Por Aline Ferreira*
24/07/2017 – Apresentar o Coletivo Loka de Efavirenz – a Loka – em poucas linhas não é tarefa fácil, exige um exercício de síntese desta paixão coletiva que nos uniu.
Podemos começar dizendo que a Loka (depois de desabafos e compartilhamentos de angústia, com incenso de Júpiter na fogueira), é parido em uma página no Facebook e intervenções públicas que miravam desconstruir o senso comum em torno do debate sobre HIV/aids; numa chave de crítica que se elaborava (como ainda acontece) entre leituras políticas, ironias, humor e denúncias.
Foi em agosto de 2016, com a Lua em Capricórnio, que a Loka realiza o lançamento de perfis homônimos em algumas redes sociais e intervenções políticas em algumas universidades, com o intuito de denunciar a condução arbitrária de políticas públicas de saúde para as Pessoas Vivendo com HIV/aids (PVHA).
Desde o início o coletivo foi se organizando para pautar os direitos das PVHA dentro de uma perspectiva que considera os recortes sociais como raça, gênero, classe social, sexualidade, entre outros, e as condições estabelecidas pelas políticas públicas desenvolvidas para as PVHA pelos órgãos competentes do Estado. Isto, a partir de leituras políticas que compreendem a atual gestão da saúde pública como articuladores de um projeto de sociedade que se encontra cada vez mais sufocada com pautas reacionárias e conservadoras, que colocam em xeque os poucos direitos conquistados por nós, populações historicamente oprimidas.
Desde aquele momento, acumulamos, em ambientes virtuais, um conjunto diverso de conteúdo digital que reúne artigos, denúncias, campanhas, vídeos, dentre outras. Conteúdo, por meio do qual, desenhamos nossa movimentação política e apresentamos nossos posicionamentos.
Os diferentes materiais desenvolvidos e/ou produzidos pelo coletivo visam, portanto, dialogar com esse grupo em especial, tendo a preocupação de apresentar um discurso acessível, porém crítico e com fundamento teórico. Miramos, assim, uma relação direta com o público, de forma a nos constituirmos coletivamente como uma comunidade.
A resposta que tivemos diante de nossas denúncias, que frequentemente tocavam em pautas e discussões polêmicas como campanhas de prevenção e protocolos de adesão ao tratamento resultou em convites para participar ou organizar eventos. Além desses convites, foi possível articular ações e intervenções junto a outras pessoas e/ou entidades.
Talvez por ser leonina, com ascendente em escorpião, a Loka aparece na voadora e rapidamente ganha espaço na mídia para publicizar suas denúncias, abordando pautas que abrangem desde a prática de lobbies pela indústria farmacêutica, como também evidenciando os impactos diretos da emenda constitucional 55 (que institui o novo regime de teto dos gastos públicos), e desmancha o maior sistema de saúde pública do mundo. Dentre outras.
Além do apoio de algumas mídias, também temos parcerias com outros espaços e coletivo para fortalecer e ampliar o acesso das denúncias, como, por exemplo, a Jaqueline Ramirez, uma drag linguista que tem um programa no Youtube chamado “Chá Caseiro” onde se discute direitos humanos relacionados às populações marginalizadas, onde a Loka auxilia pautando a vivência ao HIV; mestrandos em saúde pública que estudam a história da aids também contam com a criticidade da Loka no suporte à suas análises; e também, claro, com a Bapho Produções, que grava os vídeos da Loka!
