Teresinha Cristina Reis Pinto
Durante muito tempo, o Estado brasileiro preconizou um modelo de Educação em Saúde Preventiva baseado numa única metodologia para todas as regiões do país. Com a constatação de que os “problemas da vida” invadem o espaço escolar de forma diferente daquela aprendida nos manuais de Pedagogia, os próprios educadores passaram a discutir, propor e participar de programas baseados na sua própria experiência com esses problemas: alunos portadores do HIV, manifestações de violência no espaço da escola e o fantasma do uso abusivo das drogas.
A tarefa educativa é, no fundo, o estabelecimento de uma acomodação entre poder e cuidado. Ao trabalhar em sala de aula, o professor tem a missão de se fazer entender e, para isso, vai utilizar de metodologias que envolvem também a sua capacidade de sedução e de vinculação afetiva, despertando interesse e curiosidade, além de respeito e autoridade. Essa intrincada engenharia acaba levando, quase sempre, ao chamado burn out ou Síndrome da Desistência.
Superar esse fenômeno tem sido uma das principais dificuldades na implantação de programas de Educação Preventiva nas escolas brasileiras e somente a compreensão do sentido do que se está fazendo, mediante uma leitura da realidade local e uma aceitação dos próprios limites pode levar a bom termo aquela proposta.
Os novos métodos de combate às DST/Aids geraram aquilo que, hoje, órgãos como a UNESCO e a UNAIDS qualificam de Educação Preventiva (latu sensu), por envolver desde a Educação Sexual e o “empoderamento” dos educadores, pais e comunidade até a discussão aberta sobre violência, uso abusivo de drogas, preconceitos e até a falta de oportunidades de realização.
É preciso começar esse trabalho nas escolas na faixa etária dos 3 aos 10, época em que os pais freqüentam, com maior assiduidade, a escola de seus filhos. Nos parece imprescindível que as creches Escolas Educação Infantil não apenas disponham de programas de prevenção, como também envolvam os pais de seus alunos nessas atividades.
Exemplos de prevenção desde a pré-escola podem ser encontrados em nosso próprio país, mas se multiplicam em países como a Holanda, Dinamarca e em Cuba, que mantém centros de atendimento e informação para os pais de alunos matriculados na rede de ensino. Experiências como a da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde vários cursos na área de Saúde já vêm sendo trabalhados sob uma perspectiva humanizadora, reforçam essa tendência. Na mesma linha, Programa de Educação Preventiva da Prefeitura de São Paulo, desde 2001, vem formando educadores e pais em suas unidades, creches e outros níveis de ensino.
Tudo indica que, em breve, o país passará a contar com uma política educacional também voltada à Educação Preventiva. Sob esse prisma, os seguintes desafios nos esperam: os órfãos da AIDS inseridos no cotidiano das escolas; a necessidade de espaços de gestão que incluam segmentos da sociedade envolvidos na formação dos educandos; a resignificação de ambientes como o recreio, festas juninas, e outras manifestações culturais; a distribuição controlada de preservativos, ainda que apenas para alunos dos cursos noturnos; a construção de materiais regionalizados; a inclusão de meninos e meninas grávidas no cotidiano escolar; o combate ao abuso sexual e a produção de materiais adequados às pessoas com deficiência física , visual e auditiva.
Não são desafios pequenos ou facilmente transponíveis, mas a vontade política –consolidada na inédita aproximação dos ministérios da Educação e da Saúde – e a nossa antiga máxima do aprender fazendo, temperada com uma boa dose da esperança que vem alimentando a transição política do país, anima a nossa expectativa e fortalece a nossa capacidade de superação.
Teresinha Cristina Reis Pinto é Biomédica, pedagoga formada pela USP, vice-presidente da APTA – Associação de Prevenção e Tratamento da Aids – e consultora da UNESCO. Telefone para contato: (0XX11 – 3266-3345)
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