Viva a Vida – Por José Eduardo Martins Gonçalves, psicólogo, voluntário do Grupo SOMOS Comunicação

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Por José Eduardo Martins Gonçalves

Quando surgiu nos anos 80, como a tenebrosa manifestação de nossa imperfeição e mortalidade, a aids não significou apenas uma representação abstrata de ameaça, mas adquiriu materialidade nos corpos dos infectados. Descobrir-se com o HIV, então, implicava não só um defeito imunológico, mas uma deficiência da alma. Sem muito esforço, evitar a doença e suas representações levou à exclusão das pessoas com aids das suas arenas de convívio. Elas deixavam de ser pessoas e passavam a ser uma categoria classificatória coletiva: os ‘aidéticos’. Eram transformadas num estereótipo, num rótulo, quase numa ‘coisa’. E sabemos o quanto isso é perigoso: quando pessoas viram ‘coisas’, são despojadas de sua humanidade. Antes da morte física, são condenadas à morte civil.

O Brasil ainda lutava contra a ditadura militar (que nada tinha de branda) e o país agitava-se em movimentos pela democratização. Como parte desse processo, o SUS foi criado numa lógica de inclusão universal que se opunha frontalmente ao princípio excludente que a epidemia assumiu.

Paralelamente, segmentos sociais se organizaram na defesa intransigente das pessoas com Aids e da preservação de seus direitos civis e humanos.

Entre outros militantes, um homem imaginou que a solidariedade era o caminho para a cidadania: Herbert Daniel afirmou, pela voz e pelo gesto, que o primeiro elemento da luta contra a aids, tanto do ponto de vista individual quanto coletivo, é o absoluto respeito aos direitos das pessoas que vivem com o HIV. Para ele, a solidariedade é o mais seguro dos efeitos colaterais do existir e a melhor terapêutica até agora disponível contra a morte civil e a negação de direitos.

Herbert Daniel foi diretor da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), além de fundador e presidente do Grupo pela VIDDA – Valorização, Integração e Dignidade do Doente de Aids (RJ).

Foi dele também a iniciativa de produzir a “Declaração dos Direitos Fundamentais da Pessoa Portadora do vírus da Aids”, lançada durante o II Encontro Nacional de ONGs/ Aids, realizado em outubro de 1989, em Porto Alegre.

Comemorando os 20 anos daquela iniciativa, o SOMOS, o GAPA/RS e a ABIA realizam de 24 a 26 de setembro, na mesma cidade, um Seminário que busca recuperar a análise crítica das condições atuais do enfrentamento da epidemia, reiterando a importância do protagonismo das pessoas com HIV/aids na defesa de seus direitos.

É uma homenagem a todos os homens, mulheres e crianças que viveram e vivem com aids, e a todos aqueles que lutaram e lutam pelo reforço da cidadania e pela construção de uma sociedade mais justa, mais igual na diversidade e mais solidária.

É, sobretudo, uma homenagem ao guerreiro que inventou o brado de “Viva a Vida”!

Gonçalves é psicólogo, voluntário do Grupo SOMOS Comunicação, Saúde e Sexualidade, de Porto Alegre, RS e ativista há mais de 20 anos.

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