População de rua, HIV e tuberculose: desafios e aprendizados

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Liandro Lindner*

16/06/2016 – Procurar analisar a tuberculose, doença curável e fortemente marcada pela exclusão social em grupos específicos, principalmente população de pessoas em situação de rua, é um desafio grande. As condições de vida e saúde desta população são muito restritas. Vivendo em logradouros públicos ou em equipamentos sociais sem privacidade e, muitas vezes, sem condições satisfatórias de alimentação, higiene ou cuidado da saúde, são homens e mulheres, na maioria, à margem de qualquer forma mais digna de vida. Mas, além destas limitações físicas, a exclusão talvez seja a grande dificuldade que esta população enfrente.

O universo da exclusão social de pessoas atingidas por alguma doença é um tema que desperta a atenção. Embora esta situação sempre tenha sido presente na história da humanidade, a contemporaneidade tem trazido aspectos que ressignificam esta exclusão exercitada ao longo dos séculos. Ao mesmo tempo, estes aspectos agregam especificidades do momento atual, sobretudo considerando o avanço capitalista, com consequente ampliação das diversas formas de exclusão.

A tuberculose, neste ponto, se apresenta num novo paradigma longe da fase romântica, que contribuiu para a criação de um imaginário idílico, e ressuscita a ideia de sua existência frente à concepção ilusória de sua erradicação. Assunto meio estacionado até a década de 1980, a doença surge como relevante no cenário mundial e brasileiro após o advento da epidemia de aids, sendo hoje a principal causa de morte entre pessoas com HIV. Com o crescimento da urbanização descontrolada e a criação dos cinturões de pobreza, ao redor das grandes regiões metropolitanas, a tuberculose foi se espalhando junto à população mais empobrecida. Assim, não foi surpresa que a patologia atingisse também a população em situação de rua, que hoje soma mais de 16 mil pessoas na capital do estado de São Paulo, segundo dados do Censo da População em Situação de Rua da Cidade de São Paulo (2015).

 Ao somatório das doenças, do abandono social, das dificuldades de acesso ainda se acrescenta o uso de álcool e outras drogas, o que resulta ser esta população um alvo de todo tipo de preconceito, que colabora sobremaneira com o estigma que carregam. São Paulo é a cidade que concentra a maior população do Brasil.

 Do ponto de vista da dimensão coletiva da doença, o objetivo é o controle, por meio do tratamento completo da pessoa atingida, evitando-se assim sua propagação para outros. Eliminar a fonte de infecção é o objetivo e para isto o controle sobre aqueles que estão afetados é primordial. Na medida em que mais doentes de tuberculose aderirem ao tratamento, menor será a chance de transmissão para os que o cercam.

Esta equação, no entanto, esbarra nas dimensões singulares de cada caso, obedecendo a critérios localizados de grupos e que nem sempre são levados em consideração durante o tratamento. Talvez por isto o imaginário de isolamento ainda ronde a gama de respostas que se quer dar a estas situações, agindo não apenas como ação de cuidado do doente mas como de segurança à sociedade ao seu redor. Tais conceitos de segurança parecem se agravar na medida em que mais excluída é a população. E aí aspectos como uso constante de álcool e outras drogas e vida na rua se somam como agravantes.

  No entanto, o que ficou destacado nas aventuras de campo que empreendi para a minha tese de doutorado é que não é apenas de desgraças e tristezas que vive esta população.

Mesmo sob cuidados de saúde, seja com os profissionais na rua, seja internada em hospital de tratamento de longa duração, existem aspectos de sociabilidade e ações de resistência e resiliência às limitações que a condição impõe, e estas proporcionam prazeres a estes excluídos que, muitas vezes, são mal entendidos por seus cuidadores, mesmo que acabem contribuindo para a recuperação do seu estado de saúde.

  A doença que vitimou o avô que não conheci, há mais de 70 anos, é a mesma que ainda mata cinco mil pessoas por ano no Brasil – uma a cada duas horas. O que mudou nestas décadas foi o avanço no atendimento, na testagem e no tratamento. Mas  também mudou drasticamente o perfil da pessoa afetada.

Os rostos da pobreza e da exclusão ocupam os consultórios e os quartos hospitalares, sem contar o grande número que não consegue chegar até lá. A busca de um entendimento mais amplo, que entenda aspectos além dos biomédicos, foi a minha motivação para esta jornada de estudos. Acabei encontrando bem mais do que fui buscar e voltei com mais questionamentos do que quando cheguei.

        

* Liandro Lindner é jornalista, professor, doutor em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP

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