Por quê o Grupo de Apoio a Prevenção à Aids (Gapa) subsiste há 30 anos

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Aurea Abbade*

28/04/2015 – Comecemos por meados de 1984, quando surgiu a epidemia do vírus causador da aids, que, na época era conhecido por HTLVIII. Naqueles tempos, tomei conhecimento dessa epidemia, que causava espanto a todos, porque não se tinha conhecimento certo de como era transmitida, qual o tratamento, se havia remédio, se havia cura.   

Nas reuniões que aconteciam mensalmente na Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, no auditório Wranjac,  no 8º  andar da Av. Doutor Eneas de Carvalho Aguiar, só haviam pessoas desesperadas pela perda de amigos, de irmãos, de filhos, de companheiros.
Pessoas desmaiando, chorando, sofrendo e sem saberem o que fazer, por onde começar. Estávamos diante de uma situação desesperadora, conforme anunciavam os jornais principalmente o “Notícias Populares”,  hoje extinto,  com manchetes como e “Peste Gay Mata Mais Um’, ou algo semelhante.

Até aquele momento não conhecia ninguém que fosse portador dessa horrível doença. Porém, logo  começaram as notícias de que amigos  haviam sido acometido  daquele mal e queriam nossa ajuda, precisavam saber como e onde poderiam se tratar. Só que não havia nenhuma informação sobre isso.  Os hospitais se negavam a atender, não haviam vagas, não havia tratamento, nem  vacinas, nem  cura.

Então,  o que fazer?

Passamos a frequentar todas reuniões sobre o tema que chegavam ao nosso conhecimento. Passamos a visitar os pacientes, para dar a eles consolo, ao menos material e emocional, pois atuávamos como amigos. Muitos outros amigos que um dia eles tiveram foram embora com medo da adquirirem a doença.

Notícias de morte de todos os rincões do Brasil chegavam. Minas Gerais: um associado de um clube foi proibido de utilizar a piscina, pois a diretoria tinha medo de que pudesse contagiar os demais sócios; na cidade de Santos (SP) um professor foi proibido de utilizar o elevador, pois o síndico alegava que era área comum do prédio; uma casa de apoio na cidade  de São Paulo foi impedida de ser instalada, pois alegavam que iria desvalorizar os demais imóveis do bairro.

Então, em reunião plenária decidimos fundar o Gapa, para podermos agir de maneira mais forte e organizada. E aí passamos a reivindicar o tratamento, pesquisas adequadas para tratamento das pessoas, para que fosse garantido a todos o direito à vida, nosso bem maior, conforme reza a Constituição Federal.

Infelizmente, milhares de pessoas foram infectadas, muitas morreram, muitas perderam o emprego, os amigos, foram expulsas de suas  casas por conta do preconceito que vem com a doença sendo assim discriminadas, vendo a decretação de sua morte civil, perdendo de um momento para o outro todos os direitos enquanto cidadãos. Mas o Gapa coleciona ações como as que seguem:
•    Lançamos o primeiro cartaz sobre HIV/aids:  “Transe numa boa” de Darci Penteado (1985)

•    Lutamos e conseguimos o fornecimento do AZT, DDI, DDC, para todos que necessitassem

•    Conseguimos a primeira casa de apoio para portadores

•    Lançamos o primeiro cartaz sobre o sangue: “Doe Sangue” 1985

•    Lutamos e conseguimos a distribuição do coquetel –inibidores de protease em  1996

•    Obtivemos a primeira reintegração ao trabalho, na Justiça do Trabalho , de portador do HIV/aids

•    Obtivemos a primeira vitória contra convênio médico em 1996, perante Judiciário Paulista

•    Fizemos a primeira brinquedoteca para filhos de mulheres soropositivas ou crianças soropositivos

•    Treinamos 29 advogados sobre a questão dos Direitos dos Portadores 1997

•    Tivemos o primeiro departamento jurídico para atender as demandas advindas com o preconceito e a discriminação que recaiam e recaem sobre os portadores do HIV/aids

•    Mantemos uma biblioteca, hemeroteca, videoteca com material em mais 100 idiomas à disposição da população em geral

•    Mantemos  serviço social ,com assistente social, que atende diariamente

•    Levamos adiante o projeto Viva Melhor Sabendo – Fluido Oral no ano de 2014, nas praças de São Paulo

Porque entendemos que todos nós cidadãos brasileiros e estrangeiros radicados no Brasil temos direito à saúde, à  informação certa e correta, à prevenção, ao tratamento e assim o GAPA, embora já decorridos 30 anos (em 27 de abril de 2015), continua de portas abertas, vigilante para que a política de saúde não sofra qualquer retrocesso e garanta cada vez mais uma vida digna para todos.

*Aurea Abbade é advogada, administradora de empresas, contabilista, especialista em processo penal, especialista em processo civil, em direito do trabalho, membro da RED LAC Rede Latinoamericana de direitos Humanos, Ética, Legislação e Aids, membro da Laccaso ( Latin American and the Caribbean Council of Aids Services Organization) membro fundadora do Gapa BR SP, membro fundadora do Grupo Pela Vidda  e do Projeto Criança Aids.

 

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