi muito impactante. Estava numa maca na porta do banheiro do hospital. Quando nos viu, chorou. Foi levado para a UTI, mas não resistiu. Era um homem jovem.
Agência Aids: A Gestos oferece serviços fundamentais como assistência jurídica, psicológica e social. Como é garantir essa rede de cuidados em um cenário de tantas desigualdades e cortes orçamentários?
Jô Meneses: É muito difícil. Vivemos de projeto em projeto. Qualquer edital que caiba no que fazemos, a gente inscreve projetos. Pressionamos o poder público, que muitas vezes não cumpre a destinação de recursos à sociedade civil. O atendimento que fazemos é de acompanhamento, não é pontual. Temos grupos psicoterapêuticos, transporte, lanche. É um cuidado integral. A assessoria jurídica, por exemplo, é quase toda voluntária. Não há editais para isso. E é fundamental para garantir direitos violados diariamente.
Agência Aids: Como a Gestos tem lidado com os desafios contemporâneos, como a prevenção combinada, a PrEP e a chegada de novas tecnologias de longa duração?
Jô Meneses: Com informação, escuta e um olhar crítico. Discutimos com a juventude, entendemos que cada pessoa precisa de uma estratégia que funcione para si. A prevenção combinada oferece um cardápio de opções. Nem todo mundo consegue usar camisinha. A PrEP é importante, mesmo que haja resistência à medicalização. A chave é a autonomia das pessoas.
Agência Aids: Que mudanças você observa no perfil das pessoas que acessam os serviços da Gestos hoje em comparação ao passado?
Jô Meneses: A relação com a medicação mudou. Hoje os antirretrovirais têm menos efeitos colaterais. Mas o estigma permanece. As pessoas ainda escondem sua condição, não dizem nem dentro da família. Uma usuária chegou e, ao ver o jardineiro, conhecido da comunidade, disse que estava ali para fazer um trabalho voluntário. Ainda temos muito a enfrentar.
Agência Aids: A estigmatização ainda é uma grande barreira. Como a organização tem atuado para enfrentar o estigma em tempos de redes sociais e desinformação?
Jô Meneses: Temos feito muito pelas redes, mas também vamos aos hospitais, praças, comunidades. Levamos informações sobre direitos, sobre “Igual a Zero”, e sobre a legislação que protege contra discriminação. Conversamos com pessoas vivendo com HIV e seus familiares. Agora estamos indo até populações em situação de rua e usuários de álcool e outras drogas para dialogar sobre estigma.
Agência Aids: A Gestos tem forte tradição na produção de conhecimento. Como você vê o papel de cartilhas, relatórios e publicações na luta por direitos?
Jô Meneses: São essenciais, mas precisamos diversificar os formatos. Criamos o Boletim da Gestos também em formato de áudio, como rádio zap, para pessoas que não sabem ler. Usamos QR Codes, figurinhas, oficinas. Há uma travesti usuária nossa que tem milhares de seguidores nas redes sociais, fala, mostra, dança, mas não sabe ler e escrever. Já pensei em abrir uma turma de alfabetização na Gestos. O EJA é importante, mas muitas não se sentem acolhidas nesses espaços.

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Agência Aids: Olhando para os próximos 10 anos, o que você sonha para a Gestos?
Jô Meneses: Que a Gestos continue de pé, mais estruturada, com maior capacidade de acolhimento. Mesmo que a aids acabe, ainda haverá muitos desafios relacionados às pessoas que vivem com HIV. Enquanto houver violação de direitos humanos, a Gestos precisa existir.
Agência Aids: Gostaria que você falasse um pouco sobre o Espaço Saúde…
Jô Meneses: É um espaço criado em 2015, pensado especialmente para adolescentes e jovens, que hoje têm cada vez menos canais para serem ouvidos — especialmente nas escolas, que muitas vezes se fecham ao diálogo. O Espaço Saúde é aberto, dentro da Gestos, para jovens de 13 a 29 anos, vivendo com HIV ou não. Eles trazem dúvidas sobre sexualidade, prevenção combinada, direitos sexuais e reprodutivos. A gente oferece testagem de HIV, sífilis e hepatites, e, principalmente, escuta. A demanda por apoio psicológico é enorme. Temos três profissionais atendendo, mas mesmo assim nunca conseguimos zerar a fila de espera — principalmente depois da pandemia e do avanço do conservadorismo, que sufoca o debate e silencia a juventude. Eles precisam ser ouvidos. Precisam cuidar da saúde mental e dos seus direitos. E tem também o GT Jovem, ligado ao Espaço Saúde. É um grupo com o qual fazemos formação contínua, e que atua levando essa discussão para fora: vamos às praças, às escolas, aos centros comunitários — onde houver juventude, estamos ali, falando de prevenção combinada e direitos. Se você pensar, estamos atuando nos dois extremos da pirâmide da infecção pelo HIV: com jovens e com pessoas idosas. E isso é muito significativo.
Agência Aids: Que legado a Gestos deixa para o campo dos direitos humanos e da resposta à epidemia de HIV/aids?
Jô Meneses: A compreensão de que o enfrentamento ao HIV não se faz por um único caminho. A comunicação precisa ter as pessoas no centro. Precisamos sair das caixinhas e nos somar às outras lutas. Todas as pautas impactam as pessoas vivendo com HIV. Esse é um legado: a soma, a interconexão.
Agência Aids: O que te motiva a continuar todos os dias?
Jô Meneses: O que me motiva — o que nos motiva — é ver o impacto real na vida das pessoas. É a perspectiva que a Gestos tem de justiça e respeito aos direitos humanos. Quando alguém carrega isso como sentido de vida, quando acredita profundamente que os direitos humanos precisam ser respeitados e que a justiça deve existir, estar na Gestos é algo apaixonante. Porque aqui estamos sempre construindo caminhos, buscando formas concretas de fazer isso acontecer. Mesmo diante das grandes adversidades, seguimos acreditando que podemos ser uma semente para inspirar outras pessoas — que elas também façam, à sua maneira, mas com o mesmo propósito. E tem algo muito potente nisso: não estamos sós. Fazemos parte de uma rede, de um caldo de organizações que compartilham dessa mesma visão de mundo. E isso fortalece, dá energia. Por tudo isso, cada dia que acordo para trabalhar não é um peso. A gente não tem aquele sentimento de “Ai, meu Deus, tenho que trabalhar”. Pelo contrário: é “que massa, hoje tem tal coisa, vamos somar!”. Trazemos ideias, buscamos soluções. É instigante, é vivo.

Agência Aids: E se pudesse resumir tudo isso em uma palavra?
Jô Meneses: Gente
A Gestos — Soropositividade, Comunicação e Gênero está localizada na Rua dos Médicis – 68, no bairro da Boa Vista, em Recife (PE). O atendimento ao público acontece de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 18h. Para mais informações, é possível entrar em contato pelos telefones (81) 3421-7670 e (81) 98709-3999, acessar o site gestos.org.br, enviar um e-mail para gestos@gestos.org.br ou acompanhar a instituição pelas redes sociais no perfil @gestospe.
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Gestos – Assessoria de Imprensa
Tel.: (81) 3421-7670


