Vinte anos de CRT-DST/Aids- SP – Navegações no mar das experiências vividas – João Bosco Alves de Sousa é Diretor de Recursos Humanos do
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JOÃO BOSCO

Estamos em época de comemorações, vinte anos de SUS, vinte anos do CRT, vinte e cinco do Programa Estadual e dez que estou como Gerente de Recursos Humanos dessa instituição. As histórias também são marcadas a partir do tempo dos indivíduos, principalmente para aquele que conta. Datas pródigas de significados, memórias cheias de sentidos. Padre Antonio Vieira já disse que somente sobre futuro não há divergências, (afinal, ainda estar por ser feito) e sobre o passado não há concordância, tantas são as versões. Cada um conta conforme sua experiência e conveniência. Não trarei o olhar da ciência, dados e datas exatas, me moverei pela imprecisão da memória navegarei nas lembranças vividas e como já dizia o poeta viver não é preciso. Quero portanto, nesse relato dizer da experiência vivida e construída com tantos outros profissionais de saúde e cidadãos que passaram por essa instituição. Não me furtarei à reflexão. Pois afinal, todo parto é uma reflexão sobre a existência.

Na labuta do serviço público estou a vinte e três anos. Sempre trabalhando com aqueles que a sociedade considerou “os feios, sujos e malvados”, personagens ocultos de um Brasil excludente, que sempre teve os olhos voltados para fora, para além mar ou para cima da linha do equador. Em Santos comecei a trabalhar no campo da Saúde, com Aids, com atendimento domiciliar. Havia um reboliço instigante, desafiador de enfrentar a epidemia que trazia em si paradoxos existenciais e profissionais. Estava posto no cadinho das instituições que se formavam, seja CRAIDS, CRT e outras, assim como nos corações dos profissionais, subjetividades, práticas e conceitos que se conflitavam ou se tencionavam: o preconceito e a solidariedade, a impotência e a potência, a mesmice e a criatividade, a morte e o desejo de vida, métodos antigos com inovadores, o diferente com o que é padrão, ação coletiva com o individualismo, a singularidade com a normalização, a autonomia com a tutelagem, democratização com autoritarismos. Tudo sob alta pressão e urgência. A vida estava sendo ceifada aos montes. Porém, havia fatores que conspiravam a favor do que chamaria de uma agenda positiva de institucionalização moderna, democrática, humanizadora. Havia uma equipe comprometida e lideres ousados que se propuseram nesses anos, primeiro a se autorenovarem e reflexionarem nas suas práticas profissionais, segundo, a por em prática os princípios do Sistema Único de Saúde.

Na turbulência do enfrentamento da epidemia, com seus medos, ignorâncias, desconhecimentos, sem suportes de tratamento, o CRT viveu um período de se fazer, se constituir, um momento de adquirir uma identidade institucional. Não queria mais ser o Emílio Ribas II ou Junior. Novos paradigmas de cuidado precisavam ser buscados. Da impotência diante uma doença desconhecida e incurável nos cabia pensar e operar na organização de equipes e setores que tivessem uma visão e ação de integralidade e solidária. Pensar e agir com potência. Com dez anos de criação deu um salto de qualidade, que se refletiu primeiramente na constituição de uma nova estrutura. Isso já demonstrava uma vitalidade não usual das instituições públicas. Um aumento do seu quadro funcional e novo organograma. Mas as principais inovações estavam nas práticas de gestão, na condução e cuidado dos colaboradores (trabalhadores), na criação de espaços participativos e inclusivos, tanto para os trabalhadores como para os usuários do serviço; na produção de novas práticas de cuidado e saberes.

