João Silvério Trevisan
Você também está contaminado? Quer dizer, infectado, marcado, positivo? Aposto que sim. É normal, não acha? Não precisa ter medo em admitir. É duro, eu sei. Claro, você pode ser homem ou mulher. Não estou fazendo nenhuma distinção, pois não há o que distinguir. Eu sei. O vírus é universal. Não escolhe sexo nem raça nem idade nem classe nem religião nem nacionalidade. Um vírus perfeitamente democrático. É. Não faz discriminação nenhuma. Quer dizer, um vírus inteiramente adequado às normas da Constituição brasileira. Sem nenhum risco de ironia, um vírus politicamente correto, como você vê. Um vírus sem defeito, perfeito. Adequado ao novo Brasil, que nasce do meio das pernas da globalização, falando portunhol e sempre de olho no capital externo. Adequado ao mundo. Eu sei. Um vírus sabido. Melhor ainda, um vírus antenado com a contemporaneidade. Talvez até mesmo um vírus pós-moderno, você poderia dizer. Vírus de última geração. Não, tou brincando não. Eu sei. Sei como é duro ter o vírus. Estar vivendo com a possibilidade anunciada da morte. Não uma suposição qualquer, mas uma coisa assim impressa na testa: vou morrer. Dá até um calafrio. Pode ser amanhã, daqui a pouco, ou no próximo ano, quem sabe quando. Essa incerteza no meio da certeza torna o jogo mais cruel ainda, não é mesmo? Vírus diabólico, esse. Eu sei. O Grande Vírus. Tudo começa devagarinho. Uma dorzinha aqui, um cansaço-não-sei-por-que. Mas também pode ser de repente. Uma doençazinha inesperada, uma febre alta no meio da noite, o susto ao descobrir umas coisas no corpo. Não dá nem pra especificar. Pode ser qualquer coisa. Coisa de enlouquecer de pânico. Eu sei. Isso é o pior no Grande Vírus. O pânico. 24 horas por dia, aquele medo que ameaça crescer por qualquer susto. Os sustos. Tudo é susto. Será que chegou a hora? Pergunta horrível. Os médicos e cientistas apontam muitos sintomas do Grande Vírus. Mas cá entre nós: os médicos são muito condescendentes. Há, na verdade, sintomas incontáveis, quase infinitos. Sofre-se do Grande Vírus por ser pobre; preto; feio; gordo; heterossexual insatisfeito; homossexual reprimido; mulher abandonada. Etc. etc. Eu sei, estou falando sempre sem fazer distinção de gênero masculino ou feminino. E depois, cada um tem a sua dor particular provocada pelo Grande Vírus: por ser careca ou ter celulite, por não entender nada de economia, por estar confuso nos dias atuais, por não gostar de políticos. Tenho amigos em quem o Grande Vírus inventa fobias: de estar em público ou em lugares fechados. O pior do Grande Vírus é que ele provoca dor, timidez, solidão. Provoca tantas vezes dor no próprio amor, esse vírus horrível. Vírus abrangente demais. Basta estar vivo. Ele ataca muito no espaço da sexualidade, como bem demonstrou Freud. Ah, claro, bem lembrado: atualmente o Grande Vírus tem atacado também sob aquele nome de quatro letrinhas, que a gente tem pavor só em mencionar. É, eu sei. Ele chegou recentemente e anda infectando meio mundo. Aquele que até uns anos atrás era o vírus das bichas, lembra? Ele tem até um lado iluminado, sabia? As pessoas não se dão conta. É um vírus que ataca em silêncio, enquanto a gente conversa com ele sobre a vida e a morte. Mas ele é só um dentre os milhares de aspectos do Grande Vírus que nos ataca todos os dias, de maneira particular em cada um. Ele está por toda parte. Basta estar vivo, como eu disse. É isso mesmo. Viver é ter recebido o Vírus. É desse Vírus que se trata. O Único e Grande Vírus. O maior. De fato, o único que importa. O Vírus pelo qual estamos todos contaminados: a Vida. Eu sei. É um vírus horrivelmente maravilhoso. Por isso sugiro um exercício. Que hoje à noite você tome consciência de que está contaminado. Sem saída. Contaminado graças ao ato secular que certa vez seu pai e sua mãe repetiram pela milionésima vez na história da humanidade — fazendo nascer um ser único no universo: você. Tome consciência desse Vírus dentro de você. E agradeça. Agradeça ao Vírus por te dar olhos para ver Veneza, ouvidos para ouvir Bach, olfato para sentir o perfume do seu amor, paladar para saborear um bom vinho francês. E o tato, para tocar tudo o que estiver ao alcance da sua sensualidade exercida com plenitude. Agradeça a ele poder dormir e acordar de manhã todos os dias, com esperança. Essa esperança saída dos intestinos, que o próprio Vírus lhe traz. Ah, a Vida. — tão dura, mas tão clara aventura, para citar o poeta Mário Faustino. Eu sei que é duro estar contaminado pela Vida. Ter que lutar todos os dias para continuar, contra todas as incertezas. Mas não é tudo o que temos, esse nosso Vírus? Não é ele que nos impulsiona, quase cegamente, mesmo em meio às piores dificuldades? Ele, que dura tão pouco tempo, é o responsável por nossas grandes descobertas. Sobretudo aquelas duas, as maiores: o Amor e a Morte. Hoje à noite, antes de dormir, abra todos os sentidos, acione tudo aquilo que torna humano o humano — com todos os seus defeitos e qualidades. E agradeça. Talvez a si mesmo, talvez àquela entidade sobrecarregada de tantos pedidos, que a gente chama Deus. Talvez ao mistério. Não importa a quem. Mas agradeça. Agradeça a graça incomparável de ter recebido de seu pai e sua mãe o presente da Vida. Promete? Hoje à noite, faça uma coisa básica, banal, mas totalmente esquecida. Aproveite e dê graças ao Vírus da Vida.
João Silvério Trevisan é ensaísta, dramaturgo, tradutor, jornalista, coordenador de oficinas literárias, roteirista e diretor de cinema.
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