Adriana Gomez, jornalista
A Saber Viver acaba de lançar duas edições especiais relacionadas ao tema adolescência e Aids: a Saber Viver Jovem e a Saber Viver Profissionais de Saúde. Essa experiência talvez tenha a sido a mais desafiadora e enriquecedora na história da Saber Viver Comunicação. Sobretudo, envolvendo a edição da Saber Viver Jovem.
A importância de lançar uma publicação especifica para jovens com HIV/Aids ficava mais evidente a cada visita que fazíamos a hospitais e ONGs que ofereciam atendimento a esse público. Percebíamos, através de conversas com grupos de adolescentes, que conseguiríamos atingir esse público se utilizássemos uma linguagem adequada e, principalmente, mergulhássemos no universo dessa geração, desvendando medos, planos e desafios. Surgiu, então, a possibilidade de trabalharmos junto com o Programa Nacional de DST/Aids, que estava se debruçando sobre o tema, promovendo encontros nacionais e elaborando oficinas com jovens soropositivos em várias capitais brasileiras. A intenção do Programa era ouvir as demandas e, a partir delas, construir uma proposta oficial para a área.
Mochila nas costas, acompanhamos a equipe do Programa Nacional por um mês em eventos em Belém, Belo Horizonte e Salvador. Foram horas de entrevistas com vários jovens soropositivos e profissionais de saúde. Não tínhamos (e nem queríamos ter) temas pré-estabelecidos. A nossa intenção era montar a Saber Viver Jovem a partir dos assuntos que protagonizam a vida dos jovens com HIV e tivemos carta-branca do Programa Nacional de DST/Aids, que confiou na nossa experiência como editoras da revista Saber Viver há quatro anos (Publicação destinada a pessoas que vivem com HIV/Aids distribuída gratuitamente nas unidades de saúde e ONGs brasileiras). Sem dúvida, aprendemos muito em todo esse processo. Aproveito, agora, a oportunidade dada pela Agência Aids à Saber Viver para destacar algumas questões que surgiram ao longo desse projeto.
Os temas recorrentes entre os nossos entrevistados foram namoro, família, escola, amigos – assuntos que fazem parte do universo de qualquer adolescente. Porém, com um ingrediente amargo: o preconceito. Percebemos o quanto os jovens soropositivos ainda sofrem com a discriminação e o preconceito, principalmente na escola. Todos os adolescentes que conversaram conosco relataram algum fato ocorrido no ambiente escolar envolvendo amigos, professores ou até diretores. As histórias são cruéis em um país que acumula tantas conquistas na área da Aids. Sem agüentar a pressão, a maioria muda de colégio com muita freqüência, colocando em risco seu desempenho escolar. Afinal que futuro estará reservado a esses jovens caso eles não consigam estudar?
A importância da família na vida de qualquer adolescente é fundamental. Percebemos, nos relatos, que uma família interfere diretamente na maneira do jovem conviver com a Aids. Se o núcleo familiar encara a infecção pelo HIV de forma natural, provavelmente o adolescente desta família também terá uma relação mais clara com a infecção. Um bom exemplo disso foi a entrevista que fizemos (publicada na Saber Viver Jovem) com um rapaz de uma cidade do interior de Rondônia. A Aids não impede este jovem de namorar, trabalhar e ter planos para o futuro: “Quero me formar, ser engenheiro e me casar. Isso está praticamente certo que eu vou conseguir”. Por outro lado, encontramos jovens de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte com muito medo de enfrentar a vida. A diferença entre esses dois universos estava na família: a família do jovem de Rondônia não enxerga a Aids como um castigo, ao contrário das de outros jovens, que sofrem com o auto-preconceito. Antes de começarmos este trabalho, imaginávamos que os jovens dos grandes centros seriam mais esclarecidos. Entretanto, aprendemos, na prática, que independente da região em que ele viva, a família exerce uma grande influência na forma com que esse jovem encara o HIV.
Por fim, quando perguntamos aos adolescentes se eles se acham diferentes dos jovens soronegativos, praticamente a metade respondeu que não. Os que responderam sim relacionaram a diferença ao fato de tomarem vários remédios por dia. A questão do tratamento para esse grupo não é fácil. Vários profissionais de saúde no Brasil tentam desenvolver, com muita seriedade, estratégias para facilitar a adesão de seus pacientes adolescentes. Na Saber Viver Jovem, expomos a dificuldade de tomar os medicamentos com muita sinceridade, assim como fizemos com todos os temas abordados na publicação. Não poderia ser de outra maneira, afinal, formamos um pacto velado com esses adolescentes que inclui respeito, admiração e muita solidariedade. Vocês estão convidados a lerem a Saber Viver Jovem e mergulharem no universo dos adolescentes brasileiros que vivem com HIV/Aids. Todos nós temos muito a aprender com eles.
Adriana Gomez, jornalista, que coordena, com Silvia Chalub, a Saber Viver Comunicação. E-mail: adriviver@uol.com.br
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