Dr. Robson Fernandes Camargo
Em 1990 começaram a aparecer doentes com Aids em fase adiantada na região do Jardim Elba, distante 30 quilômetros do centro de tratamento mais próximo. Como sair da periferia com diarréia, vômitos, moniliase, pneumonia, caquexia, pegar um coletivo e ir ao Emílio Ribas II para uma consulta médica? Na volta para casa não se podia pegar um táxi na frente do CRT, na rua Antonio Carlos, mesmo com a ajuda de parentes e amigos. Era necessário andar algumas quadras para despistar os motoristas de táxi, pois se eles sentissem o cheiro de Aids, o preço dobraria. A coordenação do “programa municipal” dessa época planejava oferecer o teste de HIV em toda rede básica, mas o tratamento ficaria a cargo do Estado.
É neste caldeirão que eu, Cristina Abbate, técnicos do Distrito de Saúde e o Movimento Popular nos unimos e, à revelia de Secretaria Municipal de Saúde, nasceu a UADA-Sapopemba (unidade de atendimento das DST/AIDS), hoje SAE Herbert de Souza-Betinho. Desde 1991 a unidade vem atuando em Sapopemba, local lembrado apenas nas eleições como recanto exótico situado nas barbas do cachorro da cidade de São Paulo.
Trabalhando no acolhimento, no tratamento, no aconchego e no ato preventivo do HIV/AIDS, aprendemos desde cedo que a AIDS era só mais um dos problemas das pessoas daqui, pois morrer de bala, de AIDS, do desejo de ser e estar no lugar errado na hora certa era só mais uma das formas de deixar este mundo.
Assim, como se fôssemos uma república independente, como por esquecimento, fomos tratando de recuperar o que todo “ser um mano” quer: comida, diversão, saber, amor, dor, dinheiro, bebida, instrução e arte. A periferia é careta, quer trabalhar,essa história de economia da droga, do tráfico, é para uma minoria, é para a moça da Linha Vermelha. O resto quer acordar cedo, enfrentar um coletivo lotado, descolar unzinho, biritar no fim de semana, amar, fazer amor, brincar, ter filhos, coisas de “ser um mano”. E é pra essa “ummanidade” que trabalhamos, infectados por esse desejo de ter uma ex-cola, pois quem não sabe ler não sabe se proteger do HIV. É um desejo de saber informática, detonar um computador, de estar plugado no mundo virtual e real da internet, no Sapopemba bit fica mais fácil de ter adesão à vida, para eles e para nós, imagens da mesma moeda, trevas e luz, do coquetel sejamos a integrase e bebamos a vida.
Dr. Robson Fernandes Camargo é infectologista e coordenador do SAE Herbert de Souza-Betinho.
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