E talvez por ser um coletivo predominantemente formado por acadêmicas, muitas de nossas participações foram concentradas nesse meio. Como, por exemplo, o evento que compomos junto com o Departamento de Midialogia do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, realizando uma atividade na Semana de Midialogia sobre Representatividade na Mídia; em parceria com o Coletivo DiversIME (Coletivo de Lésbicas, gays, bissexuais, Transsexuais, Transgêneros e Travestis – LGBT – discente do Instituto de Matemática e Estatísticas da Universidade de São Paulo – IME/USP), participamos de atividades voltadas a Comemoração do Dia Internacional de Combate à Homofobia, dando ênfase aos desdobramentos da homofobia sobre as LGBT e PVHA. A convite do Laboratório de Pesquisas Sociais em Medicina e Saúde (LaMeS) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e em parceria com o grupo Cida de Teatro, com o projeto “De onde vem e pra onde vai Cida?”, de Natal, participamos do II Seminário de Pesquisas em Gênero, sexualidades e HIV/aids, trazendo uma análise sobre experiências de ativismo em HIV/aids em redes e mídias sociais.
Mas também estamos em processo de ocupação de outros espaços para socialização das discussões, através de convites como o do coletivo Amem a compor uma roda de conversa sobre HIV e racismo no Centro Cultural Zapatta, ou como estar próximo ao trabalho do Coletivo Aroucheanos, que realiza semanalmente rodas de conversa e performances no largo do Arouche como forma de reivindicar a histórica ocupação e resistência LGBT naquele espaço da cidade de São Paulo; através da criação de zines em conjunto ao Coletivo das Liliths, de Salvador; e também através da apresentação da performance “Controle (IN)visível”, em parceria com o Museu de Arte Moderna de São Paulo e com A Revolta da Lâmpada, o Centro de Cidadania LGBT sul, e, sempre com a gente, o coletivo Amem.
Enfim, assumimos os espaços de privilégios que ocupamos e isso é um dos primeiros passos na caminhada para ressignificação das estruturas que nos limita, no caminho a reconstrução de outras possibilidades de existência. Numa perspectiva de que vivemos um desmonte ágil, generalizado e fatal do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, acreditamos na articulação política entre pessoas e organizações políticas como uma estratégia de luta em defesa de uma política pública de saúde universal e humanizada.
Vemos na construção e/ou na facilitação de espaços de debate, troca e reflexão sobre o serviço de saúde oferecido pelo Estado, métodos eficazes de se fazer esta articulação. Defendemos, assim, a organização coletiva como uma forma de resistência eficaz aos avanços neoliberais na área e, portanto, em defesa de um projeto anticapitalista para a saúde pública. Entendemos que defender um modelo de política pública de saúde que seja pautado nos direitos humanos, garantido gratuitamente e com qualidade pelo Estado – conforme a lei que regulamenta o SUS –, passa pela denúncia dos ataques e crimes cometidos contra o/e no SUS.
Pautar essas questões de maneira a mobilizar parte da população em torno desta pauta se faz necessário, à medida que a precarização do SUS avança rapidamente e incide sobre todas as pessoas usuárias deste serviço como uma violência contra a vida. Sendo assim, acreditamos que uma articulação horizontalizada e orgânica nos ajuda a organizar parte dessa luta de maneira a nos empoderar coletiva e mutuamente por meio de articulações políticas fortes. Este é o nosso objetivo.
Sobre como nos organizamos, temos o intuito de alimentar o princípio da horizontalidade e da organicidade, e por isso nos estruturamos em núcleos de atuação, cuja composição é aberta e livre o trânsito entre eles. É importante pontuar que os núcleos não visam sectarizar as atividades em funções estanques, mas criar conjuntos dentro da comunidade que possam atentar para questões específicas ou localizadas.
Essa estrutura possibilita que o coletivo caminhe de maneira multifocal e com eficiência, distribuindo as pessoas a partir de suas preferências e incentivando que haja rotatividade nas funções exercidas. A relação entre esses núcleos não é hierarquizada, mas ao contrário, se envolvem como partes de uma mesma maquinaria.
E por que estamos falando sobre como nos organizamos? Para convidar a geral para meter o Loko com a gente! O momento é de precarização então devemos unir forças para aumentar o CD4 e nossos direitos.
#Dolutegravirpratodas
* Aline Ferreira é ativista e faz parte do núcleo de articulação Loka de Efavirenz.
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