Helena Trevisan
Fazíamos uma tranqüila viagem de carro, meu filho Victor de 12 anos e eu, quando a certa altura comecei a cantarolar o “Samba de uma nota só”. Para minha surpresa, Victor cantou comigo. “Eu não sabia que você conhecia essa música”, comentei. “Aprendi na escola”, disse ele. “Na aula de música?”, perguntei, achando que era óbvio. “Não, na de matemática”.
Em se tratando da Waldorf São Paulo, onde ele estuda, isso não chega a me surpreender, embora eu fique sempre admirada ao constatar como a pedagogia Waldorf permite, sugere e estimula a inserção da poesia no cotidiano escolar, fazendo da arte um item importante e sério do currículo.
Como mãe participativa do dia-a-dia da escola, observo mais: que a arte tem o efeito mágico de legitimar e propiciar a expressão livre do indivíduo. No traço do carvão, no caminho incontrolável da tinta no papel úmido da aquarela, na impressão dos dedos sobre a argila, no nó frouxo ou apertado do tear expressam-se personalidades, tendências, temperamentos. Todos têm seu espaço e são incentivados a se manifestar. Não há o feio ou o bonito, o certo ou errado, apenas o verdadeiro. E o que se sente como verdade se aceita incondicionalmente.
Além desse propósito, atividades artísticas aliviam o “peso” e o desgaste causado pelo processo de aprendizagem, mais ainda em se tratando de conteúdo que exige demais do intelecto. Não é à toa, portanto, que estudos recentes registrem menor grau de estresse e mais saúde física nas crianças que estudam em escolas Waldorf.
Ao observar meu filho e os outros alunos, vejo com satisfação que estamos favorecendo sua formação como cidadãos livres de preconceitos, solidários, altruístas, que nos surpreendem com a facilidade de seus enfrentamentos e a corajosa demonstração de suas idéias e talentos. Certa vez, perguntei ao Victor do que se tratava aquele abraço coletivo que toda a classe se dava no final da aula de educação física. “A gente diz um verso”, e declamou:
“Estrelas são como sonhos, não se pode alcançá-las com as mãos. Mas, assim como o marinheiro no mar deserto, são elas que indicam o caminho”.
Que não faltem sonhos e que haja estrelas suficientes para iluminar os caminhos de todos nós.
Helena Trevisan é formada em psicologia e autora do livro “Filhos Felizes na Escola -Pedagogia Waldorf, o ensino pela arte” (Trevisan Editora Universitária). É presidente da Associação Parceiros da Educação para a Vida, mantenedora da Escola Waldorf São Paulo
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