POR UMA PUBLICIDADE TRICÔMICA DE PREVENÇÃO À AIDS – Josi Paz – Publicitária e Mestre em comunicação

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Josi Paz – Publicitária e Mestre em Comunicação

Nei Lisboa é um delicioso músico. No sentido antropofágico, mesmo: o que ele compõe, nos devora e a gente devora. Não costumo puxar a brasa para o meu churrasco, embora seja gaúcha, mas aí vai uma baita propaganda dessa lasca poética do Rio Grande que é o Nei: www.neilisboa.com.br

Quando eu ainda era guria, ele lançou o hit “Mônica Tricomônica”. Estávamos em 1984 e a letra era mais ou menos assim: Por que é que você não se cuida, meu bem

(…) Escolha o parceiro que mais lhe convém
Assino embaixo, você é meu cacho, eu sou seu neném
Mas não me traga pra casa essa coisa
Não espalhe por toda a cidade essa peste bubônica
Mônica tricomônica

(…) Sabe o que eu acho: o sexo é frágil
E o amor é tão fácil, fácil, Flagil
Agora viu no que deu essa noite
Agora viu no que deu essa fome de amor supersônica
Mônica tricomônica

Me faça um favor, meu bem, me faça feliz
Avise os amigos, assim como eu fiz
E escute com jeito o que o médico diz
Só por uns dias, controle as manias, sossegue o nariz
E peça a deus o prazer de outro jeito qualquer
E passe o tempo em repouso fazendo tricô, Mônica
Mônica tricomônica

Nessa época, nenhuma campanha publicitária sobre a aids tinha sido veiculada pelo Ministério da Saúde. Aliás, a palavra “aids” ainda não estava presente com tanta onipresença na mídia, como aconteceria alguns anos depois. Mas é claro, as antenas do artista, conectadas com o(s) mundo(s), anteciparam, com ironia, as questões que norteariam o debate sobre o assunto. O músico talvez não concorde com a minha interpretação da sua obra, mas eu acho que o que ele compôs, naquele momento histórico, pode servir de lição para quem faz campanhas, direta ou indiretamente, na área da saúde.

O preconceito contra os homossexuais era muito mais contundente do que hoje quando essa música fez sucesso. Negociar condutas sexuais com o parceiro, então, nem se fala. Imagina sugerir que, apesar de um casamento, poderia haver relações extra-conjugais. Além do mais, na nossa sociedade, o que importa é o indivíduo: só nos sensibilizamos com a condição do outro quando a água está batendo no pescoço (quando a violência atinge a elite, por exemplo, é que ela aparece na manchete). Estava na moda se deslumbrar com a liberação sexual, recém-inaugurada na década anterior: transar por transar. Mas, se alguma coisa desse errado, a culpa e a consulta eram responsabilidades exclusivas da mulher.

Ainda assim, a letra diz com todas as letras: (…) escolha o parceiro que mais lhe convém. E mais: (…) assino embaixo, você é meu cacho, eu sou seu neném, tentando um ajuste de valores na relação. Deixa bem claro que, se a regra não for seguida, que pelo menos o cuidado se sustente (…) mas não me traga pra casa. A primeira pessoa na música também age como um sujeito envolvido na relação, ao contar que está tomando cuidado (…) assim como eu fiz. E ainda promove a cidadania (…) não espalhe por toda a cidade (…) avise os amigos. Como se já não fosse muito, questiona a imposição de uma conduta sexual desprovida de afetividade (…) sabe o que eu acho: o sexo é frágil e o amor é tão fácil, fácil, Flagil (…) Agora viu no que deu essa fome de amor supersônica, chegando até mesmo a assumir que os limites são necessários (…) escute com jeito o que o médico diz (…) E peça a deus o prazer de outro jeito qualquer.

Valorizo muito essas soluções estéticas encontradas pelo Nei Lisboa, no que se refere a abordagem da DST. Mas sei que a letra não acerta em cheio. Ela recupera o imaginário da “peste bubônica” e ainda rima com “mônica”, o que acaba reforçando a idéia de um universo sexual feminino patológico (nas guerras, a prevenção da gonorréia, entre os soldados, tinha como símbolo uma personagem feminina).De qualquer modo, é importante lembrar que a música não tinha objetivo persuasivo e o artista não se baseou em informações técnicas e sociológicas para compô-la. Desculpas que não funcionam para explicar as campanhas terroristas, que dão arrepio na coluna até hoje quando a gente assiste, que veicularam no final dos anos 80 até o começo dos anos 90.

Ok. Ninguém sabia muito bem o que fazer quando essa história de aids começou. Mas é importante destacar que o artista, em 1984, estava mais perto do que deveria ser feito do que os publicitários e o governo, que vieram depois, estiveram. Na minha avaliação, campanhas complexas como a de prevenção à aids não podem se valer apenas do competente expediente publicitário. Eu acredito que foi justamente a “interferência” dos leigos (movimentos sociais, profissionais de saúde, pessoas vivendo com aids) que tornou a comunicação de prevenção feita no Brasil mais rica, mais livre, mais arriscada, mais experimental, mais “tricomônica”, como precisa ser. Acho que o caminho é esse.
Música é música, jingle é jingle. Não dá para exigir de uma coisa, a competência que só a outra pode ter. Mas dá, sim, e é necessário, continuar experimentando novas linguagens. Agora que a aids não é mais novidade e a função da comunicação de massa é nos ajudar a existir, apesar dela, não dá pra continuar repetindo o mesmo refrão. É aí que contamos com a criatividade publicitária: na proposta de estratégias diferenciadas. Porque títulos engraçados e slogans a gente não agüenta mais ouvir.



Josi Paz – Publicitária e Mestre em Comunicação – josi@paz.zzn.com

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