Por Araújo Lima Filho
Recebi um telefonema-convite para escrever um texto sobre os 10 anos da Agência de Notícias da Aids. De imediato, não tive a dimensão da honra que era receber este convite. Depois de muita reflexão percebi não somente que era uma honra escrever sobre os 10 anos da Agência, como também vi, neste convite, uma oportunidade de me redimir do erro de não ter acreditado na proposta na ocasião de sua criação.
Logo após o burburinho sobre a criação da “tal” Agência Aids, sem pestanejar fui contra. Afinal seria mais uma empresa de notícias “@.com.br”. Na minha concepção, as ONGs não precisariam desse tipo de meio de comunicação. Deixo claro que não era o único a ser resistente com o nascer da Agência, mas muitos amigos do Movimento de Luta Contra a Aids também tinham tudo ou quase tudo contra a novidade.
Há 10 anos tínhamos no Movimento contatos em vários meios de comunicação e conseguíamos pautar os assuntos referentes à aids com muita tranquilidade. Lembro-me de uma visita do Dr. Alejandro Haad, da François Xavier Bagnoud ao Brasil, que, diante do nascer da nova Agência, questionou-me sobre a minha resistência.
Meu argumento não o convencera. Então, ele me disse: “O Brasil continua inovando com essa Agência, e você, com seu preconceito, pode deixar de colaborar para fortalecer esse espaço que é único”. Depois desse diálogo, retirei as lentes escuras que ofuscavam minha visão.
Como participante do Fórum de ONG/Aids do estado de São Paulo, posso garantir que na época a Agência Aids não era confiável para muitos dos participantes, afinal, a imprensa sempre foi amada e odiada, dependendo da situação. E ter que conviver com repórteres nas reuniões mensais do Fórum poderia deixar vulnerável os debates.
Recordo-me de uma fase em que os repórteres da Agencia eram convidados a participar somente de uma parte da reunião, o que provocou um debate fantástico no Fórum. Isso porque o Fórum era um espaço que zelava pela liberdade de expressão ao mesmo tempo em que o temor em relação ao “novo” nos assolava.
A democracia funcionou e a Agência passou a fazer parte dessas reuniões mensais. No calor dos debates, era comum que algumas falas fossem registradas em matérias, e que os autores das falas não se sentissem contemplados com o que fora registrado na matéria. Sem problemas até já que a Agência Aids sempre esteve aberta a fazer as correções necessárias.
É evidente que muitas reportagens não agradaram aos governos ou até mesmo ao Movimento, mas jamais podemos alegar que tiveram matérias mentirosas ou tendenciosas, afinal todos os lados sempre foram ouvidos, exatamente como manda as práticas do bom jornalismo.
Com a banalização da temática AIDS, o que era fácil em pautar a imprensa sobre o tema foi ficando cada vez mais difícil e a Agência cada vez era mais fundamental para que o assuntos como discriminação, descasos governamentais, novas tecnologias no combate à aids não passassem sem conhecimento da sociedade.
Um fato prático que vivi (que ficou como marco da importância desse portal na internet) foi que, como presidente de uma ONG, eu acompanhava um caso muito delicado de uma família na periferia de São Paulo. Uma mãe grávida e com HIV acompanhava o filho de quatro anos ao seu tratamento contra o câncer, o que à impossibilitava de fazer um pré-natal adequado. Às vésperas de dar a luz, a mãe não encontrava um hospital para realizar os procedimentos e ainda encontra resistência em deixar o filho de quatro anos sozinho no hospital.
Com a não aceitação dos hospitais em fazer o parto, acionei a Agência Aids relatando o fato, o que mereceu uma ampla reportagem que, no dia seguinte, estava nos principais jornais de São Paulo, o que levou as autoridades a encontrar uma solução em tempo de a criança ter sua cidadania respeitada.
A Agência Aids é para a luta contra aids o que a indignação é para o ativista. Durante os 10 anos de Agência, nenhuma luta contra aids, seja no ativismo, descobertas cientificas e ações governamentais passou despercebida pela sociedade.
Hoje, a Agência Aids não precisa mostrar a que veio, pois conquistou um espaço de respeito e de eco para a sociedade brasileira. A diferença entre a Agência e os outros meios de comunicação é que não precisamos pedir para ter nossa luta pautada pela editoria: ela sempre estará na rua e ao telefone a caça de notícias.
Aos que acreditaram na sua criação desde começo, desejo os parabéns pelo sonho realizado. E para os que como eu que foram convencidos pelo tempo -, rogo-lhes meu sincero reconhecimento pelo espaço conquistado.
A Agência Aids nesses anos tem mostrado para que veio: ser uma ferramenta para a prática da cidadania e um dos nossos eficientes instrumentos de controle social.
José Araújo Lima Filho é diretor do Espaço de Prevenção e Atenção Humanizada (EPAH)
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