Acabar com a aids como ameaça à saúde pública até 2030 não será possível sem o protagonismo das comunidades. Essa é uma das principais mensagens que precisam orientar o debate da AIDS 2026, a 26ª Conferência Internacional de Aids, realizada pela primeira vez no Brasil, em um momento decisivo para o futuro da resposta global ao HIV.
O próprio Unaids tem reiterado que respostas lideradas pelas comunidades são um dos pilares para acelerar o fim da epidemia e preservar os avanços conquistados nas últimas décadas. Organizações comunitárias ampliam o acesso aos serviços de saúde, reduzem barreiras provocadas pelo estigma e pela discriminação, fortalecem os sistemas públicos de saúde e tornam as políticas de HIV mais eficientes e responsivas às necessidades das populações afetadas.
O monitoramento liderado pelas comunidades também permite identificar rapidamente interrupções no fornecimento de medicamentos, falhas nos serviços de saúde, violações de direitos humanos e obstáculos ao acesso à prevenção e ao tratamento, produzindo evidências capazes de orientar mudanças em políticas públicas e decisões de investimento. Além disso, fortalecer a participação comunitária melhora a qualidade dos serviços, amplia a transparência das políticas públicas e contribui para decisões mais eficientes sobre planejamento, implementação e financiamento da resposta ao HIV.
A resposta ao HIV sempre demonstrou que investir nas comunidades não é uma escolha complementar, é uma condição para que as políticas públicas sejam efetivas e alcancem quem mais precisa. Em um momento de retração da cooperação internacional, discutir sustentabilidade financeira significa também discutir participação social, direitos humanos e justiça social.
Essa discussão ganha ainda mais importância diante do cenário atual. A ciência já mostrou que é possível acabar com a aids como ameaça à saúde pública. O desafio agora é político.
Segundo o Unaids, os recursos destinados ao enfrentamento da epidemia sofreram uma redução entre 30% e 40% em 2025, na comparação com o orçamento disponível em 2023. Paralelamente, a assistência internacional ao desenvolvimento registrou a maior queda já documentada, comprometendo programas de prevenção, tratamento, pesquisa e iniciativas lideradas pelas comunidades.
Os impactos dessa retração já são concretos. As interrupções no Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da Aids (Pepfar) provocaram o fechamento de 1.714 unidades de atendimento, comprometeram serviços essenciais de prevenção e tratamento e deixaram 77.163 crianças vivendo com HIV sem tratamento.
O cenário contrasta com os avanços alcançados nas últimas décadas. Desde 2010, as mortes relacionadas à aids caíram 56%, enquanto as novas infecções por HIV foram reduzidas em 43%. Atualmente, 32,1 milhões de pessoas têm acesso ao tratamento antirretroviral, o equivalente a 78% das 40,9 milhões de pessoas vivendo com HIV em todo o mundo. Ainda assim, cerca de 9 milhões de pessoas permanecem sem tratamento, e os recentes cortes de recursos ameaçam interromper essa trajetória.
Foi diante desse contexto que o Unaids levou à Reunião de Alto Nível das Nações Unidas sobre HIV e aids, realizada em junho, em Nova York, um alerta contundente: embora o mundo disponha do conhecimento científico e das tecnologias necessárias para acabar com a AIDS até 2030, esse objetivo dependerá da capacidade dos governos de manter o financiamento internacional, ampliar os investimentos domésticos, proteger os direitos humanos e fortalecer a liderança das comunidades.
Nada do que foi conquistado na resposta ao HIV aconteceu sem a pressão, a organização e a luta das pessoas vivendo com HIV e das populações-chave. Se as comunidades não protagonizarem este momento, outras pessoas irão desenhar essa resposta por nós.
É nesse contexto que a AIDS 2026 se torna um espaço estratégico para discutir novos modelos de financiamento e também o fortalecimento da participação das comunidades na formulação, na implementação e no monitoramento das políticas públicas. Se queremos preservar os avanços conquistados e manter viva a meta de acabar com a AIDS até 2030, financiamento e protagonismo comunitário precisam caminhar juntos.
* Juliana Cesar é coordenadora de Articulação Política, Relações Internacionais e Comunicação da Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero.
** Thiago Jerohan é assessore de Projetos da Gestos, integrante do Comitê Organizador da AIDS 2026 e co-chair da Global Village.
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