O desafio que se forjou nesse tempo, foi o de produzir política de saúde que administrasse bem os recursos disponíveis , ampliassem a acessibilidade de camadas da população que estavam excluídas dos serviços de saúde. E que, estimulassem e produzissem nova lógica no cuidado e atenção, rompendo com o modelo médico centrados, tecnicista, buscando uma prática mais integrada, interdisciplinar, introduzindo o conceito de qualidade com humanização. Produzindo assim, nesses vinte anos, um serviço inclusivo, acolhedor e participativo. Trabalhando de forma a manter associado de modo dinâmico, o planejamento e a institucionalização (de novas práticas, novos dispositivos) com a capacidade de transformação e inovação. Diria que foi e é uma tarefa hercúlea, com as limitações, contradições e conflitos inerentes ao setor público e até mesmo da natureza humana ou qualquer organização. Paulo Freire sempre nos ensinou que a educação transformadora, as transformações sociais requerem do educador, gestor ou líder uma paciência história. E assim foi sendo feito.

Nesse período (vinte anos) é que se constituem externamente dispositivos democráticos de participação social, o Fórum de Gestores, Fórum de ONGs, mecanismos mais transparentes de convênio para repasses de recursos para as ONGs e o envolvimento efetivo nas instancias deliberativas do SUS. Internamente avançamos na reorganização das equipes com criação de novas áreas e setores, investimento tecnológico e no trabalho de formação de equipes, planejamento estratégico interno, desenvolvimento e educação, com investimento em capacitações e treinamentos de modo transversal para todas as categorias; criação da rede de voluntários, campos de estágios; na produção de atividades motivadoras dos funcionários, práticas humanizadoras. Como também em atividades de arte e sócio-culturais que ampliam o entendimento da diversidade, das diferenças, e procuram romper com o preconceito e elevar a auto-estima. Foi maravilhoso a primeira vez que comemoramos a semana da consciência negra, quando os funcionários tiveram que autodeclararem a sua cor, gerando profundas reflexões e um quadro onde pudemos ver, explicitar onde estavam nossos afros-descendentes. Uma bela maneira da instituição se olhar. Avançamos também no que se refere a participação dos usuários e trabalhadores criando a ouvidoria, o conselho gestor, a mesa de negociação sindical.

É importante olhar para trás para entender os compromissos assumidos e nos projetarmos para o futuro. A grande maioria dos trabalhadores do CRT assim como dos seus dirigentes, vem de uma geração que viveu o período da ditadura militar e a ela combateu. Um grupo diverso, heterogêneo tanto na origem, histórias e hábitos, mas que de maneira inequívoca abraçou o compromisso com a vida de maneira notável. Uma equipe que evidentemente não está isenta de conflitos de toda ordem, porém, tem mantido um bom envolvimento com o trabalho e com a qualidade deste. É maravilhoso poder conviver e cuidar de pessoas, sejam os nossos usuários/pacientes externos ou internos, que trazem uma bagagem de vida que enriquece a nossa. Pessoas que se dispõe a compartilhar de maneira despojada suas histórias.

Como disse no poema tenho um encontro marcado com o futuro. Nesse encontro presente, para esse encontro futuro, sei que a minha história foi feita com muitos companheiros e companheiras. Estarão sempre na minha memória, bússolas a me orientarem nesse mar do imponderável. Sendo assim, procuro navegar de maneira ética nessa trajetória e ofício de cuidar de quem cuida.

*O PASSADO É MEU PRESENTE

O passado é minha cicatriz
marca, estigma,
sombra delineada
pelo sol que se põe.

História
vivida, inventada
contada, falseada.
Fragmentos
de sonhos
derramados numa ampulheta.

O passado
é meu presente
nele nada posso alterar
vírgula, ponto, exclamação.
teimo em ser
presente.

Argonauta
em um oceano de memórias,
me atiro no mar
do imponderável.

Desejo
um encontro marcado
com o futuro
presente
imarginado,
imaginado
travesso,
buliçoso…

Tenho um encontro certo
Mesmo sabendo
que tudo o que é certo
é a inércia da morte.

Navego poeta,
navego,
pois viver não é preciso

autor: João Bosco

João Bosco Alves de Sousa é Diretor de Recursos Humanos do
Centro de Referência e Treinamento DST/Aids – São Paulo.

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