Sexualidade que não desafina é aquela bem vivida!

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 Marta McBritton*

03/02/2016 – Mais um Carnaval, com folia, festa, farra, alegria, blocos, desfiles, serpentinas, confetes, marchas, sambas, sambas-enredo, escolas em apresentações pelo Brasil afora. E também muitos namoros ocasionais, relações afetivas que podem acontecer inesperadamente, encontros, uso de drogas licitas e ilícitas de maneira recreativa ou não, que costumam fazer parte do “conjunto da obra” do momento de lazer.

Fazem parte da folia também as muitas ações de prevenção que ONGs do país inteiro realizam, as campanhas oficiais e algumas atividades propostas pela iniciativa privada. Apesar dos esforços de todos os atores reunidos para combater possíveis comportamentos de risco, infelizmente, ainda neste Carnaval muita gente vai se expor às DSTs (doenças sexualmente transmissíveis), HIV, hepatites e até a  uma gravidez inesperada.

Como se fazer presente no cotidiano das pessoas no Carnaval e além dele para chamar atenção para nossa vulnerabilidade?  Como explicar para as pessoas que uma relação desprotegida poderá trazer consequências para sua saúde e história pelo resto da vida? São perguntas sobre as quais nos debruçamos para falar cada vez mais e melhor de prevenção com uma única intenção: preservar o direito das pessoas terem prazer, saúde, felicidade e qualidade de vida.

Prazer, porque todos têm o direito de expressar livremente sua sexualidade. Saúde porque saúde não é ausência de doença e sim um direito do ser humano de viver bem com educação, respeito, habitação, lazer, arte, cultura, alimentos também da alma. Felicidade e qualidade de vida porque sem alegria e sem viver bem, ninguém consegue seguir adiante. 

Talvez por todos esses ingredientes, o Carnaval seja uma festa popular tão esperada, celebrada, produzida, organizada e festejada por nós brasileiros.

“Deixe a camisinha entrar na festa”, diz o refrão da marchinha que faz parte da campanha de prevenção às DSTs/aids lançada pelo governo para os dias de folia. É a parte da música (e do vídeo) que tem agradado as pessoas por trazer a camisinha para a passarela. Mas, para que ela participe da festa, é necessário um acordo mútuo que nem sempre é tão fácil.  Utilizar o preservativo com naturalidade significa empoderamento em relação à própria sexualidade .

Porém, profissionais de saúde ou não, todos sabem o quão é difícil vivenciar a sexualidade com autonomia. Para que isso ocorra como direito fundamental do ser humano, é necessário um Estado que não se omita em nenhum momento em garantir a saúde sexual e reprodutiva. Escolas que trabalhem as questões de gênero cotidianamente, porque educação sexual se aprende na escola sim! Empresas que lidem com o tema HIV em suas SIPATs (Semana Interna em Prevenção a  Acidentes de Trabalho) com seriedade.

 Enfim, é necessário comprometimento de toda a sociedade para compor o samba da prevenção e do combate ao preconceito. Por fim, há de se pensar na Quarta Feira de Cinzas, quando a vida segue.  E trazer à tona a PEP – Profilaxia Pós Exposição – como alternativa.

O Departamento Nacional de Aids e Hepatites Viral promete entrar em cena com uma nova campanha e a ampliação da oferta da PEP. Nesta segunda etapa, o papel da sociedade civil , da mídia e dos atores citados acima será fundamental. As estratégias de prevenção mudaram muito nestas três décadas de HIV, mas ainda há muito o que se fazer. Somos ainda um país com números assustadores de violência contra mulher, crimes de homofobia e que dificulta o acesso à escola e ao mercado de trabalho para as travestis e transexuais.

Então, acabada a festa, para que o desfile da vida aconteça em sua plenitude, é preciso que a saúde sexual e reprodutiva seja destaque em todas as alas.

* Marta McBritton é presidente do Instituto Cultural Barong.

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