Por José Araújo Lima Filho
Amor e ódio, jamais indiferença. É assim a relação dos paulistanos e visitantes com a cidade. Ao completar 460 anos, não seria absurdo dizer que São Paulo é o espelho do Brasil, seja do lado positivo ou negativo. Nossa capital pulsa 24 horas, afinal a cidade mais rica do país não tem apenas ostentação. Ela é verdadeira e, como tal, não consegue agradar igualmente a todos.
O contraditório fica evidente quando observamos que temos os museus mais visitados da América Latina, sendo que a maioria da população jamais os conheceu. E o pior é que, na maioria das vezes, as justificativas são surreais, como: “não é lugar para mim”.
São Paulo é, há muitos anos, a artéria política do país e não digo em questões relacionadas às politicas partidárias, mas às reivindicatórias. E, para quem tem alguma dúvida, vamos aos fatos: foi na terra da garoa que a luta contra a aids obteve sucesso. São Paulo foi também pioneira no acesso aos medicamentos antirretrovirais, o que alguns meses depois se tornou luta e conquista nacionais.
Como sempre, a populosa cidade também oferece a cara da aids, quando olhamos para seus dados. Por exemplo, para cada 100 mil habitantes, foram diagnosticados 39,7 casos de HIV entre as pessoas da raça negra em 2010 contra 18 casos em brancos.
A aids mostra também na cidade a cara da juventude homossexual. Estudo da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids aponta que 15% dos homens que fazem sexo com homens e moram na região central da cidade vivem com HIV
É… São Paulo caminha na dor e numa dor difícil de ser solucionada. Afinal, a espera por um atendimento nos serviços especializados de saúde pode chegar a seis meses.
Já no lado positivo, podemos ressaltar o que já acontece em São Paulo e pode servir de exemplo para todo o país no campo da aids: a diminuição da transmissão vertical do HIV a cada ano. Estamos caminhando para ser comparado aos países de primeiro mundo. Sim, podemos. Quando existem políticas públicas sérias, podemos sim enfrentar a aids.
Foi aqui também, no dia da aniversariante, em 25 de janeiro, que o movimento das Diretas Já começou a enterrar a ditadura. Não podemos esquecer que as manifestações de junho de 2013 tiveram início na marginal Pinheiros e passaram a vomitar as injustiças sociais na Avenida Paulista, quando o Brasil acordou e todos acreditavam que o berço esplêndido estava pronto para adormecer o gigante.
Distante do grande centro, o bairro de Itaquera, na zona Leste, dá visibilidade ao Brasil sobre as necessidades dos adolescentes das periferias, por meio dos rolezinhos. A sociedade ainda não decifrou esse movimento, mas o descaso das políticas públicas para com a nossa juventude é inquestionável.
Na área da saúde, São Paulo tem o mundo ideal e o mundo surreal. Nesse caso, tenho uma experiência pessoal em transitar nesses mundos. Trabalho na periferia extrema da cidade, onde encontro pessoas que estão há seis meses esperando por uma consulta médica. Sem contar que o hospital da região, o do Campo Limpo, está superlotado e com falta de profissionais.
Pegando o ônibus para casa, passo pelo complexo do Hospital das Clínicas, onde a tecnologia de ponta, com reconhecimento até no exterior, é contraste com a inoperância de um serviço que não consegue atender à metade das pessoas que os procuram vindos de todo o Brasil e de alguns países vizinhos. Ao descer na última parada do ônibus, a três quarteirões da minha casa, está o Hospital Sírio- Libanês, o paraíso de ricos, políticos e famosos. Enquanto da minha janela o barulho de helicópteros trazendo pacientes é intenso, em Campo Limpo e outras regiões da cidade faltam ambulâncias.
Essa é a minha São Paulo querida. Esse é o meu Brasil.
É muito comum as pessoas que chegam do exterior surpreenderem-se com os moradores de ruas na cidade. Sim, temos mais de treze mil nessa condição e, segundo estudo realizado pela dra. Maria Helena Rocha Antuniassi e pela bacharel Oscarlina Maltese Rezende, 47% dessa população são da capital e do interior de São Paulo. O restante é de varias partes do país. Ou seja, a minha cidade continua sendo a mais brasileira de todas as cidades.
Que visitante de outro Estado não se chocou com a cracolândia? Quantos desses, sob o impacto da experiência, pararam para refletir e acabaram descobrindo, em sua própria cidade, um dependente de droga na vizinhança ou na própria família?
Pois bem, nesse aniversário uma nova tentativa está sendo colocado em prática para essa população: o projeto De Braços Abertos. É, pela primeira vez, uma tentativa humanizada, depois de várias práticas desastrosas de higienização. A minha cidade continua procurando acertar. Procura acertar quando implanta projetos como o Quero Fazer, no Largo do Arouche, um trabalho de testagem rápida de HIV voltado para os homossexuais.
Está na hora de cumprimentar a aniversariante e quero dizer que você, São Paulo, é maravilhosa. Maravilhosa na sua Avenida Paulista que, além do poder econômico, tem expressões culturais de todas as partes do país e do mundo. Você, Sampa, permite, por meio de visitas a seus museus, dar uma volta ao mundo em um dia.
Suas esquinas cheias de executivos (as), esquinas de diversidade não são vistas em outros lugares do mundo.
Parabéns São Paulo, pelo Baixo Augusta, pela “zona Leste somos nós”, pela zona Sul com suas mansões e favelas, pela zona Norte com a Serra da Cantareira dando o verde que tanto precisamos, pela zona Oeste e sua USP com jovens em eterna ebulição.
Parabéns, São Paulo, que é mais dos nordestinos que dos paulistas. Parabéns, São Paulo, das putas e viados, mendigos e poetas, loucos e caretas. Parabéns, cidade ”diferenciada”, que se levanta contra os intolerantes. Parabéns, São Paulo de todo o Brasil.
José Araújo Lima Filho é ativista e diretor do Espaço de Prevenção e Atenção Humanizada (EPAH) em São Paulo
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