Irina Bacci
Neste mês de março o CRD – Centro de Referência da Diversidade completa um ano. Inaugurado em 2008, é um espaço administrado pelo Grupo Pela Vidda/SP, ONG que em breve completará 20 anos de luta contra a aids. Viabilizado por meio de concorrência pública e de convênio com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), o serviço inédito integra o Projeto Inclusão Social Urbana – Nós do Centro, uma iniciativa da Prefeitura de São Paulo e da União Européia.
O objetivo do Centro de Referência da Diversidade é desenvolver ações que possibilitem a garantia da inclusão social e a geração de renda na região central de São Paulo. É um espaço destinado a atender homens e mulheres profissionais do sexo; gays e lésbicas; travestis; transsexuais e pessoas que vivem com HIV e aids em situação de vulnerabilidade e risco social.
Neste período, vivenciamos intensamente a exclusão social. Com a porta aberta para a realidade, pudemos observar e sentir de perto as conseqüências das péssimas condições de vida de tantas pessoas, ao longo do tempo excluídas pela sociedade e negligenciadas pelo poder público.
Nós, ativistas, sempre nos preocupamos com a relação entre aids e exclusão social. Mas deste ponto onde estamos, do CRD, a nossa preocupação, do Grupo Pela Vidda/SP, passou a ser também a relação entre a exclusão social e a aids.
Para muitos, pode parecer que não há diferença do que vem primeiro. Pois estamos certos de que a exclusão social é um determinante de incomensuráveis impactos na epidemia da aids.
Muitos estudos já relacionaram aids com pobreza, com raça/etnia, com populações mais vulneráveis, com as relações de poder. Mas ainda não existem práticas consolidadas que tenham um olhar inverso: a miséria extrema, a condição de rua e a negação da cidadania como fatores conducentes à aids. Daí, propomos uma visão inovadora para enfrentar a epidemia, pautada na dimensão ética de incluir os “invisíveis”; uma visão de proteção, capaz de entender que essa população tem necessidades, mas principalmente tem possibilidades e capacidades que podem ser desenvolvidas.
No caso das pessoas que integram o que chamamos genericamente de público da diversidade , mas que também estão em condição de rua, sabemos que elas estão multiplamente vulneráveis a violências de toda ordem, dependência química de álcool e drogas, precarização das condições de vida, direitos violados, discriminação explícita, ausência de dignidade, enfim. Assim, as condições de vulnerabilidade se potencializam e muitas perguntas nos perseguem no CRD. Como fazer prevenção em DSTs, HIV e aids dentro deste contexto? Como incentivar a testagem do HIV e a busca precoce pelos serviços de saúde? Como promover a adesão daqueles que chegam até o tratamento?
Durante anos exportamos aos países africanos expertises para ajudá-los a enfrentar a aids. Talvez hoje precisemos importar técnicos e ativistas do continente irmão para nos ajudar a lidar com essa situação ainda menosprezada pelas respostas governamentais e não governamentais no terreno da aids.
Neste primeiro ano foram assistidas pelo CRD aproximadamente 1000 pessoas e o que mais nos chama a atenção, dentre as inúmeras demandas que temos ali, é que aids é mera coadjuvante quando elas não têm o teto, a comida, a possibilidade de aprender, de sonhar com emprego e renda ou de, simplesmente, de serem atendidas adequadamente por um serviço público, seja de saúde, segurança, assistência ou lazer, pois muitos ainda mantém suas portas fechadas para esses cidadãos e cidadãs.
Problema de tal magnitude jamais encontrará solução apenas no campo das políticas públicas de saúde e de HIV e aids. Ao fazer uma aproximação com a política de assistência social, o Grupo Pela Vidda/SP espera contribuir com a discussão sobre a necessidade de parcerias estratégicas para além dos caminhos tradicionais. As ONGs de luta contra a aids e LGBTs historicamente assumiram, diante da incapacidade do Estado, papéis de gestores e executores de ações de prevenção e de garantia de direitos. O que propomos, no Centro de Referência da Diversidade, é uma aliança dos propósitos desses dois movimentos sociais vigorosos em torno também da assistência, da proteção e da inclusão social.
Irina Bacci , formada em fisioterapia e especialista em administração de sistemas de saúde, é coordenadora do Centro de Referência da Diversidade. Foi recém-eleita presidente do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual de São Paulo.
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