Por Dr. Álvaro Furtado Costa*
07/08/2017 – No início do século 20 a sífilis foi considerada um problema grave de saúde pública. Com a descoberta da penicilina e com as campanhas de prevenção da doença, tivemos um declínio significativo no número de casos nos anos 50 e 60. Nesse momento muitos pensaram que a doença estava controlada, diminuindo o interesse por seu estudo.
Todavia nos anos 80 e 90 com surgimento da epidemia de HIV e mudanças comportamentais a sífilis passou a ter destaque novamente, principalmente em algumas populações com maior vulnerabilidade.
Hoje a sífilis é uma das principais doenças sexualmente transmissíveis. Apesar da maioria das informações e notícias dar mais destaque à infecção pelo HIV, a sífilis chama atenção pelo número crescente de casos em toda a população, especialmente entre os HSH (homens que fazem sexo com homens). Algumas casuísticas de sífilis no mundo relatam que mais de 80% dos casos novos dessa doença são em HSH ,caracterizando uma epidemia global nesse grupo. É muito importante discutir esse problema entre as populações chave para que possamos diminuir esses números.
No mundo, estima-se que temos de 10 a 12 milhões de casos anualmente. O dado é preocupante pelas complicações que a ausência de diagnóstico e tratamento pode causar para o paciente. O treponema pallidum é a bactéria causadora da sífilis e pode ser facilitador à entrada de outros vírus, especialmente o HIV.
A transmissão da doença ocorre por via sexual (chamada sífilis adquirida), pela placenta (sífilis congênita) e raras vezes por via transfusional. Sendo que a transmissão sexual é a responsável pela maioria dos casos. Nos últimos anos tivemos um aumento expressivo da forma congênita o que é muito grave devido às complicações que podem aparecer nos recém nascidos.
A sífilis é transmitida por qualquer modalidade de relação sexual desprotegida inclusive por sexo oral o que é um grande problema visto que muitos indivíduos só utilizam preservativos durante a penetração e a transmissão da doença também pode ocorrer por sexo oral desprotegido. A multiplicidade de parceiros aumenta o risco de adquirir a doença. Outra grande dificuldade da sífilis é o seu diagnóstico já que os sintomas iniciais geralmente não são notados pelos pacientes.
A doença pode ser dividida em três fases: a primeira é chamada sífilis primária e representa o contato inicial . No local onde houve contato com o treponema pode surgir uma lesão que é chamada de cancro. Essa é uma ferida que pode aparecer em qualquer local do genital, ou superfície que tenha entrado em contato com a bactéria (boca, pênis, ânus, vagina). Essa lesão aparece em média após 3 semanas do contato, mas pode surgir até 90 dias depois da relação sexual. Pelo fato de ser uma lesão que não dói, melhora espontaneamente e passa despercebida pela maioria dos pacientes.
Na segunda fase da doença a bactéria ganha a corrente sanguínea e pode causar alterações em todo o organismo, sendo típicas as lesões de pele na planta do pé e na sola das mãos, mas podem também aparecer lesões em todo o corpo, acompanhado de febre baixa. Muitas vezes essas lesões são confundidas por médicos e pacientes com um processo alérgico. Essa fase também pode passar sem que o paciente reconheça os sintomas, e também é conhecida como secundarismo.
Depois desse estágio muitos pacientes entram num período chamado de latência, momento perigoso porque nessa fase o paciente não tem sintomas, tem a doença e pode transmiti-la para outras pessoas. Nessa período somente com exames de sangue se pode saber se o paciente tem sífilis.
A última fase, dita terciária, pode evoluir com complicações no cérebro coração, ossos, olho e pele. Temos observado casos de uveites por sífilis que pode levar à cegueira.
Visto que muitas vezes a doença não tem sintomas é importante fazer o teste principalmente se você teve uma relação sexual desprotegida. Esse teste é um exame muito simples, faz o diagnóstico da doença e orienta o seguimento durante o tratamento. É um dos exames rotineiros que deve ser solicitado em check-up periódico em indivíduos que apresentam risco de aquisição. Em todo o território nacional existem postos de atendimento especializados. Lá você pode fazer o teste de sífilis e se positivo iniciar o tratamento. Lembrando que quando mais rápido for o diagnóstico e o tratamento menor a chance de complicações e também a probabilidade de transmitir para outras pessoas. Se você tem vida sexual ativa é fundamental realizar o teste periodicamente.
O tratamento é simples e realizado com antibióticos injetáveis no caso a penicilina. Não existe nenhum caso no mundo de resistência a penicilina. Infelizmente não existe uma vacina para a sífilis. Assim prevenção diagnóstico e tratamento precoce são fundamentais para o controle dessa epidemia. Mas recentemente foram publicados resultados de um estudo com um antibiótico preventivo para a sífilis (doxiciclina) com resultados ainda pouco animadores.
Uma vez diagnosticada a doença também de fundamental importância é comunicar aos parceiro(a)s para realizar o teste. Mesmo depois de tratado, se o paciente mantiver relações sexuais com pessoas que ainda têm a doença ele pode readquiri-la, o que chamamos de reexposição. Isso é muito comum em pacientes com múltiplos parceiros e que praticam sexo sem proteção.
Além disso, no momento da descoberta da sífilis é oportuno realizar outros exames sorológicos como o teste para HIV e para hepatites.
Faça o teste periodicamente e previna-se!
* Dr. Álvaro Furtado Costa é infectologista e trabalha no Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids.
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