Uma reflexão sobre o HIV e a Ayahuasca

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Por Ramon Nunes Mello*

2404/2017 – Uma reflexão. Após a solicitação de um amigo, me senti provocado a escrever sobre minha experiência com o HIV e a Ayahuasca. Desde que compartilhei publicamente minha sorologia positiva, em dezembro de 2015, inúmeras pessoas me escrevem perguntando sobre a vivência com o vírus. Quando sabem que tomo Ayahuasca, bebida enteógena utilizada para fins religiosos cuja regulamentação é aprovada pelo Conad (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas) no Brasil, me perguntam: Como é consumir Ayahuasca vivendo com HIV? Há algum tipo de interação dos antirretrovirais com Ayahuasca?

Antes de responder a essa pergunta é necessário explicar o que é Ayahuasca: “Ayahuasca (do quíchua, que significa ‘vinhos dos espíritos’), também conhecida como Hoasca, Daime, Iagé, Uni, Santo-Daime e Vegetal, é uma coacção produzida a partir da combinação da videira Chacrona (Psychotria Viridis) com o cipó Jagube (Banisteriopsis Caapi). Ayahuasca possui propriedades psicoativas devido à presença, nas folhas da Chacrona, de uma substância denominada N,N-dimetiltriptamina (DMT), cuja molécula é similar à molécula da serotonina e encontra-se presente no organismo humano. A bebida também atua como inibidor da monoamina oxidase (MAO) devido à ação de β-carbolinas (Harmina, Harmalina e Tetrahidrahamina), alcaloides presentes no cipó Caapi.”

Não sou o único que vive com HIV e toma Ayahuasca, obviamente, mas talvez seja um dos poucos que fala abertamente sobre o assunto. Inúmeras pessoas, no Brasil e no mundo, fazem o uso ritual de Ayahuasca como uma experiência espiritual de expansão de consciência. Existe a crença no meio ayahuasqueiro que "o Daime cura tudo, menos sentença", entretanto, a questão fundamental, no caso do HIV, não é a Ayahuasca tirar a pessoa da condição de soropositivo, mas principalmente lhe proporcionar vida e saúde. A orientação da espiritualidade é de fazer o tratamento espiritual simultaneamente ao tratamento medicamentoso, não é de substituir.

Se, por ventura, alguém orientar por substituir o tratamento trata-se de fanatismo e/ou charlatanismo, pois a Ayahuasca (e nenhuma outra medicação alternativa, terapia holística ou crença espiritual) não substitui o tratamento de antirretrovirais, pelo menos até o presente momento. A literatura médica no Brasil e no exterior, de acordo com estudiosos sobre Ayahuasca, não apresenta até então nenhum estudo sobre o assunto HIV x Ayahuasca. Acredito que a carência de pesquisa sobre o assunto se deve principalmente ao tabu que envolve os dois temas.

Posso falar a partir de minha experiência pessoal com Ayahuasca: ajuda na aceitação de sua condição soropositiva, elimina depressão (há inúmeros estudos científicos relevantes sobre o assunto), fortalece o senso de altruísmo, limpa a mente de medos e preconceitos, e melhora o sistema imunológico. Entendo que o bem-estar causado pela Ayahuasca, essencial a saúde física, mental e espiritual, fortalece a imunidade. E digo ainda que há outras pessoas que estão soropositivas e fazem uso da Ayahuasca e que compartilham comigo a mesma percepção da experiência.

Portanto, de acordo com minha experiência pessoal, afirmo que não há contraindicação do consumo de Ayahuasca por quem está soropositivo. Faço uso regular de Ayahuasca há cinco anos, desde então não tive nenhuma alteração prejudicial a minha saúde. Pelo contrário, me sinto muito mais saudável. Evito apenas ingerir o antirretroviral durante o consumo da Ayahuasca, tomo a medicação do HIV (ou qualquer outra, desde que não tenha contraindicação) após o término do trabalho espiritual, quando estou em casa.

Então, todos podem tomar Ayahuasca? Não de qualquer jeito, há preceitos que devem ser respeitados. Tampouco deve ser consumida só por curiosidade ou por busca de uma experiência recreativa. Ayahuasca é uma planta de poder, portanto deve ser utilizada apenas em contexto ritual, com a dirigência de pessoas responsáveis e experientes. Essa questão independe da pessoa estar soropositivo, soronegativo ou sorointerrogativo. Além disso, há certas condições de saúde física e mental pré-existentes em que não se deve utilizar Ayahuasca ou consumi-la com cautela, como, por exemplo: “Ayahuasca não é indicada a utilização do chá concomitante ao uso de medicamentos antidepressivos e substâncias com efeitos nos níveis de serotonina. Também não é recomendada a utilização de Ayahuasca para pessoas que estejam fazendo uso de álcool, cannabis, cocaína, dextrometorfano (DXM), anfetaminas, metanfetaminas (MDMA), ecstasy, mescalina psilocibina e LSD.”

Enfim, para utilização da Ayahuasca é necessário que se tenha responsabilidade, como tudo que envolve a vida, principalmente no que diz respeito a saúde. Costumo afirmar que Ayahuasca, para mim, é vida, e que me ensina ancorar a presença no corpo. Acredito que a grande cura do HIV é o combate ao preconceito. A linguagem é o verdadeiro vírus. Por isso é necessário se conversar sem medo sobre o assunto, ciente que vulnerabilidade é igual para todos, independentemente de religião, condição social ou gênero, sem distinção.

Faço votos que os estudos sobre Ayahuasca e HIV sejam aprofundados, com a devida atenção e respeito que esses temas exigem.

* Ramon Nunes Mello , natural de Araruama (RJ), é poeta, escritor, jornalista e ativista de direitos humanos. É autor dos livros de poemas “Vinis Mofados” (2009), “Poemas tirados de notícias de jornal” (2010) e “Há um mar no fundo de cada sonho” (2016).

 

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