UMA NOVA GUERRA SANTA? – Roberto Pereira é psicólogo, membro da Comissão de Direitos Humanos do CRP/05, coordenador do Centro de Educação Sexual – CED

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x



Roberto Pereira

Mais uma vez a Igreja Católica, dessa vez sob o comando de Bento XVI, dá sinais da sua visão estreita, retrógrada, preconceituosa e anacrônica.

Sob o falso argumento de estarem preocupados com os freqüentes escândalos de abuso sexual no clero, o alto generalato de Roma acaba de deflagrar uma verdadeira caça às bruxas, no caso aos homossexuais, da mesma forma que a Santa Inquisição se deleitou durante séculos (e que de Santa não tinha nada).

Nada mais absurdo que isso, principalmente se é fato notório a atidude sinuosa da Igreja em abafar os escândalos de violência sexual dentro dos seus muros, só o fazendo sob a pressão da imprensa e da sociedade.

Sabemos que excessos acontecem e, em se tratando de situações de abuso e violência sexual contra crianças e adolescentes, devem ser investigados e punidos. Mas pelo teor da notícia (publicada no Jornal O Globo, de 15 de setembro, com o título “Vaticano vai vasculhar seminários dos EUA em busca de homossexuais”) não é bem essa a preocupação de Roma já que a orientação dos Bispos, quando se referem à “purificação da Igreja”, tem como único objetivo colocar a homossexualidade no banco dos réus e causa de todos os males.

Vincular orientação homossexual com pedofilia é uma estratégia torpe e cruel que, sob falsos argumentos, tem como único objetivo legitimar o inconcebível e fomentar a perseguição aos homossexuais.

Não cabe aqui criticar os dogmas cristãos pois, só aos que neles acreditam, cabe tal atitude. Entretanto não é possível que, em pleno século 21, ainda tenhamos que aceitar posições excludentes e fundamentalistas como essa.

Na negação da sexualidade é que reside o grande cancro que devora a Igreja de dentro para fora. Persistir nessa estranha lógica que associa desejos e instintos a uma visão de pecado, é tentar manter a sexualidade humana como coisa do diabo e negar a natureza humana.

A Igreja continua a mentir como sempre o fez e não demonstra o menor ressentimento por isso. Não é à toa que milhares de homossexuais foram mutilados e dizimados em campos de concentração durante a segunda grande guerra e até hoje não se ouviu de nenhuma autoridade da Igreja o pedido de perdão pela total omissão em relação a isso.

Defender o celibato e impor a abstinência a seminaristas e padres, isto sim, para usar as palavras da própria Igreja, são “atos intrinsecamente distorcidos”.

Roberto Pereira é psicólogo, membro da Comissão de Direitos Humanos do CRP/05, coordenador do Centro de Educação Sexual – CEDUS, presidente do Fórum ONG/AIDS-RJ e membro da Comissão Nacional de AIDS-MS.

Apoios