TERMINAL É A … !!!!!! – Beto Volpe – Presidente da ONG Hipupiara, com sede na cidade de São Vicente / SP

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Beto Volpe

Como pode um efeito colateral ser tão devastador? Como pode ele mudar a direção de toda uma vida sem que a gente possa fazer algo para contorná-lo, evitar que ele tome conta de todo nosso corpo e mente? Poderia estar falando sobre lipodistrofia, necrose óssea…. ou os velhos e já batidos enjôos e desarranjos intestinais (adoro eufemismos)… quem sabe de desordens hormonais que nos colocam em situações que só nos imaginávamos daqui a algumas décadas. Mas não. Estou falando sobre o efeito colateral que arrebata, que praticamente lhe tira as opções: a sede pela vida. A garra em superar os obstáculos e acreditar que não basta estar vivo, é preciso viver e bem. E o que seria o viver bem?
Bem, tudo começou quando 1989, uma boa safra, trouxe sonhos premonitórios e um exame cujo resultado já era esperado: reagente. Engraçado como um resultado de exame deveria ser uma palavra de ordem: REAJA!!! E como é difícil aceitar esse comando, reagir diante do que, na época, era um atestado de óbito expedido em vida. Mas acaba-se aceitando o comando, não há outra saída. É reagir ou reagir. E a brincadeira estava apenas começando. A montanha russa onde eu houvera embarcado ainda me reservava muitas subidas e descidas, muitos loopings e algumas ameaças de descarrilamento. Semanas? Meses? Anos? Ninguém sabia precisar nada na época, o que fazer? Claro, licenciar-me do serviço, sacar o FGTS e curtir a vida ou o que me restava dela. E assim se passaram sete anos de muito sexo, drogas e Jericoacoara, Trancoso e sempre com a maldita sensação de que poderia ser a última trepada, a última cheirada, a última viagem a um desconhecido paraíso tropical. Os demônios adoram fazer festas em nossa cabeça quando a pousamos no travesseiro. Mas eu sempre tive aquela discreta certeza que não seria por causa de um bichinho pequeno e covarde que eu morreria.
Claro, com tanto desgaste físico e adições químicas em ´96 vieram os problemas, as inoportunas oportunistas. De 68 para 34 quilos e ainda contando piadas pras enfermeiras. Credo, eu pesava meus ossos e órgãos com isso!!! E o pior de tudo: o olhar da mãe já sem aquele brilho de esperança que era o tênue fio que me segurava por aqui. E, desafiando as desafiadoras previsões de que um tratamento eficaz seria para o século 21, chegou o coquetel e uma recuperação lenta, gradual e progressiva, como já foi dito por um ditador. Como diria o seu Creysson, “os seus pobremas se acabaram-se!!!” tsc, tsc..
Ah, tem efeito colateral, né? Huumm.. vômitos, diarréias… enjôos. Ah, dá pra levar. Só que as pernas e braços foram afinando e o rosto encovado de uma hora para outra. E eu comendo e malhando, comendo e malhando… e o rosto sendo sugado a olhos vistos. E foi no Vivendo de 98, no Rio, onde fui formalmente apresentado à sra. Lipodistrofia. Que coisa, não era só indisposição? Mas foi ali, naquele Vivendo, que começou a se manifestar o maior efeito colateral de todos que tive até agora: a tal reação, que me havia sido comandada nos primórdios e que somente agora se fazia sentir. Após ter levado altos papos com aquele espectro que costuma ficar aos pés de meu leito nos hospitais e por ele ter sido poupado (após ter sido considerado “paciente terminal”) é que fui começar a juntar pequenas idéias que antes eram apenas devaneios e decidi procurar algo para fazer contra esse monstrinho que quase me levara. Simultaneamente a tudo isso eu conhecera uma pessoa que definitivamente iria influenciar minha vida daí pra frente, Bia, conhecida pelos íntimos como Beatriz Pacheco. Ela foi a pessoa que fez com que essas pequenas idéias fossem tomando corpo. Tornei-me voluntário em algumas instituições, mas sabia que o buraco era mais embaixo. Foi quando procurei o SAE de São Vicente, onde funcionava um grupo de auto-ajuda, no qual me inseri. Como eu falo pouco, sou extremamente tímido (meus amigos são prova disso!!!) e sempre tinha novidades que colhia na Internet algo de novo começou a acontecer ali, lugar onde as pessoas mal se falavam, quando muito se entreolhavam. Falava-se de união, de direitos, de… ONG! Sim, por que não fundar uma ONG, já que São Vicente não tinha nenhuma? E assim um novo monstro invadiu minha alma e mudou completamente o rumo de minha vida: o Hipupiara (ver significado em www.hipupiara.org.br ). E no apagar das luzes do século XX o monstro que assolara minha cidade nos idos do século XVI veio para devastar toda a leviandade e, por que não?, mediocridade em que eu vivia e dar sentido ao fato de estar aqui, Vivendo.
Hoje posso dizer que vivo a melhor e mais plena fase de toda a minha vida. Não que esteja um primor, os novos efeitos colaterais e novidades continuaram a se apresentar, um após o outro: osteoporose (com direito a fratura de fêmur), osteonecrose, desordens hormonais (o famoso “nunca aconteceu comigo antes…”) e um recém diagnosticado câncer no sistema linfático.
Mas você ter tido a oportunidade de ver a luz, sem ser Caroline, e passar a ver a sua vida por um outro ponto de vista, outras perspectivas é, de longe o maior e melhor dos efeitos colaterais que sofri: a tal da sede. A sede de viver e viver bem. E querer e poder fazer algo para que todos vivam essa experiência divina que é REAGIR.

Beto Volpe é presidente da ONG Hipupiara, com sede na cidade de São Vicente/SP. Telefone de contato: (0XX13) 3466-4007 e (0XX13) 9723.9499. E-mail : luiz_volpe@uol.com.br

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