Por João Silvério Trevisan
Era uma vez um menino de nove anos, que foi jogado no meio de um rio caudaloso, para aprender a ser homem. Quando conseguiu voltar à margem, sob zombaria dos primos e tios, ele pensou: “Vou ser homem sim, mas não igual a vocês”.
Esse menino era eu. Continuei lutando na contramão da correnteza, até assumir o que eu era, sexualmente. Amei muitos homens, às vezes em cinco minutos, outras em cinco anos. Às vezes fui infeliz, em outras bastante feliz. Aprendi a respeitar meu amor. E, para exigir respeito da sociedade, ajudei a fundar o movimento pelos direitos homossexuais no Brasil. Com muito entusiasmo, dificuldades sem fim e algumas vitórias.
Até que, na cidade de São Paulo, me vi no meio de outro rio. A cada ano mais caudaloso. Com alegria, mergulhei de cabeça. Era um rio de gente, que falava a mesma linguagem do meu amor. Vi nascer o pequeno rio da Parada do Orgulho Gay, que afinal se tornou do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transgêneros).
No começo, éramos poucas pessoas, muitas disfarçadas detrás de óculos escuros. Lá por 1998, lembro de ter encontrado uma travesti trôpega, subindo a rua para juntar-se à multidão que se formava na Avenida Paulista. Ela vestia restos de fantasia de Carnaval. E nos contou que estava com bolhas nos pés de tanto andar desde o seu bairro. Quando riu para nós, ostentou várias falhas entre os dentes. Lembro que não consegui conter as lágrimas. E assim foi, durante os anos subsequentes: era difícil mergulhar nesse rio amoroso sem chorar de emoção. Eu via lá atrás o menino que eu tinha resgatado do desamparo.
Apesar de imensas dificuldades financeiras, a Parada foi crescendo até se tornar um rio caudaloso. Aliás, a maior do mundo. Dancei pelas ruas, subi em trios elétricos e, no final, descobri o terraço do Conjunto Nacional, de onde se tem uma visão monumental do espetáculo na Paulista. Lá encontrei muita gente. Mas o que mais me marcou foi, em 2011, ter a companhia do ator inglês Stephen Fry, que me entrevistara para um documentário da BBC. Eu, ele, meu namorado e a equipe irradiávamos alegria. No final, meio tocado pela quantidade de "caprinas" (entenda-se: "caipirinhas"), Stephen também chorou ao ver a multidão. "Oh, I´m getting sentimental, these days…", comentou com seu indisfarçável sotaque britânico. Em seguida, acrescentou, com cara de moleque safado: “Você já imaginou a quantidade de porra que vai correr está noite?” Eu lhe respondi: “Sim, sim, vai ser um rio de porra.” Ele riu, eu ri. Afinal, era bom estar no meio daquele rio. E eu, com certeza, tinha realizado meu antigo desejo de ser um homem diferente.
João Silvério Trevisan é escritor, jornalista, dramaturgo e ativista pelos direitos da população LGBT
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