Aline Ferreira*
18/01/2017 – Cidade que narcisicamente pode-se nomear “berço” do movimento de aids com protagonismo dos jovens. Foi em São Paulo que surgiu o embrião para o que hoje entendemos como Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids. Durante anos fomos cercados por uma bolha de privilégios que muitas vezes nos cega e sufoca; aqui foi implantado o primeiro Programa Estadual de DST/Aids no Brasil, além de termos os melhores hospitais, equipamentos de ponta, excelentes universidades, inúmeras ONGs.
O fato é que mesmo sendo São Paulo, esta gigante, isso não a isentou de sofrer, junto com o todo o resto do país, a precarização, o sucateamento e desmanche (não só, mas principalmente) do Sistema Único de Saúde (SUS), através dos cortes no orçamento da saúde pública, intensificados pelo Estado devido à “crise” econômica e que reverbera em perdas de direitos, tais como: suspensão da isenção tarifária de metrô para pacientes em tratamento antirretroviral, a suspensão dos exames de CD4, aumento da espera para agendamento da primeira consulta com infectologista, dificuldade de encaminhamento para outras especialidades, entre outras coisas.
Em meio ao caos, a Rede de Jovens (como tantos outros movimentos sociais) foi sistematicamente silenciada e enfraquecida nos últimos anos, perdendo espaços historicamente conquistados e estamos sofrendo as consequências disto. Talvez, escrevo hoje como quem grita, sabendo que somos muitos jovens vivendo com HIV no Estado de São Paulo e que podemos mudar essa realidade através da militância e do controle social. Devemos nos unir para lutarmos por nossos direitos e por um acesso equânime e justo à saúde, sem querer ser “estrela” ou “donos” de coisa alguma, mas entendendo que essa luta é nossa, de cada um de nós que sofremos com os olhos amarelos, vivendo com HIV.
Vale aqui destacar que saúde não se resume ao comprimido, ao hospital ou a agenda médica. Identificar os grilhões que nos prendem, exigir a liberdade de sermos quem somos, não ser julgado pelo cor da pele, enfim, levantar-se contra as opressões que nos sufocam é igualmente saudável, assim como tomar comprimidos religiosamente. A propósito, ser livre para cultuar seus deuses, seja no templo, seja no terreiro, também diz sobre saúde.
Todas as manifestações populares de expressão democrática também estão produzindo espaços de saúde. Os coletivos da periferia que ousam levar a arte aos lugares mais extremos e abandonados pelos poderes públicos também estão produzindo espaços de saúde.
A chamada adesão ao tratamento antirretroviral é atravessada por múltiplos fatores que envolvem acesso à moradia, lazer, saneamento básico, educação, cultura, afeto, etc. Deste modo, a luta por qualidade de vida dos jovens vivendo com HIV é também a luta pelo direito à Cidade, de ocupá-la de outra forma, não com sua tradição bandeirante de “embranquecimento” e genocídio, mas colorindo cada esquina, do Capão Redondo à Guaianases, dos Jardins à Brasilândia, cada canto com os nossos sambas e risos.
Muitas coisas precisam ser discutidas junto a questão do HIV, a política de drogas, a militarização da polícia, o encarceramento em massa. Nossa juventude (preta e periférica principalmente) esta sendo assassinada dia-a-dia, a aids é só mais um matiz que colore este triste quadro.
Mas eu, pisciana, por ingenuidade ou desespero, acredito que São Paulo pode ser um bom lugar, mesmo sendo aquariana.
Termino este quase desabafo com um apelo: Jovens Vivendo com HIV no Estado de São Paulo, Uni-vos!
* Aline Ferreira é integrante do NegraSô e da comissão de articulação política da RedeSP+, estudante de psicologia e pisciana.
Apoios




