Telma de Souza
A divulgação do relatório anual da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a epidemia global da Aids – dando conta de que 39,5 milhões de pessoas vivem hoje com o HIV no mundo – coincidiu com a realização da III Conferência Parlamentar Internacional sobre a Implementação do Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), em Bangkok, na Tailândia.
Compareci ao evento, na qualidade de representante do Parlamento brasileiro e confesso que, apesar de minha já considerável experiência no campo das ações de combate à doença e de garantia aos direitos dos indivíduos vivendo com HIV, o contato com as informações trazidas pelas centenas de parlamentares e técnicos de todo os cantos do planeta fez com que eu refletisse, de maneira ainda mais aguda, sobre a complexidade da epidemia e dos meios necessários para seu enfrentamento nas próximas décadas.
Embora o encontro não fosse específico sobre a Aids, mas a respeito do nível de progresso na consecução das metas de saúde reprodutiva nos países em desenvolvimento – contexto no qual a contaminação pelo HIV desempenha papel por demais preocupante -, alguns pontos, mesmo já destacados em outras oportunidades, foram evidenciados de maneira ainda mais contundente em Bangkok.
Um dos mais significativos é a constatação de que avanços em ações de saúde reprodutiva e de igualdade de gênero são essenciais para alavancar o desenvolvimento das nações e combater a miséria no planeta. E tais esforços devem ser feitos de forma internacionalmente conjugada, apesar de focados regionalmente.
É uma característica marcante, no que se refere à Aids, a pauperização, a feminização e a interiorização da epidemia. Em uma abordagem global, isso se evidencia nos altos índices de prevalência da miserável África subsaariana, que concentra hoje 24,7 milhões de portadores do vírus, perfazendo 63% do total mundial.
Já quanto à feminização da doença, ela é também bem mais insidiosa nas regiões mais pobres do planeta e do país. Se nos estratos sociais de padrão econômico mais elevado – onde, supõem-se, o nível de informação sobre os direitos femininos e a respeito de noções básicas de saúde sexual é proporcionalmente mais alto – os índices de contaminação continuam aumentando de ano para ano, é fácil imaginar o que vem acontecendo entre as mulheres de camadas sociais mais baixas, onde a pressão econômica é acrescida, em muitos casos, de devastador preconceito cultural.
Não quero cair aqui nessa espécie de niilismo elitizado que vem caracterizando as referências a datas que marcam batalhas difíceis de serem vencidas, afirmando que não há nada ou muito pouco o que se comemorar em mais este Dia Mundial de Luta contra a Aids. Ao contrário, obtivemos, sim, grandes avanços, no Brasil e no mundo, e a própria complexidade através da qual a epidemia é hoje abordada – tome-se por exemplo a constatação do avanço de casos entre pessoas da terceira idade – é uma comprovação de que estamos dando passos importantes em nosso combate.
É, no entanto, essa mesma complexidade que nos demonstra o quanto ainda temos que caminhar. Na minha já longa trajetória convivendo com os sucessos e fracassos nos embates contra o HIV, afirmei, por diversas vezes, que a batalha contra a Aids era uma batalha em defesa da vida. Hoje, tal afirmação faz cada vez mais sentido para mim, pois descobri que, por meio de nossos esforços tentando deter o avanço da doença, compreendemos que não estamos apenas combatendo um vírus, mas uma série de ameaças à sobrevivência da espécie humana neste tão castigado e maravilhoso planeta.
Telma de Souza é deputada federal (PT-SP) e coordenadora da Frente Parlamentar em HIV/Aids doCongresso Nacional. Foi prefeita de Santos (1989/1992)
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