Quando as lutas se encontram: 17 de Maio e 1º de Dezembro, contra o preconceito e pela vida

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O Dia Internacional de Combate à Homofobia, Transfobia e Bifobia (17 de maio) e o Dia Mundial de Luta Contra a Aids (1º de dezembro) são duas datas diferentes, mas que compartilham uma mesma urgência: a de enfrentar o preconceito, promover direitos e garantir dignidade a todas as pessoas, especialmente às mais marginalizadas.

Ambas nos lembram que a violência, o estigma e a exclusão ainda são barreiras concretas no caminho de populações inteiras, e que a saúde e os direitos humanos precisam andar juntos. É na convergência dessas lutas que construímos possibilidades reais de transformação.

Foi em 17 de maio de 1990 que a Organização Mundial da Saúde retirou oficialmente a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças. Esse gesto, que pode parecer simbólico, teve um peso imenso: rompeu com décadas de estigmatização médica e institucional da diversidade sexual.

A partir daí, a data passou a representar o enfrentamento à homofobia, à transfobia e à bifobia. Mas, mais do que celebrar uma conquista, o 17 de maio é um lembrete: ainda vivemos em uma sociedade que discrimina, que nega direitos e que silencia vozes. Pessoas LGBTQIAP+ seguem enfrentando violência, rejeição, desemprego e exclusão do acesso à saúde — um direito básico e universal.

Já o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, instituído pela ONU em 1988, surgiu para chamar atenção para uma epidemia que, desde o início, foi atravessada pelo preconceito. No começo dos anos 1980, a aids foi associada exclusivamente à população gay, o que gerou pânico, omissão e estigmatização.

Essa narrativa equivocada ainda ecoa. Mesmo com os avanços científicos e o acesso gratuito ao tratamento pelo SUS, muitas pessoas evitam fazer o teste ou buscar ajuda por medo do julgamento. A sorofobia — o preconceito contra quem vive com HIV — continua sendo uma das maiores barreiras no enfrentamento da epidemia.

Essas duas datas se encontram em um ponto crucial: a urgência de combater o preconceito. Homofobia, transfobia, bifobia e sorofobia são expressões de uma mesma lógica violenta, que marginaliza, adoece e mata. E se queremos de fato promover saúde, precisamos promover também respeito, acolhimento e justiça.

Falar sobre HIV e aids com responsabilidade e sem tabu é uma forma de salvar vidas. Mas não basta informar — é preciso garantir políticas públicas que funcionem, serviços que acolham, profissionais preparados para lidar com as diferenças e combater o preconceito.

O HIV e a comunidade LGBTQIAP+ hoje

Apesar dos avanços, a epidemia ainda atinge com força a comunidade LGBTQIAP+, especialmente homens gays, bissexuais, travestis e pessoas trans. A vulnerabilidade não está apenas no comportamento sexual, mas no modo como o preconceito atravessa suas vidas.

O que os dados mostram:

Segundo o Unaids e o Ministério da Saúde, homens que fazem sexo com homens e pessoas trans têm taxas de infecção por HIV muito superiores à média da população. Isso não é resultado de “comportamentos de risco”, mas de exclusão, falta de acesso a informações e dificuldade de acesso a serviços seguros e livres de julgamento.

Avanços que precisam chegar a todos:

O tratamento antirretroviral garante qualidade de vida e torna o vírus intransmissível (I=I: indetectável=intransmissível).

A PrEP (profilaxia pré-exposição) e a PEP (pós-exposição) são eficazes e estão disponíveis no SUS, mas muitas pessoas não acessam por desconhecimento ou medo do estigma.

Sorofobia ainda é realidade:

Pessoas que vivem com HIV enfrentam preconceito nos serviços de saúde, no trabalho, nas relações afetivas e familiares. Muitas se isolam ou abandonam o tratamento por não se sentirem acolhidas.

A importância da educação e da visibilidade:

A educação sexual nas escolas é essencial para combater o preconceito desde cedo.

Campanhas específicas, linguagem acessível e respeito à diversidade são ferramentas poderosas para frear a epidemia.

Desde os anos 1980, a comunidade LGBTQIAP+ tem sido protagonista no enfrentamento da aids. ONGs, coletivos e ativistas desempenham um papel vital na produção de conhecimento, na luta por políticas públicas e no acolhimento das pessoas mais vulneráveis.

O combate à aids e o enfrentamento da LGBTQIAP+fobia não podem depender da vontade de governos. Precisam ser políticas de Estado — com continuidade, financiamento, escuta da sociedade civil e compromisso com a vida.

Temos as tecnologias para evitar novas infecções e impedir mortes por aids. E já avançamos, ainda que lentamente, no reconhecimento de direitos da população LGBTQIAP+. Mas não podemos retroceder. É preciso enfrentar o conservadorismo, o moralismo e a negligência com coragem, empatia e ação coletiva.

“A luta contra a aids é a luta por dignidade, pelo direito à vida e pela liberdade de viver sem medo, sem discriminação.”

“A luta pela vida é a luta de todos; é no engajamento comunitário que germina a esperança de transformar a sociedade e garantir os direitos dos mais vulneráveis.”
— Herbert de Souza (Betinho)

17 de maio e 1º de dezembro nos lembram de que ainda há muito a ser feito. As lutas contra o preconceito e contra a aids são inseparáveis. E enquanto houver desigualdade, silêncio e sofrimento, seguiremos propondo, cobrando e resistindo. Porque a luta pela vida é urgente. E precisa ser coletiva.

* Eduardo Barbosa é presidente do Grupo Pela Vidda São Paulo, coordenador do Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids), membro do Foaesp e integrante da Secretaria Política da Anaids.

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