Sempre é um misto de sentimento o ato ético de escrever. Por isso, talvez, afirma-nos o filósofo: “Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida”.1
Isso fica mais intenso e evidente quando se demonstra sentimentos e razões envoltos a alguém que já fizera a sua desencarnação, ou, ainda mais, quando realizou a sua páscoa definitiva e, portanto, numa narrativa póstuma. É o caso específico de falar algo sobre o Papa Francisco. Estamos diante de uma Alma muito elevada! Seu Ministério Petrino trouxe-nos à tona muitas psicopatologias e sociopatologias reinantes no mundo eclesial e na complexibilidade contemporânea. Fico bastante grato com o convite, amoroso e terno, que me fizera Roseli Tardelli [diretora e criadora da Agência de Notícias da Aids], amiguíssima amável de um bom tempo. As cercanias da ternalidade e da cordialidade, desejo expressar, aqui e agora, o meu sentir e compreensão do Papado e Legado de Francisco. Apresento-lhes, então, apenas uma singela ponderação, sempre na dialética do amor, da paz e da singeleza.
Primeiramente, Francisco nos deixa uma Igreja mais desejosa de mergulhar no bálsamo da infinita e belíssima Misericórdia Divina.2 Nesse aspecto, Francisco fora a manifestação das páginas vivíssimas do Evangelho Redivivo do Grande e Excelso Psicoterapeuta do Espírito, Jesus de Nazaré, o Cristo, sobretudo, da Parábola da Santa Misericórdia descrita pelos coração, mente, lábios e mãos do evangelista Lucas [cf. Lc 15, 1-3.11-32] e, mais ainda, daquela tessitura e episódio [real], que nos convida a abrir as telas dos padrões do Sentimento e da Inteligência [da Razão], nos moldes descritos pela Alma Elevadíssima do evangelista João: a cena da pecadora da cidade, a mulher adúltera [cf. Jo 8, 1-11]. É nesse contexto e direção que o Santo Padre, Francisco, epifaniza a sua proximidade, ternalidade e cordialidade com a Comunidade LGBTQI+. Abrem-se as portas para o acolhimento e a compreensão, sempre na dialética do Amor, da Graça de Deus, da Misericórdia, da ternalidade, da cordialidade, expressões profundas de uma verdadeira e genuína espiritualidade. Hic et nunc [em latim, “aqui e agora”], no cosmo íntimo do Santo Padre, está o resgate daquela expressão profunda da língua hebraica: “go’alḵem”, do verbo gā’al, “vosso resgatador”. O Eterno Deus é Aquele que resgata a criatura humana devolvendo-lhe a dignidade divina e humana.
É assim, sinto e penso, que sente-se a Comunidade LGBTQI+ com a ternalidade, a amorosidade e a cordialidade do Papa Francisco: ele é o nosso resgatador. Ele oferece amparo, dignidade, solidariedade e compreensão! Contudo, para ser resgatador é necessário ser misericordioso [ter misericórdia], a exemplo do Excelso Psicoterapeuta Jesus Cristo. Aqui lembramos, também, a terminologia misericórdia no seu sentido hebraico: “raḥûm”, “ḥannûm”, “ḥesed” (cf. Sl 102, 8): são atributos elevados, fortes e energéticos, por excelência, para indicar a Misericórdia de Deus: literalmente, “misericordioso”, “gracioso”, “leal”. O último termo, “ḥesed”, possui dois significados que, na realidade, se complementam, estão em profunda relação dialética, se interpenetram, a saber, “misericórdia”, daí, é sinônimo de “raḥûm”. Nesse caminho, o termo foca o aspecto gratuito da benevolência divina; o segundo aspecto é de “lealdade”, evidenciando o compromisso ético divino, sobretudo, em relação à sua lealdade às cláusulas da Santa Aliança [a Torá]. O termo pode ser traduzido de muitos modos: favor, benefício, graça, serviço, ajuda, misericórdia, clemencia, bondade, benevolência, piedade, compaixão, pena, afeto, ternura, caridade, lealdade, amabilidade, simpatia, atração. O Santo Padre, Francisco, atrai com o seu gesto, afável e cordial, os excluídos para dentro da Comunidade Eclesial [com sua vibração interna, com sua ressonância divina e humana]. Assim, faz o processo da inclusão, do pertencimento.3 Todos tem o direito de pertencimento. Ninguém poderá estar excluído ou ser segregado. A Comunidade Eclesial é lugar de perdão, de fé e de reconciliação. A Comunidade Eclesial [a Santa Mãe Igreja] não é lugar dos bons e dos politicamente corretos, é lugar de pessoas humanas, de Espíritos Encarnados fazendo experiências humanas para se humanizarem e se espiritualizarem.4 Sim, devemos ser livres, mas fiéis a Cristo Jesus, dizia-nos o grande teólogo moralista, Bernhard Haering. Nada e absolutamente nada poderá corromper a nossa liberdade em Cristo Jesus; não resta dúvida, certamente, essa liberdade, exige-nos ação de compromisso e responsabilidade ética. A Contemporaneidade necessita que nós superemos as roupagens históricas e “culturais” que impuseram à pessoa de Jesus. Necessitamos, urgentemente, de descrucificar e despir, o Amadíssimo, Companheiro e Excelso Psicoterapeuta, Jesus, o Cristo. Isso o Papado de Francisco realizou com profunda ternalidade, cordialidade e compromisso ético, esforçando-se em dar a Jesus sua roupagem real e, por isso mesmo, dando ou devolvendo a Igreja [a Comunidade Eclesial] sua natureza genuína: construtora de paz, de misericórdia e de pontes e nunca condenando, como assevera-nos Santo Inácio de Loyola.
