É comum dizer que quando perdemos uma pessoa querida só falamos de suas qualidades. Pois é isso que vou fazer nesse texto. Esquecer os momentos de diferenças que existe em qualquer relação, e ressaltar porque Paulo Roberto Teixeira foi tão especial que estarmos escrevendo sobre ele. Falar do amigo e da pessoa visionaria, que abraçou uma causa, quando criou o primeiro programa de Aids em São Paulo, que serviu de referência para o Brasil e para o mundo.
Minha amizade com Paulo Teixeira data de meados da década de 1970, quando foi levado à minha casa por Irineu Chamiso. Ficamos amigos e passei a frequentar seu consultório de dermatologia. Mais tarde frequentamos o curso de Jazz de Juçara Amaral. Na passagem do ano 1977 para 1978, fizemos uma grande festa: partíamos para uma grande viagem pelo mundo. Paulo Teixeira dançou sob a chuva de verão, que se abateu a noite toda, enquanto os convidados louvavam sua energia.
Dois anos depois, de volta ao Brasil, prestei concurso para socióloga, no Instituto de Saúde da Secretaria da Saúde. Assumi meu posto e tive a agradável surpresa de saber que Paulo Teixeira havia sido recém-empossado como diretor do Instituto de Saúde. O jovem diretor estava revolucionando o Instituto de Pesquisa. A Divisão de Dermatologia Sanitária abrigava o Programa de Hanseníase quase que restringido ao atendimento dos pacientes. De início Paulo pediu uma exposição do material ali disponível, da história da doença de quando se chamava lepra. Ao mesmo tempo começamos a elaborar projetos na área social, sobre hanseníase e doenças sexualmente transmissíveis.
Estávamos nesse clima de inovação e euforia quando surgem os primeiros casos de AIDS no Brasil. Paulo Teixeira reuniu os técnicos da divisão e perguntou se concordávamos em apresentar ao Secretário da Saúde um Programa para Aids, já que ali já funcionava atendimento para doenças sexualmente transmissíveis. Todos ficamos de acordo.
Em agosto de 1983, São Paulo contava com quatro casos oficialmente registrados, quando tiveram início as atividades do programa de AIDS do estado, sob a coordenação da Divisão de Hanseníase e Dermatologia Sanitária, do Instituto de Saúde.
Ali, Paulo Teixeira organizou as bases da resposta à epidemia de Aids: o programa pregava a articulação com a sociedade civil, vigilância epidemiológica, prevenção e cuidado das Pessoas Vivendo com HIV/Aids, trabalhando de forma integrada. Nesse início, a coordenação de Paulo Teixeira enfrentou grandes desafios e severas críticas de setores da saúde e da mídia, que questionavam os fundamentos do programa, diante do pequeno número de doentes notificados e pela doença estar circunscrita a um segmento social, os homossexuais. As críticas cessaram quando os casos de Aids começaram a crescer em todo o Brasil.
O Programa de São Paulo serviu de modelo para programa de Aids que surgiram em outros estados da federação e pelo Programa Nacional de Aids, criado em 1986. Mais tarde, as bases sobre as quais foram criadas o programa brasileiro se tornaram uma referência mundial reconhecida pela Organização Mundial da Saúde.
Hoje, Paulo Teixeira é reconhecido como um visionário que impediu que a Aids se tornasse uma epidemia incontrolável, ao contrário do que ocorreu em outros países em desenvolvimento ou com grandes surtos de décadas passadas. Yves Souteyrand, que trabalhou na OMS, a convite de Paulo Teixeira, quando soube de sua morte disse: “Paulo Teixeira foi um combatente da luta contra a Aids. Mudou a face da luta no Brasil e no plano Internacional”.
Quando assumiu a coordenação do Programa Nacional de Aids entre os anos de 2000 e 2003, Paulo Teixeira consolidou estratégias de negociação de preços de medicamentos e defendeu globalmente a articulação entre prevenção e assistência médica, numa postura firme de negociação com grandes laboratórios farmacêuticos internacionais iniciada pelo Ministério da Saúde na gestão de José Serra (1998-2002).
