Visibilidade Trans também é cuidado: viver com HIV é possível

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Sou Isabelli Potter, tenho 40 anos, sou nortista, travesti, comunicadora social e pessoa vivendo com HIV há 20 anos. Minha história é atravessada por deslocamentos, sobrevivência e reconstrução.

Por muito tempo, vivi no mercado informal, inserida em contextos de extrema vulnerabilidade. Foi justamente nesse espaço que algo me marcou profundamente: a falta quase absoluta de representatividade de mulheres trans e travestis vivendo com HIV.

Decidi falar publicamente sobre a minha sorologia quando compreendi que muitas de nós — que estávamos e ainda estamos nesse mercado — não se viam representadas, não tinham referências e, na maioria das vezes, só tinham contato com narrativas de medo, culpa e morte.

Falar sobre HIV passou a ser, para mim, uma forma de dizer a essas mulheres que existe vida após o diagnóstico. Que é possível viver com HIV, se cuidar, acessar tratamento, construir vínculos, amar e ser amada.

Foi nas redes sociais que tudo começou. Passei a usar — e sigo usando — esse espaço como ferramenta de informação, troca e acolhimento, falando sobre HIV/AIDS, outras ISTs e sobre as múltiplas realidades que atravessam corpos trans e travestis.

Com o tempo, esse trabalho ultrapassou o ambiente digital. Hoje, atuo no Instituto Vida Nova como agente de saúde e social media, realizando também trabalho de campo. Essa experiência amplia ainda mais meu olhar e meu conhecimento como mulher travesti inserida no universo do HIV/AIDS e das ISTs.

Ser uma pessoa trans vivendo com HIV é enfrentar múltiplas camadas de estigma, inclusive dentro de espaços que deveriam acolher. Ainda assim, escolhi transformar minha vivência em ferramenta de diálogo, educação e visibilidade, porque sei o quanto a ausência de referências pode silenciar, adoecer e afastar pessoas do cuidado.

No Dia da Visibilidade Trans, falar da minha trajetória é reafirmar que nossas vidas importam — e que visibilidade também é cuidado. É mostrar para outras mulheres trans e travestis, especialmente aquelas que ainda estão no mercado informal, que há futuro, que há dignidade e que nossas existências não se resumem a um diagnóstico.

* Isabelli Potter é travesti, preta, nortista, nascida em Belém do Pará, e pessoa vivendo com HIV. Profissional da área da comunicação, desenvolve conteúdos informativos e jornalísticos sobre pessoas trans, travestis e não bináries, saúde coletiva, HIV/aids. Atualmente atua como agente de saúde no Instituto Vida Nova.

Apoios