Por Pe. Alfredo Dorea
Raimundo tinha 40 anos, mas aparentava uns 60. O corpo carcomido pela indigência na qual nasceu e viveu e agora pelas consequências da aids ainda não tratada. Fui visitá-lo por insistência de Dona Conceição Macedo, enfermeira aposentada que cuidava de uma dezena de pessoas empobrecidas vivendo com o HIV e aids em Salvador-BA. Era Natal e ali estava eu, diante do enfraquecido Raimundo, que ao me ver sorriu e exclamou:
– Padre, o senhor aqui hoje, na minha casa, é como se Deus me visitasse. Para mim, que sempre me senti um desgraçado: pobre, sem pai, sem mãe, discriminado por ser homossexual e agora por ter o vírus da aids… A sua presença é graça de Deus!
Escondi as lágrimas, forcei um sorriso e nada disse. Eu que entrara ali cheio de medos e preconceitos. Eu que nada dissera ou fizera, senão manter-me longe daquele homem acamado. Raimundo dava conteúdo ao meu Natal.
Tia Conça quebrou o gelo e as barreiras da discriminação: acariciou Raimundo na cabeça e fronte e pediu pra ver seu álbum de fotos.
– Olhe como ele é lindo padre. Veja aqui essa foto no desfile do miss Bahia Gay. Esse menino é lindo e sempre foi muito cuidadoso.
Raimundo acompanhava com o olhar as fotos que Tia Conça ia folheando no seu álbum e esboçava um sorriso de saudade.
– Não tenho nada para oferecer para vocês. Desculpou-se Raimundo. Esse meu Natal vai ser uma tristeza.
– Vai nada, contestou Tia Conça. Nossos amigos e amigas mandaram uns presentinhos pra você. A equipe da Igreja Messiânica mandou sucos e leite; mãe Jaci de Oyá mandou a torta; o pastor Fabrício mandou as frutas e as travestis da Pituba mandaram um perfume e querem saber se para o reveillon você prefere um vestido ou uma bermuda branca.
Da casa ao lado vinha o som da clássica "Noite Feliz". Raimundo já estava sentado, com os presentes no colo. Coloquei-me ao seu lado e ele me ofereceu o primeiro pedaço da torta.
Tia Conça trouxe o copo de suco de tangerina, que Raimundo dividiu entre nós três.Antes que partíssemos Raimundo nos surpreendeu de novo:
– Tenho algo para vocês também, disse ele levantando-se na direção do presépio, de onde retirou duas estrelas do mar.
– Eu encontrei essas estrelas no tempo em que eu fazia "pista" na avenida beira-mar.
Já de pé, abracei Raimundo com grande emoção e meu desejo era transferir para ele toda a esperança do mundo.
– Fique com Deus Raimundo!
– Obrigado, padre. A visita de vocês me deixou mais animado. Pra mim o Natal já começou. Eu não vou poder abraçar todo mundo que eu gostaria, então vocês, por favor, digam pra todos e todas que encontrarem, que nós, que estamos vencendo a aids, precisamos agora vencer o preconceito, que mata mais que ela.
Dois beijos em cada face, novos abraços e o carinhoso "vá com Deus."
Um silêncio cheio de conteúdo marcou os 12km de volta. Tia Conça socorreu-me com um lenço e segurava sua estrela do mar como um troféu.
Passados 10 anos ainda hoje as pessoas me perguntam o que faz uma estrela do mar no meu presépio. Lá do céu Raimundo bem sabe quanto foi de Luz, para mim, aquele Natal. Desde então a luta contra a aids e contra toda forma de preconceito tem sido, mais que slogan, um compromisso de vida.
A cada noite de Natal escolho uma estrela no céu e canto para todos os Raimundos: NOITE FELIZ!
Alfredo Dorea é padre e gerencia a Instituição Beneficente Conceição Macedo, em Salvador-BA
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