Uma matéria publicada na revista The New York Times Magazine de 28 de janeiro de 2001, intitulada “Olhe para o Brasil” da jornalista Tina Rosenberg, destaca a figura de Paulo Teixeira, no combate à epidemia. É descrito como um homem elegante e um médico dedicado à causa desde 1983. Quando entrevistei José Serra para o nosso livro Histórias da Aids no Brasil, o ex-ministro me confiou que quando viu o destaque e a seriedade da matéria, lamentou ter enviado a jornalista para falar com o Paulo e não ter ele próprio a recebido.
O sucesso de Paulo Teixeira na liderança do Programa Brasileiro de Aids rendeu-lhe o convite, em 2003, para dirigir o departamento de HIV/Aids da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra. Em sua gestão na OMS, foi elaborado e implantado o “Programa 3 por 5”. O plano tinha como meta central garantir o tratamento com antirretrovirais a 3 milhões de pessoas em países em desenvolvimento no período de dois anos. Contudo Paulo Teixeira não se adaptou à vida em Genebra e retornou ao Brasil no início de 2004. O mundo da Aids havia mudado, não encontrou espaço no novo tempo e se recolheu.
Paulo Teixeira recebeu inúmeras homenagens em eventos e reuniões no Brasil e no exterior por sua atuação na luta conta a Aids. Tinha consciência de seus feitos, de ter sido reconhecido por eles e se orgulhava disso. No longo período que viveu com sua doença, costuma relatar alguns desses momentos como ter recebido do presidente Fernando Henrique Cardoso a admissão na Ordem do Rio Branco, agraciado no grau de Comendador no ano de 2002, em reconhecimento ao seu pioneirismo e papel fundamental na criação, consolidação e sucesso internacional do programa brasileiro de combate ao HIV/AIDS.
Lembrava de seu encontro com Bill Clinton na XIV Conferência Mundial de Aids, em Barcelona, quando discutiram sobra estratégias globais de financiamento e gestão de recursos para o combate à epidemia pelo Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária. Outro encontro, alojado em sua memória, teria acontecido em Nova York, com a ativista de direitos humanos, defensora das causas de saúde global, política Bianca Jagger, quando ambos foram homenageados por seus préstimos.
Um momento marcante de nossa amizade remete à concepção de nosso livro Histórias da Aids, pouco antes de Paulo Teixeira deixar a direção do departamento de HIV/Aids da OMS. Tinha sido convidado para participar de um fórum sobre HIV/Aids em Paris, organizado por Michel Kazatchkine, então diretor da Agência Nacional de Pesquisa sobre AIDS (ANRS), com a participação do fundador da entidade Médicos Sem Fronteira e ex-ministro da Saúde da França, Bernard Kouchner. Me lembro de ter dito ao Paulo Teixeira, “é hora de escrever a História da Aids no Brasil”.
Poderia escrever páginas e páginas sobre as inúmeras iniciativas vitoriosas de Paulo Teixeira na área da saúde pública. Mas o que me vem à mente é o amigo de todos os instantes. A pessoa presente em diferentes circunstâncias de minha vida. Paulo viajou até Paris e ficou do meu lado, trazendo reconforto, no pior momento de minha vida, quando perdi meu filho de maneira trágica. Na cerimônia de adeus, no Père-Lachaise, sentou-se junto a mim no espaço reservado à família.
Foi mestre para muitos de seus seguidores que ainda hoje estão à frente da bem-sucedida política brasileira de saúde, no combate ao HIV/AIDS. Uma fonte de ideias, delegava à equipe a execução dos projetos. Excelente gestor, não era centralizador. Sofisticado, elegante, culto e generoso, mantinha uma relação de igualdade com todos, sem distinção de nível social.
Penso ser essa a principal imagem que os amigos guardarão do brilhante médico Paulo Roberto Teixeira.
Lindinalva Laurindo Teodorescu
Socióloga e Escritora
e-mail : teosilvasp@ gmail.com
Foto : Imagem do acervo da autora em 1998 no COngresso Internacional de Aids e Redução de danos por uso abusivo de drogas, em São Paulo.
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