Que os bons debates dos próximos congressos de DSTs e aids se transformem em benefícios reais

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

* Por José Araújo Lima

13/05/2015

O 10º Congresso da Sociedade Brasileira de DST e 6º Congresso Brasileiro de Aids acontece esse ano num momento ímpar da epidemia em nosso País, entre os dias 17 e 20 de maio, tendo como cenário a cidade de São Paulo.

Os dois eventos são, tradicionalmente, um espaço respeitável, onde podem ser debatidas as questões de grande valia para a formulação de políticas públicas nessa área, aproveitando a presença de palestrantes estrangeiros e dos mais destacados profissionais brasileiros.

 É importante ressaltar que as DSTs no Brasil ocupam um espaço obscuro na política de saúde. Nele, a abordagem sindrômica tão necessária não consegue, na prática, ser inserida a contento nos serviços. Para as DSTs, os caminhos dos tratamentos, em sua grande maioria, são os balcões da farmácia ou algum outro método sem reconhecimento da ciência. E as consequências, estragos irreparáveis.

As pesquisas indicam que as mulheres têm mais facilidades em diagnosticar as DSTs, em razão de sua frequência nos serviços de saúde. Elas procuram mais os médicos, enquanto os homens resistem em tomar essa atitude.

O mundo ideal, que já foi apresentado em vários congressos e deve ser, de novo, apresentado nesse, continua sendo de difícil aplicação junto aos grupos que dependem do sistema público de saúde. É ali, na ponta do processo, que é sentida a falta de profissionais ou mesmo de treinamentos das equipes. Ou seja, fica explícita a não aplicação do protocolo consensuado. 

A Saúde Sexual Reprodutiva de DST/AIDS: Desafio Permanente para Qualidade de Vida, como reza o tema do Congresso esse ano, não é de responsabilidade exclusiva dos estudiosos da área, mas comprometimento das três esferas políticas, Ou isso é reconhecido ou estaremos fadados a perseguir, eternamente, resultados que jamais alcançaremos.

É por isso que esse congresso, organizado pela SBDST (Sociedade Brasileira de DST), precisa ser, além do já reconhecido espaço que possibilita bons debates, um momento de comprometimento político dos nossos governantes.

As DSTs não podem ser vistas nas unidades básicas de saúde como um “problema” que pode ser adiado. Nem entrar numa agenda que fará o doente não voltar mais ao serviço.

Essa edição do evento, certamente,  possibilitará uma grande troca de informações e de experiências sobre tratamentos e prevenção, e temas como monitoramento do CD4 nas pessoas com HIV, direitos sexuais, atenção integral à saúde, tratamento como prevenção, profilaxias pós e pré-exposição, saúde da população LGBT, prevenção baseadas no uso de antirretrovirais e outros temas que permitem além de posições cientificas, grandes embates políticos.

Se as expectativas sobre os resultados positivos nos dois congressos são inquestionáveis, é importante frisar que a palidez política pela falta do  movimento social já é fato.

Muitos poderão dizer que num congresso científico não se faz necessário priorizar a sociedade civil. Mas tal argumento deixa de ser verdade quando vemos no histórico da luta contra a aids que o sucesso só é garantido quando esses grupos, profissionais de saúde e sociedade civil, agem juntos. A não priorização é sim uma falha inquestionável.

É importante ressaltar que o governo federal ofereceu um apoio de R$ 700 mil, o governo de São Paulo, de 200 mil e a prefeitura de São Paulo, de 100 mil. Ou seja, o SUS, nas três esferas, estará presente, mas os usuários terão um papel fragilizado*.

Num momento em que o país vive uma grave crise política e financeira, a falta de apoio governamental para a participação de ONGs e ativistas é lamentável.

Enquanto o conservadorismo cresce e se organiza, a exemplo da Bancada BBB (do Boi, da Bíblia e da Bala) no Congresso Nacional, a voz do movimento social é menos ouvida e, em alguns casos,  até perseguida pelo fato de ser discordante.

Que o debate seja um clarificador sobre as campanhas de prevenção, seja direcionado a populações-chave de forma corajosa. Quero acreditar que ao final dos dois congressos tenhamos construído uma estrada racional, na qual possamos caminhar de encontro com a saúde tão desejada e merecida pelo povo brasileiro.

*dados relatados na reunião da Comissão Nacional de Aids

 

 

*José Araújo Lima é ativista, presidente do Epah (Espaço de Atenção Humanizada) e um dos palestrantes do 10º Congresso da Sociedade Brasileira de DST e 6º Congresso Brasileiro de Aids

 

 

 

Apoios