A ação climática não pode ignorar corpos vulneráveis e epidemias silenciadas. A COP30, realizada em Belém (PA) entre 10 e 21 de novembro de 2025, marcou um avanço relevante ao colocar a saúde humana no centro da adaptação climática.Contudo, embora o documento de saúde tenha sido lançado — o Belem Health Action Plan — o silenciamento evidente sobre epidemias consolidadas, como a do HIV, e a ausência de metas vinculantes para prevenção em saúde destacam lacunas graves na agenda global.
Na COP30 a OPAS se posicionou de forma decisiva ao assinar com o Brasil o lançamento do Plano de Ação em Saúde de Belém, o primeiro documento internacional voltado exclusivamente para adaptação climática no setor de saúde. O diretor Jarbas Barbosa destacou que teve liderança absoluta na condução desses processos, ao defender que já não estamos mais falando de resultados potenciais, mas de uma realidade que se acelera. Ele desafiou o mundo ao lembrar que 67% das unidades de saúde nas Américas estão expostas a riscos climáticos, com cerca de 24 milhões de pessoas que nos últimos anos perderam acesso a cuidados em função desses impactos.
O Belem Health Action Plan foi divulgado durante o “Health Day” da conferência, justamente por conta deste apelo da Pan American Health Organization (PAHO) para que os países incorporem programas de adaptação da saúde em suas estratégias nacionais. O plano aborda a construção de sistemas de saúde resilientes, a vulnerabilidade de populações em risco e a necessidade de inovação e vigilância na frente dos efeitos climáticos. Mesmo assim, a promessa de longo prazo convive com a urgência real: o financiamento continua escasso, os cronogramas são tardios e a saúde pública permanece tratada como coadjuvante.
Do lado brasileiro, o ministro Alexandre Padilha afirmou que o plano havia recebido “o apoio de mais de 80 nações e instituições” , entre agências da ONU, organizações da sociedade civil e fundações, o que reforçou o papel do Brasil como articulador global da saúde-clima.
Essa combinação entre mobilização técnica da OPAS e diplomacia brasileira elevou o perfil da saúde como elemento central da adaptação climática, fazendo com que Belém passasse a ser vista como “símbolo de um novo paradigma: cuidar da saúde é também cuidar do planeta”.
Em particular, a conexão entre crise climática e epidemias, como a de HIV/aids, quase não foi mencionada. E é aí que está a contradição: se mudanças de clima aumentam o risco de surtos, agravam condições crônicas, comprometem cadeias de cuidado e ampliam desigualdades, então ignorar HIV significa ignorar parte essencial da adaptação. O Brasil, que já foi um modelo global no enfrentamento da epidemia, precisaria aproveitar a COP para integrar prevenção, tratamento e vulnerabilidades climáticas num único arcabouço. Não o fez.
Além do silêncio sobre HIV, a COP30 também deixou de enfrentar de forma robusta outras emergências de saúde pública que já estão profundamente entrelaçadas com a crise climática. Arboviroses como dengue, zika e chikungunya avançam em ritmo acelerado com o aumento das temperaturas; doenças respiratórias se agravam com queimadas e eventos extremos; populações ribeirinhas e amazônicas vivem picos de contaminação por água insalubre pós-enchentes; povos indígenas e quilombolas enfrentam impactos desproporcionais que vão da insegurança alimentar ao adoecimento mental causado pela perda de território.
A agenda de saúde mental, que deveria ser central em um cenário de colapsos ecológicos, mal apareceu nas discussões, mesmo com os registros crescentes de ansiedade climática, luto ecológico e estresse pós-desastre entre jovens e comunidades tradicionais. O discurso oficial citou resiliência, mas deixou de lado o básico: o clima não afeta apenas ecossistemas; afeta corpos, vínculos, modos de vida e psique coletiva.
Além disso, o discurso da saúde focou em “hospitais resilientes, redes elétricas, armazenamento”, pontos importantes, mas que se limitam à infraestrutura física. Faltou a ênfase em cuidados continuados, acesso equitativo, monitoramento de surtos e fortalecimento comunitário, peças fundamentais quando se trata de crises em saúde ligadas ao clima.
A COP30 em Belém deu um passo significativo ao tornar visível o setor da saúde na agenda de adaptação climática. Mas não basta assinar planos ou lançar documentos: é preciso colocar no centro das negociações realidades humanas, trajetórias de epidemias, vidas em territórios vulneráveis. Se a adaptação falha em incluir quem vive com HIV ou outras doenças crônicas em contextos extremos, ela está apenas adiando a conta. A saúde humana não pode mais ser tema secundário em conferências do clima. Se queremos justiça climática, precisamos de justiça em saúde. Belém mostrou o caminho, agora cabe à agenda global e nacional fazer valer tudo o que ficou nos discursos.
* Fabi Mesquita é jornalista, educadora e pesquisadora em saúde e direitos humanos. Docente de Medicina na Universidade São Judas Tadeu.
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