POR UM ESTADO QUE RESPEITE NOSSOS CORPOS, DE FATO! – Alexandre Santos é presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOGLBT)

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Crédito: Ricardo Mansho/APOGLBT

Alexandre Santos

Quando usamos a palavra homofobia como tema de uma parada, pela primeira vez, nem imaginávamos que ia deixar de ser conversa de militante para ir para a boca do povo, como aconteceu. Hoje, uma grande parte das pessoas sabe dizer quando uma atitude é homofóbica.

Apesar disso, algumas pessoas se espantam, quando dizemos que a homofobia mata. Elas não entendem como gestos diários e repetidos, cometidos desde criança, como xingar alguém de viado ou bicha ou sapatão, geram ódio, medo, repulsa e violência. Crimes homofóbicos são fáceis de reconhecer pelo requinte de crueldade com que são cometidos.

Apesar disso, mostrar que a homofobia existe e mata, não tem sido suficiente. Se fosse, os números alarmantes de mortes de homossexuais, que militantes como Luis Mott recolhem todo dia, não seriam ignorados pelas instituições.

Quando escolhemos o tema “Homofobia Mata! Por um Estado laico, de fato”, quisemos avançar. Quisemos mostrar de onde vêm as práticas homofóbicas. Não se trata de acusar ninguém, nem atribuir culpa a pessoas. Mas de exigir que o Estado seja o primeiro agente do combate à homofobia, em todas as suas instâncias: executivas, legislativas e judiciárias. Num país conservador, onde a maioria esmagadora dos juízes se ampara na falta de leis para julgar contra os direitos civis de homossexuais, queremos a lei.

Mas a lei não virá se o plenário do Senado continuar se confundindo com o púlpito de uma igreja evangélica. O Projeto de Lei 122 de 2006, que criminaliza a homofobia, vai continuar sendo bombardeado, se os religiosos não entenderem que estão ali para legislar para todos, e em respeito a todos, inclusive aos cidadãos gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. Sua opinião sobre a homossexualidade não pode se tornar razão de Estado. Os crentes devem seguir sua fé por opção espiritual e não por imposição da lei dos homens, que deve servir a crédulos e incrédulos. É esse Estado, de fato, que queremos.

Eu me lembro que, há poucas décadas, ainda se ouvia, na televisão, alguém chamar um personagem negro de “macaco”. Hoje, ninguém ousa dizer isso publicamente, nem de brincadeira. Mérito da força e da seriedade do movimento negro. Mas, ainda se vê muita ridicularização de homossexuais, como se isso não ofendesse ninguém. Como se pequenos gestos assim, não fossem a semente podre, semeada o tempo todo, para brotar ódio e homofobia. É disso que queremos falar. É esse debate que queremos pôr na rua.

Quando usamos a palavra homofobia como tema de uma parada, pela primeira vez, nem imaginávamos que ia deixar de ser conversa de militante para ir para a boca do povo, como aconteceu. Hoje, uma grande parte das pessoas sabe dizer quando uma atitude é homofóbica.

Apesar disso, algumas pessoas se espantam, quando dizemos que a homofobia mata. Elas não entendem como gestos diários e repetidos, cometidos desde criança, como xingar alguém de viado ou bicha ou sapatão, geram ódio, medo, repulsa e violência. Crimes homofóbicos são fáceis de reconhecer pelo requinte de crueldade com que são cometidos.

Apesar disso, mostrar que a homofobia existe e mata, não tem sido suficiente. Se fosse, os números alarmantes de mortes de homossexuais, que militantes como Luis Mott recolhem todo dia, não seriam ignorados pelas instituições.

Quando escolhemos o tema “Homofobia Mata! Por um Estado laico, de fato”, quisemos avançar. Quisemos mostrar de onde vêm as práticas homofóbicas. Não se trata de acusar ninguém, nem atribuir culpa a pessoas. Mas de exigir que o Estado seja o primeiro agente do combate à homofobia, em todas as suas instâncias: executivas, legislativas e judiciárias. Num país conservador, onde a maioria esmagadora dos juízes se ampara na falta de leis para julgar contra os direitos civis de homossexuais, queremos a lei.