O mesmo, Francisco fizera com os casais de segunda união, com o diálogo interreligioso e com outras realidades eclesiais e humanas, que não nos são necessárias aludi-las nesse espaço específico que me fora solicitado. Sua vida, sua existência e sua testificação falam por si mesmas de seu papado e legado à Igreja de Cristo e à Humanidade de Deus. O presbítero, Pe. Abbé Pierre, contemplando e meditando, silenciosamente, a perícope de Mt 27, 35-42, assevera-nos que, “aquilo que vale no fim da vida é a comunidade inteira, o universo na sua plenitude. Mas todos, aparentemente ou em segredo, pensam que é o sacrifício dos outros que deve levar a esta realização. Se, pobre e audaz, uma pessoa progride e nos lembra que a alegria universal nasce do sacrifício de si mesma e não do dos outros, é escarnecida, insultada, presa […]. E, no fim, nos convencemos de que o único meio de nos libertarmos dela será matá-la”.5 O Ministério Petrino do Papa Francisco fora marcado por sacrifício supremo de provação, de comprovação da fé, da perseverança, de obra de perfeição e integridade e decência,6 no confronto silencioso na linha tênue e sutil de atitudes perversas e escarnecedoras. É uma verdadeira e profundíssima Via Pulchritudinis [em latim, Caminho de Beleza], pois sua voz é uma voz transcendente.
Agradeçamos os gestos de misericórdia, de resgate, de paz, de perdão, de reconciliação, de acolhimento, de saúde e de felicidade que o Sumo Pontífice, Francisco, energizou-nos com sua experiência profunda e energética de Deus, de Cristo e do Espírito Santo. Gestos esses que devemos, também, nós, repetirmos para que a Misericórdia de Deus possa nos envolver, tornando-nos assim, testemunhas vivas de sua Caridade, daquele amor de Cristo que o mundo e a Igreja necessitam, para não se petrificarem nem tornarem-se teomânicos [uma espécie de querer ser pequenos ou grandes deuses, ou, mais ainda, de querer ser poderoso como um deus ou mais que Deus],7 narcisistas e megalômanos [com mania de grandeza].8 Seu Ministério Petrino fora assumido na contracorrente! Ou seja, numa verdadeira atitude profética! Gratidão!
Referências bibliográficas:
1 Gilles Deleuze.
2 PAPA FRANCISCO. Misericordiae vultus. O rosto da misericórdia. Bula de proclamação do Jubileu extraordinário da Misericórdia. São Paulo: Paulinas, 2015. [A voz do Papa, 200]; PAPA FRANCISCO. Dilexit nos. Sobre o amor humano e divino do coração de Jesus Cristo. São Paulo: Paulinas, 2024. [A voz do Papa, 216].
3 Utilizando-me, no último termo, de vocábulo apropriado da Psicologia Sistêmica, ou, ainda mais, da tessitura das Constelações Familiares, conforme o grande psicoterapeuta, Bert Hellinger.
4 Pe. Pierre Teilhard de Chardin.
5 Alessandra BERELLO [org.]. Cinco minutos com Deus e Abbé Pierre. Trad. Antônio Efro Feltrin. São Paulo: Paulinas, 2010. p. 104. [Coleção Cinco minutos com Deus].
6 Cf. Tg 1, 2-4; 2Cor 12, 9b-10; 1Pd 1, 6-9.
7 De fato, há no seio da Comunidade Eclesial aqueles que desejam, à luz de regras e de leis, serem deus ou se colocar no lugar de Deus, com suas posturas apologéticas exacerbadas e alteradas em seu agir e pensar. Normalmente, esse estado psicopatológico e sociopatológico leva o ser humano a atitudes megalômanas. Parece-me ser evidente esses estados nas pessoas religiosas.
8 Teomania e megalomania, conceitos cunhados da Psicanálise Integral, de Drº Norberto R. Keppe, criador da Trilogia Analítica.
* Pe. Manoel Olavo Amarante, Diocese de são Miguel Paulista Região Episcopal Itaquera – Setor Pastoral A. E. Carvalho Paróquia Santa Ana
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