POR QUE UMA AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA AIDS? – Roseli Tardelli – Fundadora e Editora – Executiva da Agência de Notícias da Aids

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Eu me chamo Roseli Tardelli, sou jornalista, apresentadora, produtora cultural e ativista do movimento de Aids. Tenho 42 anos e tive contato com a Aids mais estreitamente a partir do momento em que soube que meu irmão Sérgio Tardelli (tradutor) havia se infectado com o vírus HIV. Foi por volta de 1990. Eu havia voltado de um ano de mestrado na Espanha. Foi a pior notícia que recebi na minha vida. Não tínhamos a combinação dos anti-retrovirais, não tínhamos atendimento por parte dos convênios médicos e seguros-saúde, não tínhamos muito o que fazer, a não ser torcer e rezar para a doença não se manifestar. Assim foi até  dezembro de 1993. O Sérgio era uma figura especialíssima. Muito disciplinado, quando soube que havia se infectado, passou a se cuidar muito: natação, ciclismo, alimentação natural. Em dezembro de 1993 tivemos a primeira das quatro internações que amargamos ao longo de todo o ano de 1994. Precisavamos saber  como ele estava de fato, qual o tipo de vírus que tinha. Há cinco anos ele era meu dependente no convênio médico. Nunca tínhamos precisado usar o convênio, porque, como eu disse anteriormente, disciplinado, metódico, meu irmão se cuidou até que precisamos recorrer a internação.

– Hospital 9 de Julho,  São Paulo, primeira quinzena de dezembro de  1993. Nós dois no quarto. O Sérgio debilitado, deprimido. Eu triste, a seu lado. Ali deixando o tempo passar e falando sobre amenidades. Batem à porta. Entra uma mulher de meia idade, dizendo-se representante do convênio, com um comunicado por escrito. “Desculpe, eu vim informá-los que vocês não poderão ficar neste hospital porque o convênio médico não atende este tipo de doença.” Eu não acreditei na falta de sensibilidade, de tato, daquele ser humano. Ela poderia ter me chamado lá fora e dado o comunicado. Não. Era rotina para eles aquela atitude. Nos entreolhamos. Meu irmão baqueou ainda mais. Eu imediatamente desci, fiz um cheque caução, liguei para a advogada que conhecia e iniciamos naquele momento uma discussão jurídica com a Golden Cross. Não era justo. Ele era meu dependente há cinco anos e nunca havíamos usado o convênio. Vinte e quatro horas depois a Justiça de São Paulo nos concedeu uma liminar que garantiu o atendimento médico até que ganhamos a causa em meados de outubro de 1994. Para isso acontecer foi traçado um longo, complexo, doloroso,marcante e inesquecível caminho.

Meu irmão se expôs. Deu entrevistas. Falou sobre como se sentiu quando percebeu o preconceito e a rejeição do convênio. Articulei manifestações. Mobilizei jornalistas em redações. Os
“coleguinhas” ( termo que nós jornalistas usamos para nos denominarmos ) se solidarizaram. Viramos notícia. Geramos muitas notícias e a discussão sobre a questão veio à tona. Ganhamos em primeira instância. Neste momento entrei no quarto que meu irmão ocupava na casa de meus pais na Zona Norte de São Paulo. O Sérgio pesava uns 38 quilos. Não enxergava mais. Se movimentava com dificuldade. Tinha poucos momentos de lucidez. “Oi brother,  tenho uma ótima notícia: “Você ganhou, nós vencemos o convênio em primeira instância. Viva bastante para que a Golden Cross perceba que precisa mudar. Estou muito feliz. Parabéns”. Ele se virou para o lado onde eu estava e disse apenas. “Legal e os outros?” .Dois meses depois, em novembro de 1994, meu irmão morreu. A decisão da Justiça a nosso favor só aconteceu porque houve a disposição dele em se expôr, o apoio dos jornalistas que se sensibilizaram com a causa e trouxeram a discussão para a sociedade civil, e ainda o fato dele ter comparecido a primeira audiência e ter passado mal na frente do Juiz que, constrangidíssimo, cedeu um sofá para que ele se deitasse. Quando a pessoa morre, fica com um vazio imenso. O meu, tenho tentado preencher com ações voltadas para a inclusão e cidadania contra o preconceito e a discriminação. No início fundei a Associação Parceiros de Vida e junto com o Sesc realizamos uma série de ações pelo interior de São Paulo com oficinas de sexo-seguro, inserções culturais quando era passado um abaixo-assinado  contra a posição dos convênios-médicos e seguros-saúde. Colhemos mais de 20 mil assinaturas e as enviamos ao Ministério da Justiça. Atualmente eles atendem as pessoas que vivem com HIV e Aids. Estipularam uma carência de dois anos, mas com o fato de termos criado jurisprudência, é muito mais fácil de um portador ter na Justiça seu atendimento garantido. Passei a ser organizadora e curadora de vários encontros sobre Comunicação e Aids. Percebi a necessidade de existir uma dinâmica mais produtiva entre os jornalistas e a pauta Aids. No ano de 2002, produzindo em Brasília o espetáculo “Vozes do Brasil”, visitei algumas vezes o trabalho que a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) desenvolvia. Fiquei muito impressionada e feliz com a estrutura, o profissionalismo e os resultados alcançados pelo trabalho da Andi. Percebi que poderia iniciar um processo semelhante e em menor escala voltado para a notícia Aids. Com o apoio da Usaid /DKT Brasil fundei em maio de 2003 a Agência de Notícias da Aids, que abastece todos os dias as redações do Brasil inteiro com sugestões de pautas e localização de fontes para contribuir para trazer a pauta Aids novamente para o cotidiano das redações. É um projeto que começa pequeno, mas ambiciona outros mercados onde a informação poderá colaborar muito nos trabalhos de prevenção. Quero realizar ação semelhante, quem sabe, ano que vem, no continente africano. Primeiro vamos solidificar as ações por aqui. Como o HIV não tem preconceito e nem fronteiras, não tenho preguiça para desenvolver projetos e possibilidades de construção de ações solidárias e cidadãs que auxiliem a combater a ignorância do preconceito e da desinformação que são os aliados básicos do alastramento da epidemia no mundo.


Roseli Tardelli é fundadora e editora-executiva da Agência de Notícias da Aids.
(0XX11) 3284-6602

Apoios