Vicente Darde
A construção da Aids no imaginário coletivo no Brasil foi um processo desencadeado pela imprensa, no início da década de 80. Foram as primeiras reportagens em jornais e revistas que, além de dar ao público as primeiras histórias dos doentes da Aids, ajudaram a ensaiar formas de se falar dela. Os jornais, enquanto estratégicos para a construção de sentido da Aids na sociedade, esbarram ainda hoje em limitações da rotina produtiva e interesses político-econômicos para fomentar o debate acerca da epidemia. Nesse processo da construção da notícia sobre a Aids, a relação entre jornalistas e fontes de informação é determinante, visto que somente a pluralidade de vozes presentes nos textos jornalísticos contribui para uma construção mais fiel da realidade da doença neste século XXI. Por esta razão, o estudo das fontes de informação tem constituído um aspecto central da pesquisa sobre jornalismo. Antes de chegarem à sociedade, as informações provenientes das fontes são submetidas a um processamento e enquadramento, que irão contribuir para a construção de significados.
Na dissertação de mestrado “As vozes da Aids na imprensa: um estudo de fontes de informação dos jornais Folha de S. Paulo e O Globo”, defendida em 17 de março de 2006 no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, busquei analisar a configuração das fontes de informação utilizadas pelos jornais O Globo e Folha de S. Paulo, representantes do jornalismo de referência do Brasil, na construção de notícias sobre HIV/Aids durante todo o ano de 2004. Foram analisados 310 textos jornalísticos sobre HIV/Aids. Verifiquei que a Aids foi tratada, na maioria das vezes, como uma questão grave de saúde pública que deve ser combatida pelos países desenvolvidos. Mesmo com o domínio de fontes oficiais, provenientes de órgãos governamentais (Ministério da Saúde, Nações Unidas etc.), através do conceito de enunciador de Oswald Ducrot (1984) identifiquei que as vozes dominantes foram as que cobraram ações dos governos na luta contra a Aids. Contudo, a fala das pessoas vivendo com HIV/Aids praticamente não esteve presente nos jornais pesquisados. Desta forma, não houve um equilíbrio nas vozes em textos sobre HIV/Aids.
Se a imprensa vem apresentando alguns avanços na construção do discurso sobre a Aids na sociedade, com a ampliação da abordagem de temas e a pluralidade de vozes presentes nos textos, comprovei empiricamente que os soropositivos continuam sendo tratados como objetos, e não sujeitos no discurso sobre a Aids. Os profissionais de comunicação devem abordar as temáticas da Aids com maior diversidade de fontes, com maior contextualização, com abordagens mais críticas; enfim, com elementos que mobilizem a sociedade para a superação dos problemas do país. Hoje, as pessoas não são mais vistas como morrendo de Aids, mas sim vivendo com HIV/Aids. Essa mudança de paradigma ainda não é perceptível nos jornais, comprovado pelo baixo número de falas dos soropositivos nos textos jornalísticos sobre a doença. Com a qualificação dos temas e pluralidade das fontes de informação, o discurso jornalístico passaria a ser uma contribuição concreta para a prevenção e o tratamento da Aids no país.
Vicente William da Silva Darde é jornalista e mestre em Comunicação e Informação
E-mail: vicentedarde@terra.com.br
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