“ A vida está acima de qualquer dogma”
Do seu nascimento (1948) – Ponte Vico – Itália, ao início do sacerdócio (1977), mesmo ano em que chegou ao Brasil e ficou por 35 anos (2012), Padre Valeriano Paitoni, missionário do IMC – Instituto Missões Consolata teve uma trajetória solidaria em defesa da vida das pessoas vivendo com HIV Aids.
Depois de experiências como professor em escolas católicas e seminário na cidade de Cascavel – PR, foi na periferia de São Paulo no início da década de 80 que atuou como como pároco da Paroquia N.S da Penha – Jardim Peri (1982 – 1989) onde deparou-se com a extrema vulnerabilidade social em meio a chegada do flagelo e dos desafios trazidos pela epidemia do HIV/Aids.
Ousado e resistente a regra, com olhares escandalizados de seus irmãos de fé, acolheu por alguns dias, nas dependências do Instituto algumas travestis doentes que não tinham onde ficar (1990), foi nessa época que encontrou o apoio da ALIVI – Aliança pela Vida e da ALV- Associação Liberdade e Vida onde se tornou voluntário.
Com o aumento da demanda de vagas para o acolhimento das pessoas vivendo com HIV/Aids que se intensificavam na mesma proporção dos casos e mortes que se agigantavam, fundou no decorrer de duas décadas quatro Casas de Apoio para pessoas vivendo com HIV/Aids: Lar Betânia (1991) para adultos, Casa Siloé (1994) para Crianças, Lar Suzanne (1998) para crianças e adolescentes e Vila Vitoria (2008) para jovens adultos.
Polêmico e incisivo recusou-se a acomodar-se apenas na assistência e adentrou no campo da prevenção e direitos humanos na busca incessante por políticas públicas que atendessem as necessidades e desafios que se apresentavam, fundando, junto a militantes e ONGs, o Fórum de ONG/Aids do Estado de São Paulo (1997) que nasceu, no salão da Paroquia N.S de Fatima do Imirim, teve a primeira sede no porão da Casa de Apoio Lar Suzanne e as reuniões no Centro Esportivo da Paroquia.
Nos direitos humanos foi firme no enfrentamento do estigma e discriminação as pessoas vivendo com HIV/Aids.
“ Não vivemos apenas perversos vírus biológico, vivemos perversos vírus ideológico onde o estigma e a discriminação são tão letais quanto o próprio vírus HIV” Herbert Daniel
Considerado em muitas ocasiões como polêmico e rebelde, em 2000 participou de um Seminário em Itaíci juntamente com Dom Paulo Evaristo Arns, onde o representante do Vaticano Monsenhor Barragan do Conselho Pastoral da Saúde afirmou “a fidelidade conjugal é a maior e única prevenção contra o HIV, a ciência diz que a “camisinha” não é segura por conter micro furos onde passam o vírus HIV” .
Padre Valeriano levantou a mão e perguntou: “Onde o senhor acha que há mais furos, na camisinha ou na fidelidade conjugal? ”.
De forma consciente, arruinou, sua “carreira eclesiástica” defendendo pautas polêmicas como a camisinha, acreditava que a vida estava acima dos dogmas e do voto de obediência, dedicou-se ao enfrentamento do HIV/Aids por entender que sua ajuda poderia fazer a diferença na ação e reflexão cristã e humanitária.
Teve reconhecimento da comunidade :
1996 – Prêmio Brenda Lee de Diretos Humanos
1997 – Prêmio Sheila Cortopassi – Personalidade
1998 – Prêmio Theodoro Pluciennick de Direitos Humanos
1999 – Prêmio Honra ao Mérito da UNAIDS
2002 – Prêmio GIV –- Serviços prestados as PVHA
2004 – Honra ao mérito do Fórum de ONG/Aids do Estado de SP
2021 – Prêmio José Araújo Lima Filho – Direitos Humanos
Padre Valeriano sempre se sentiu honrado com os prêmios que recebeu, mas dizia que seu maior prêmio foi ao receber o diagnóstico que as crianças não passariam de 7 a 8 anos de idade devido a agressividade do vírus, presenciou, anos mais tarde, muitas tornarem-se adultos (as) , tocar suas vidas e trazer seus filhos, muitos sem HIV, para que ele os conhecesse.
“ Ainda que não consigamos modificar rapidamente os fatos históricos, religiosos, políticos, social e econômico, nada nos calará, nada nos deterá no enfrentamento da epidemia da Aids. Pe. Valeriano Paitoni”
Embora repreendido por instâncias superiores da Igreja do Brasil, sempre foi apoiado, em suas obras assistenciais, por seus irmãos do Instituto, exiliou-se em seu próprio País (Itália) no ano de 2012, nos visitava anualmente até 2019, antes da epidemia do COVID, em 2022 foi diagnosticado com a Alzheimer, nesses anos debilitou-se travando uma luta pela vida, deixando-a em 05 de outubro de 2025 para entrar na história de nossas mentes e coração.
“Estive por 20 anos a seu lado, foi minha maior referência religiosa cristã, suas palavras guardavam coerência com suas ações”

Rubens Oliveira Duda, trabalhou com Padre Valeriano durante por 20 anos. Atualmente é presidente da Sociedade Padre Constanzo Dalbesio e dirige a Casa Vida Vitória.
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