Vale a pena realizar ações de prevenção ao HIV e outras IST no Carnaval?

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Eu mesmo, quando começamos a realizar atividades de prevenção no Carnaval de Salvador e via os grandes lançamentos das campanhas de prevenção do Ministério da Saúde (nas épocas áureas…), duvidava se essa estratégia era realmente importante. Hoje, não tenho nenhuma dúvida e sou um entusiasta defensor e promotor de ações de prevenção no Carnaval.

O Carnaval é o feriado mais popular do Brasil e se tornou um evento de grandes proporções em muitas cidades e nas principais capitais do país, levando multidões às ruas em festas que duram vários dias. É uma celebração que, embora de origem europeia, se potencializou com a mistura da herança africana, dos sons, das cores, das tradições, da alegria e de todas as contribuições da população negra nesta terra brasilis.

É uma festa multicultural que, em cada local, tem suas características próprias, mas uma coisa em comum: a mistura de todas as classes sociais. As cores, a origem e até a religião são esquecidas por esses dias, e vive-se uma mistura efervescente de atividades e folia.

Nesse contexto, o Carnaval oferece um ambiente estratégico para a movimentação de pessoas – da periferia para os “centros”, de pequenas cidades para as capitais… Essa movimentação e o “anonimato” fazem com que muitas pessoas percam a timidez ou vençam barreiras físicas (locais) ou de estigma e procurem serviços de prevenção, testagem e até assistência. Alcançar pessoas que enfrentam barreiras de acesso a esses serviços, seja pela desinformação ou pelo estigma, é um objetivo muito louvável.

Minha atuação no Carnaval de Salvador já dura mais de 20 anos, e, ao longo desse tempo, fomos aprendendo cada vez mais sobre abordagens, demandas, realidades etc. Já realizamos várias atividades conjuntas com as Secretarias de Saúde da Bahia e de Salvador, em parceria com ONGs e organismos internacionais, como o Unaids e o Unicef.

Neste ano de 2025, a Motirô BA, instituição que dirijo, está implementando o Rolê da Prevenção, uma ação colaborativa com a Secretaria Municipal de Saúde de Salvador e o apoio do Unaids. Durante os dias de Carnaval, mobilizadores e ações de prevenção estarão atuando para fortalecer a prevenção e o cuidado relacionados ao HIV e outras ISTs. O foco principal é a população negra mais vulnerável, incluindo pessoas trans, gays e outros homens que fazem sexo com homens.

Estaremos dando apoio às unidades fixas da SMS, colocadas nos dois principais circuitos do Carnaval, com a distribuição de insumos de prevenção, abordagens informativas, encaminhamento para testagens e acesso à PrEP. O Carnaval é uma oportunidade ímpar para ajudar a vencer barreiras, permitindo que populações mais vulneráveis tenham contato com unidades especiais de saúde no “meio da multidão” e, assim, superem o estigma de ir a uma unidade fixa em sua própria comunidade.

Como observei muitas vezes no Carnaval, o fato de tantas pessoas passarem de uma a duas horas do seu “tempo de lazer e folia” em uma unidade para fazer um teste indica que essa iniciativa é absolutamente necessária e precisa ser disponibilizada.

* Javier Angonoa é diretor da Associação Motirô BA. Foi consultor do Unaids e Unicef.

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