SETE FACES DE UMA GUERRA – O BRASIL CONTRA A AIDS – Paulo Markum – Jornalista , apresentador da TV Cultura, é responsável pela Direção, roteiro

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Paulo Markun

Minha intimidade com a Aids era igual à de tantos outros brasileiros de classe média – perdi vários amigos para a epidemia, acompanhei o noticiário sobre o avanço da doença e acompanho a reação da medicina e da sociedade.
Como muitos jornalistas, sabia que o Brasil tinha um programa específico bem sucedido e que o perfil da doença está mudando rapidamente  – há muito ela ultrapassou os limites dos chamados grupos de risco.
Mas o convite da Tv Cultura para dirigir um documentário sobre o tema mudou definitivamente minha visão sobre a Aids e me permitiu conhecer uma legião de personagens absolutamente envolventes. 
A partir da pesquisa, já com o apoio do produtor Max Eluard, ficou claro que havia uma distinção preliminar a ser feita no universo dos afetados pelo HIV, que colocava vítimas de um lado e sobreviventes do outro. O que separava uns dos outros era apenas o acesso à chamada terapia Haart – o coquetel, como é conhecido popularmente. Quem conseguiu viver o suficiente para ser tratado com ele, tornou-se um sobrevivente. Os outros, terminaram engrossando a legião de vítimas.
Mas o que distingue a experiência brasileira da realidade de outros países em desenvolvimento e permite que as estatísticas nacionais sejam menos aterrorizantes?  Uma coisa muito simples: 300 milhões de dólares investidos anualmente, na compra dos antiretrovirais que são oferecidos gratuitamente a todos os portadores do HIV que se encaixam nas normas estabelecidas pela Organização Mundial de Saúde.
Dito assim, parece óbvio e banal. Mas isso é o resultado da luta tenaz de doentes, organizações não-governamentais, cientistas, sanitaristas e autoridades de vários governos e instâncias sem a qual essa fórmula jamais teria sido posta em prática.
Essa luta é que procurei mostrar no documentário, dividindo o tema em sete faces abrigadas na metáfora de guerra. Para dar o mesmo tratamento a todos os que prestaram depoimento, criamos sete fundos diferentes e gravamos todas as entrevistas com o mesmo enquadramento, pouco importando se o personagem é dirigente de empresa, alto funcionário governamental, parente de vítima ou um jovem interno numa casa de apoio.
Na nossa guerra particular e coletiva, o inimigo é o vírus, que coleciona vítimas e órfãos e contra quem se mobilizam armas – medicamentos- combatentes (médicos, funcionários de instituições oficiais e militantes das ONGs) e sobreviventes. Mas a cada dia, novos alvos aparecem: as mulheres infectadas por parceiros descuidados, jovens adolescentes da periferia, presidiários, gestantes que não tem acesso ao exame que pode salvar a vida de seus bebês.
A luta não acabou. Mas como correspondente de guerra, posso garantir: quem está no campo de batalha merece que seu esforço seja notado e reconhecido por todos. É o que pretende esse trabalho, que não teria chegado até aqui sem a competência do diretor de fotografia Cleumo Segond, o bom gosto do diretor de arte Rudi Böhm, a sensibilidade do compositor César Camargo Mariano, autor da trilha original, a arte de Ricardo e Tomie Ohtake, responsáveis pela logomarca e pelo cartaz do filme, o esforço da equipe da produtora Trinta Por Segundo e o apoio do núcleo do documentários da TV Cultura, personalizado em Mario Borgnet e em Beto Tibiriça e em toda sua equipe.
Aliás, televisão é por princípio, um trabalho de equipe. Mas o maior mérito desse documentário de que realmente me orgulho é o depoimento franco, honesto, corajoso e digno de tantas pessoas cuja vida foi transformada pela Aids. São eles os heróis desse combate de que o Brasil deve se orgulhar sempre.

Paulo Markun, jornalista, apresentador da TV Cultura, é responsável pela direção, roteiro e edição do documentário SETE FACES DE UMA GUERRA – O BRASIL CONTRA A AIDS

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