Corte de Trump no PEPFAR interrompe projeto “A Hora é Agora” e afeta serviços de HIV/aids em Fortaleza; prefeitura garante continuidade dos atendimentos

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Trump's bid to wipe out AIDS will take more than a pill - POLITICO

Os efeitos da decisão do governo de Donald Trump de encerrar o financiamento de uma importante iniciativa global de combate ao HIV/aids já são sentidos no Brasil. Em Fortaleza (CE), a interrupção do projeto “A Hora é Agora” – mantido pelo PEPFAR (President’s Emergency Plan for Aids Relief) com recursos dos Estados Unidos – resultou na escassez de profissionais nos Serviços de Atenção Especializada (SAE) e no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) da cidade.  

Com o fim do financiamento, médicos e enfermeiros contratados pelo programa foram desligados, o que gerou preocupação entre ativistas e usuários dos serviços. Vando Oliveira, representante da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/aids no Ceará (RNP+ CE), relatou à Agência Aids que visitou os locais na última sexta-feira (31) após ser informado pela Área Técnica de IST/aids de Fortaleza sobre uma possível suspensão parcial dos atendimentos a partir da segunda-feira (3).  

Segundo Vando, o impacto foi imediato. “Os profissionais do CTA e SAE eram contratados pelo projeto ‘A Hora é Agora’, e com a interrupção do financiamento pelo PEPFAR, os quatro médicos e sete enfermeiros foram dispensados”, explicou.  

O ativista reforçou a preocupação com os pacientes que precisam de acompanhamento contínuo. Apesar de não haver, até o momento, falta de antirretrovirais, a ausência de médicos infectologistas pode comprometer a emissão de receitas e, consequentemente, a retirada dos medicamentos.  

Além disso, ele destacou que as dificuldades já vinham se acumulando desde outubro de 2024. “Na RNP, distribuímos cestas básicas a quem precisa. Cerca de 139 pacientes do SAE foram cadastrados na central de alimentos pela assistente social da RNP+CE, assumindo uma função que era da assistência social do serviço devido à ausência de profissional para realizar este cadastro. Para que as pessoas não ficassem sem o cadastro, nós da RNP assumimos essa responsabilidade”, afirmou.  

Vando também pontuou que, quando o projeto foi implementado, a expectativa era de que ele complementasse os serviços já existentes, e não que assumisse totalmente funções que deveriam ser da administração pública. “Quando esse projeto começou, inicialmente houve um diálogo apenas para apresentar o projeto e explicar seu propósito, mas não imaginávamos que ele acabaria assumindo integralmente essas funções em vez da própria prefeitura’’, acrescentou.  

O que diz a gestão municipal 

A Agência Aids também ouviu Marcos Paiva, coordenador de Aids de Fortaleza, que explicou que a interrupção do financiamento não afetou apenas o município, mas várias outras capitais brasileiras que recebiam apoio do PEPFAR. “O projeto vinha sendo financiado pelo PEPFAR, que recebe recursos diretamente dos Estados Unidos, e agora foi cortado pelo presidente Trump. Isso foi uma surpresa para todo mundo.”  

Paiva informou que algumas localidades conseguiram reverter a situação, mas muitos serviços essenciais para prevenção e tratamento do HIV ainda não foram restabelecidos, incluindo os de Fortaleza. Ele garantiu, no entanto, que nenhum paciente está sem atendimento. “Nesse momento, há desligamentos, mas não fechamos os serviços. Nos mobilizamos e conseguimos nos adaptar de forma relativamente rápida.”  

Segundo ele, essa reorganização foi essencial para manter serviços como a oferta da profilaxia pré-exposição (PrEP). Para isso, a gestão municipal está realocando profissionais de outras unidades de saúde. “O que estamos pensando agora é procurar profissionais da rede municipal que tenham afinidade com a área para que possam ser realocados a esses serviços”, explicou.  

Paiva também assegurou que os pacientes estabilizados, ou seja, aqueles com CD4 e carga viral controlados, continuam sendo acompanhados regularmente. Além disso, um médico infectologista externo, vinculado à Universidade Federal do Ceará, está supervisionando o serviço e iniciando tratamentos para novos diagnósticos de HIV.  

Sobre a reposição definitiva dos profissionais, o coordenador afirmou que concursos públicos já estão em andamento. “Já há concursos em Fortaleza, e alguns profissionais já foram chamados, embora não necessariamente para esses nossos serviços. Estamos, no entanto, conversando sobre essa possibilidade como uma alternativa para integrar novos profissionais.”  

Ele também destacou a importância do diálogo com a sociedade civil desde o início da crise. “No momento em que soubemos do corte, a primeira preocupação foi entrar em contato com o movimento social para esclarecer a situação e garantir que as pessoas não ficariam desassistidas.”  

Por fim, Paiva afirmou que a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) segue discutindo alternativas para minimizar os impactos da perda do financiamento. “Além disso, estamos discutindo alternativas junto à SMS para avaliar quais outras possibilidades existem”, concluiu.  

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

RNP + CE

(85) 3222-1388 / 99974-3527

SMS – Secretaria Municipal da Saúde de Fortaleza

(85) 3488-2646

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