Mas a lei não virá se o plenário do Senado continuar se confundindo com o púlpito de uma igreja evangélica. O Projeto de Lei 122 de 2006, que criminaliza a homofobia, vai continuar sendo bombardeado, se os religiosos não entenderem que estão ali para legislar para todos, e em respeito a todos, inclusive aos cidadãos gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. Sua opinião sobre a homossexualidade não pode se tornar razão de Estado. Os crentes devem seguir sua fé por opção espiritual e não por imposição da lei dos homens, que deve servir a crédulos e incrédulos. É esse Estado, de fato, que queremos.

Eu me lembro que, há poucas décadas, ainda se ouvia, na televisão, alguém chamar um personagem negro de “macaco”. Hoje, ninguém ousa dizer isso publicamente, nem de brincadeira. Mérito da força e da seriedade do movimento negro. Mas, ainda se vê muita ridicularização de homossexuais, como se isso não ofendesse ninguém. Como se pequenos gestos assim, não fossem a semente podre, semeada o tempo todo, para brotar ódio e homofobia. É disso que queremos falar. É esse debate que queremos pôr na rua.

A primeira pergunta, que todo jornalista faz, há muitos anos, é qual a nossa expectativa de público para a Parada. Há anos, dizemos a mesma coisa: nossa expectativa é que, quem comparecer, entenda o sentido do que estamos fazendo. Nenhuma entrevista é dada, pela organização, sem explicitar nosso objetivo político. Queremos unir as pessoas em torno do tema do Mês do Orgulho GLBT de São Paulo. Todo o esforço de organização, de captação de recursos e de diálogo com a sociedade visa, também, a beneficiar e unir todos os grupos do movimento GLBT, em torno de nossas ações, disponibilizando tendas da Feira e trios da Parada para que todos se expressem.

É para fortalecer este tema que nossa seqüência de trios está cada vez mais politizada. É para esclarecer o significado do tema que escolhemos cada artista. É para botar na boca do povo o bordão “Que problema você tem?” que gravamos um tema musical. Parcerias institucionais, como aquela fechada com a Fecomércio, prevêem contrapartidas que beneficiem a população GLBT de todo o país. É para ocupar com nossos afetos explícitos, todos os lugares públicos, que fazemos o Gay Day no Playcenter, e todas as outras manifestações de rua. É para fazer a reflexão estratégica, que montamos um ciclo de debates com intelectuais. É para desmontar os mecanismos da homofobia que lotamos oficinas na Feira Cultural. É para mostrar que a esperança contra a homofobia está em todo lugar que homenageamos iniciativas corajosas com o Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade.

Não é à toa que uma das principais ações do Mês do Orgulho GLBT, este ano, foi trazer os organizadores das Paradas de Moscou e Jerusalém para homeageá-los com nosso prêmio e declararmos a Parada de São Paulo irmã dessas manifestações tão distantes. São representantes simbólicos da luta brutal que se enfrenta em outros lugares do mundo contra a homofobia, mostrando como é universal esse ódio gratuito, que atinge uma população vulnerável.

São exemplos atuais da resistência à selvageria fundamentalista de certas religiões. Rússia e Israel são, ambos, Estados laicos, onde a disputa pelos corpos e mentes de seus cidadãos se dá na arena da influência religiosa. Jerusalém, em particular, é considerada cidade santa para as três maiores religiões monoteístas – o judaísmo, o cristianismo e o islamismo – todas unidas contra a Parada do Orgulho. Mesmo assim, organizadores e participantes reafirmam seu direito sobre a cidade e enfrentam a violência pelo direito de manifestação e expressão.

Homenageá-los significa mostrar com exemplos concretos e atuais, para a comunidade GLBT e para a população brasileira, o que está em jogo na luta que travamos. Hoje são nossos corpos que estão em disputa na tribuna do Senado, como ontem foram os corpos de pessoas com deficiência que lutam pela pesquisa com células-tronco, ou ainda continuará sendo a negação da decisão das mulheres sobre seus próprios corpos.

Esperamos que esta aliança internacional possa ajudá-los em sua batalha local, somando mais este apoio, por uma condição melhor nas próximas Paradas. Jerusalém e Moscou nos lembram que a luta contra todos os fundamentalismos e fascismos precisa permanecer viva em nós, tanto quanto a solidariedade entre aqueles que lutam por um mundo melhor.

Alexandre Santos é presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOGLBT)

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