Quando os números calam: o desafio de falar sobre TB

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No Dia Mundial de Luta contra a Tuberculose, lembrado em 24 de março, o cenário global e nacional segue marcado por contrastes: avanços em diagnóstico e tratamento convivem com lacunas profundas em vigilância, acesso e comunicação. A tuberculose continua entre as principais causas infecciosas de morte no mundo, especialmente no contexto da coinfecção com HIV — uma pauta que deveria fazer parte central da cobertura e das ações de saúde pública, mas que muitas vezes é silenciada. No Brasil, o Boletim Epidemiológico aponta mais de 84 mil casos em 2024 e mais de 6 mil mortes: 17 por dia, quase uma morte por hora.

Embora haja queda em algumas áreas, a TB segue endêmica em populações vulneráveis — pessoas que vivem com HIV, populações em situação de rua, privadas de liberdade, povos indígenas e moradores de periferias. A subnotificação, a fragmentação dos serviços e as barreiras no acesso a testes rápidos e ao tratamento completo explicam parte desse déficit, mas a comunicação ineficaz também contribui para que esses números não mobilizem resposta suficiente.

O estigma associado à tuberculose — alimentado por desinformação e por associações equivocadas com pobreza e comportamento — impede que pessoas procurem diagnóstico e completem o tratamento. Para quem vive com HIV, o medo de dupla discriminação aumenta a vulnerabilidade.

A linguagem sensacionalista ou a ausência de vozes afetadas nos veículos de comunicação reforçam o silêncio em torno da doença. Comunicar TB, portanto, exige cuidado para não reproduzir exclusão nem subestimar a importância da prevenção e do tratamento. O enfrentamento da TB exige estratégias pluralizadas: narrativas que traduzam os dados em histórias humanas; campanhas que alcancem populações marginalizadas em suas linguagens e mídias; integração clara entre a atenção primária, programas de HIV e serviços de vigilância; e uso responsável de redes sociais para combater tabus e fake news.

É preciso também preparar profissionais de saúde e comunicadores para abordar fatores sociais que determinam a doença — habitação, alimentação, acesso ao trabalho e políticas públicas — sem reduzir a TB a um problema estritamente biomédico.

Algumas prioridades práticas podem ser inseridas nesse enfrentamento, como a inclusão de vozes de pessoas com experiência vivida de TB e de comunidades afetadas nas campanhas e reportagens; o investimento em material informativo acessível e culturalmente sensível; e a formação de jornalistas e profissionais de saúde sobre comunicação sem estigma.

O chamado à ação

O Dia Mundial de Luta contra a Tuberculose é uma oportunidade para romper silêncios e transformar números em ações. A comunicação tem papel decisivo: não apenas relatar estatísticas, mas impulsionar políticas, preservar a dignidade de quem vive com TB e mobilizar recursos e solidariedade. Para vencer a tuberculose, é preciso ouvir, informar e incluir — com urgência, empatia e evidência.

* Liandro Lindner é jornalista, professor universitário, doutor em Saúde Pública, membro da Cnaids.

** Este artigo foi escrito em parceria com a ativista Jô Meneses e a advogada Marcia Leão. Jô é coordenadora de Programas Institucionais da Gestos, e Marcia é advogada, ativista do movimento aids e tuberculose e coordenadora executiva do Fórum ONG/Aids do Rio Grande do Sul.

*** Márcia, Jô e Liandro formam a Coordenação Executiva da Parceria Brasileira contra a Tuberculose – Stop TB/Brasil.

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