REPENSANDO OS PARADIGMAS DA AIDS – Ana Maria Baricca – Psicóloga, Doutora em Ciências

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Ana Maria Baricca

A atuação junto a crianças, adolescentes e adultos portadores de HIV/Aids, permite observar que, apesar da singularidade de cada um viver o seu processo de doença, o medo da rejeição parece permear a vivência de uma grande maioria dessa população. O que nos é trazido de forma explícita ou implícita é que revelar a soropositividade é algo ameaçador: acreditam que correm o risco de que o outro, ao saber, afaste-se.

As discriminações experienciadas por essas pessoas indicam o quanto a sociedade ainda mantém uma visão distorcida sobre a epidemia da Aids. Não bastou o isolamento do vírus, a identificação das formas de contaminação para a adoção de práticas preventivas e controle da epidemia. Existe, ainda, infelizmente, uma tendência a confundir o indivíduo com o próprio vírus.

Torna-se, premente, portanto, trabalhar os aspectos discriminatórios que envolvem a Aids, o que implica atuar de forma a alterar os paradigmas existentes, ou seja, por envolver comportamento e conscientização da importância de adoção de práticas preventivas, a Aids deixa de ser um problema exclusivo da saúde e passa a ser uma questão interdisciplinar, exigindo que outras áreas do conhecimento sejam integradas para o combate de tal epidemia.

Assim, como passos iniciais, creio ser primordial que as campanhas que, até então, mais assustam do que esclarecem, passem, de fato, a esclarecer e educar e, nesse sentido, o setor da educação pode também contribuir de uma forma mais ativa.

Sobre este último é importante destacar que pelo espaço social que a escola ocupa, a infecção pelo HIV deveria compor tema de amplas discussões que facilitariam a distorção de percepções errôneas que alimentam o processo discriminatório em relação à doença e, em conseqüência, promoveria a assimilação e integração, ao repertório do aluno e, também, da comunidade, da importância da adoção de comportamentos que visem à prevenção, quebrando-se a imagem de que a Aids “acontece somente com os outros”. “Outros”, que fogem à “norma” estabelecida em função dos estigmas e paradigmas que envolvem a doença desde que os primeiros casos foram identificados.

Preconceitos, discriminações podem ser enfraquecidos, ou quiçá, eliminados, com a aproximação e respeito que possibilitam a aceitação, sem julgamentos, sem condições, sobre a forma de ser de uma pessoa. Isso é democracia, ou seja, conviver e aceitar as diferenças expressas nas crenças, valores, opiniões e estilo de vida de cada um.

Hoje enfrentamos a Aids, como no passado já enfrentamos outras doenças que, a princípio foram igualmente estigmatizadas, mas que a sociedade aprendeu a encará-las como possibilidades do existir. Enquanto o “passado” aqui apontado predominar sobre o imaginário coletivo, os trabalhos desenvolvidos com os portadores da doença serão infrutíferos, pois enquanto estes lutam para construir uma vida com a doença, a sociedade insiste em mostrar-lhes que eles estão mortos.

Esta reflexão integra a tese de doutorado da autora, intitulada “Vivendo e crescendo com HIV/Aids”, defendida, em 2005, junto ao Programa de Pós-Graduação, da Coordenação dos Institutos de Pesquisas, da Secretaria de Saúde de São Paulo.

Ana Maria Baricca é Psicóloga, Doutora em Ciências.
E-mail: ambari@uol.com.br

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