Por Mauro Romero Leal Passos*
03/07/2017 – O Brasil tem forte atuação no que diz respeito ao combate à aids, um programa abrangente e bem estruturado com distribuição na rede pública de antirretrovirais e de medicamentos para infecções oportunistas como micoses e tuberculose. O Brasil também é uma fonte de pesquisa importante e conta com boas produções científicas na área de DSTs, com o "Jornal Brasileiro de DST" e revistas de infectologia.
Mas o Brasil foi escolhido para sediar o próximo Congresso Mundial de DSTs/Aids por que tivemos uma boa atuação no último Congresso em Viena (Áustria). Esse evento circula na América do Norte e Europa e recentemente, a Austrália, mas nunca esteve presente na América do Sul. Como o grupo brasileiro é forte e teve coesão, fomos vencedores nessa disputa com outros países do hemisfério norte.
Os pesquisadores que virão são todos os que estão na “ponta da lança” das pesquisas sobre doenças sexualmente transmissíveis, os melhores especialistas brasileiros e estrangeiros envolvidos com DSTs/HIV, ocupados com ações de saúde, comportamento, vacinas, processos de resistência bacteriana às drogas e outros temas. Haverá um pré-congresso da Organização Mundial de Saúde, apresentaremos os primeiros passos para a vacina contra a sífilis, clamídia e herpes. E pela primeira vez, teremos um simpósio com os editores dos principais periódicos científicos de DSTs/HIV, como "STI", "The Lancet" (Doenças Infecciosas),"Plos ID' e do periódico de alto impacto, o "Sexual Transmitted Diseases", além de nós, editores do "Jornal Brasileiro de DSTs".
O Congresso Mundial ocorrerá simultaneamente ao XI Congresso da SBDST e o VII Congresso Brasileiro de Aids, quando teremos uma discussão seríssima sobre a importância do teste rápido para aids que chega as farmácias, e sobre a tuberculose pulmonar, doença que mais mata hoje as pessoas que têm o HIV. Vamos debater a sífilis congênita, e o Dia Nacional de Combate à Sífilis e Sífilis Congênita, um projeto lançado por nós em Niterói, ganhou o Brasil e hoje é lembrado no 3º sábado de outubro. Serão 104 trabalhos brasileiros além dos pesquisadores latino-americanos: pesquisas em DST, HIV, ações, modelo matemático de diagnóstico, relatos de casos, processo educativo, e transmissibilidade por via sexual do vírus da zica. Um leque que abrange ainda, oficinas sobre sexualidade e comportamento. Tudo para que ações cheguem à população e aos serviços públicos e privados de saúde.
Teremos oficinas para adolescentes, um projeto da Sociedade Brasileira de DST. Cerca de 40 jovens do Morro dos Prazeres (Rio de Janeiro) e do Morro do Estado (Niterói) participarão de atividades e receberão materiais importantes para o processo de educação em saúde. Haverá oficina também para entidades e ONGs. Esse pré-congresso será coordenado por Veriano Terto Jr. (Abia) e Katia Edmundo (Cedaps). Inéditas, ações de conteúdo técnico e educativo para alunos de medicina da Liga de Infecções Transmissão Sexual da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade de Integração Latino-americana de Foz do Iguaçu (UNILA) que está trazendo mais de 50 alunos da sua Liga. Ainda sobre alunos de medicina, pela primeira vez em eventos de DST/Aids teremos a participação de 20 alunos (Espanha, Brasil, Panamá, México e Perú) de medicina que representarão a Federação Internacional das Associações de Estudantes de Medicina.
O Brasil tem um programa muito atuante em relação à aids, mas nas DSTs o país tem um enfrentamento pobre, embora a Sociedade Brasileira de DST faça congressos desde 1996. O Brasil disponibiliza a vacina para HPV a meninas de 11 a 15 anos, meninos de 11 a 14 anos e pessoas de 9 a 26 anos que vivem com HIV e têm doença crônica ou serão transplantados, mas falha em doenças como herpes, gonorreia, clamídia e tricomoníase, um protozoário que facilita a entrada de HPV, HIV e hepatite B. Precisamos aproveitar mais os bons pesquisadores e fomentar mais serviços, abrir espaços nas escolas de medicina e demais profissionais de saúde, para DSTs e HIV.
A nossa expectativa é que os grupos que trabalham com DSTs se tornem uma área de atuação forte, que as especialidades médicas tenham profissionais com atenção em DSTs e assim possamos reverter o quadro vergonhoso da sífilis congênita e o câncer de colo de útero, que hoje mata mais de 5 mil mulheres e atinge 15 mil mulheres por ano, período em que cerca de mil pênis são amputados por HPV, responsável por mais de 60% dos cânceres de pênis, e também câncer de cabeça e pescoço, faringe e orofaringe. Há ainda as infecções pélvicas em mulheres causadas pela clamídia (bactéria sexualmente transmissível) e o gonococo, que comprometem a saúde sexual e vida emocional de milhões nesse mundo, e corrimentos vaginais causados pelo tricomoníase, que causa a doença sexualmente transmissível mais prevalente no mundo. São cerca de 500 milhões de casos novos por ano de apenas quatro doenças curáveis: tricomoníase (mais de 270 milhões), gonorreia, clamídia, sífilis (mais de 10 milhões).
Ficamos felizes em realizar esses Congressos no Rio de Janeiro, importante para que possamos formar mais profissionais, mesmo sem qualquer apoio da prefeitura ou do governo do Estado. Contamos, na esfera pública, nesses eventos apenas com o apoio do Departamento de DSTs/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde e evidente, do nosso alicerce mãe e pai: a Universidade Federal Fluminense e a Sociedade Brasileira de DST.
Esperamos que num futuro breve, mais especialistas se formem tendo como área de atuação as DSTs e com isso poderemos influenciar para diminuir, diagnosticar, tratar e acompanhar pessoas com infecções sexuais.
* Mauro Romero Leal Passos é professor doutor e presidente da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis.
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