Murilo Peixoto da Mota
O trabalho de prevenção da Aids com adolescentes moradores em comunidades de baixa renda é sempre um desafio para o educador e profissional de saúde. O desafio está colocado pela própria lógica da fala sobre a sexualidade, pelas representações negativas muito solidificadas sobre a Aids e pelo próprio contexto de vulnerabilidade social com que se encontram os jovens em questão. Por esse motivo, percebemos o quanto é fundamental obter, através de pesquisas sócio-antropológicas, uma avaliação das necessidades de nosso público alvo.
Entre os requisitos necessários para influenciar o comportamento sexual de adolescentes é a informação clara e sincera sobre todos os âmbitos que envolvem a sexualidade e a transmissão de todas as doenças sexualmente transmissíveis, o conhecimento do corpo, os métodos contraceptivos e os estereótipos de gênero. Tais questões articuladas com histórias vividas que dizem respeito ao amor, a perdas e a primeira transa, ajuda a quebrar a discussão do ponto de vista conceitual e coloca do debate mais prático e cotidiano. Atividades como, dinâmicas de grupo, trabalho de dança corporal e representação cênica sobre tais temas, devem ser um complemento das aulas didáticas sobre conteúdos clínicos, anatomia do corpo, mecanismos de transmissão, epidemiologia da Aids etc.
Observamos que a informação associada às atividades teatrais contribuem para articular aspectos emocionais ligados ao comportamento de risco para o HIV a que estão expostos estes jovens em suas vidas sexuais. Tais atividades podem influenciá-los e motivá-los a falarem com outros jovens sobre tais problemas. Nessas circunstâncias é importante estabelecer mecanismos que estimulem a autoconfiança, assim acreditarão que são suscetíveis à Aids e que a epidemia é problema real assim como o desemprego, a falta de dinheiro, a violência do dia a dia, a falta de escolas e postos de saúde em suas comunidades.
Em nosso trabalho na comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, é perceptível como os meninos falam com mais facilidade sobre suas práticas sexuais e costumam ver a experiência sexual como um sinal de masculinidade; enquanto que as meninas, só falam de sexo com suas melhores amigas, mas costumam se entregar de corpo e alma a grandes paixões. Nesta conjuntura dos gêneros, meninos e meninas encontram-se vulneráveis ao HIV/Aids. Os meninos por crescerem em um contexto de supervalorização do sexo como uma característica de sua identidade de “ser homem”; as meninas, pela própria conjuntura de sedução, romantismo e paixão que as levam a se entregarem aos apelos sexuais masculinos, valendo-se, inclusive, do poder da reprodução para fixar um relacionamento.
Percebemos que é fundamental os jovens saberem que o ato sexual é algo muito especial e portanto, deve ser feito com muito carinho em relação a si mesmo e em relação ao outro e que, a camisinha é um ato de amor, responsabilidade, carinho e respeito para com o outro. Importante frisar nas oficinas de trabalho que, além de prevenir das DST/Aids, a camisinha pode prevenir a gravidez não planejada, aspecto que deve subsidiar todo o conteúdo temático.
Vale destacar que o comportamento dos jovens se baseiam freqüentemente no que eles acreditam que seus amigos pensam uns dos outros, nessa conjuntura a falta de experiência sexual é desvaloriza, fato que influencia o jovem a procurar ter relações, sem estar suficientemente preparado para isso. É necessário trabalhar com esta informação. Pelo fato de não acreditarem que outros jovens também acham a abstinência sexual aceitável, muitos jovens sentem-se influenciados a praticar sexo sem a absoluta certeza do momento adequado. Tal situação apresenta riscos evidentes para DST. No contexto individual, é importante trabalhar os benefícios de não se relacionarem sexualmente muito cedo ou não tendo certeza de que aquele momento é ideal para fazê-lo.
A forma como são incorporados os estereótipos de gênero, são entraves para o trabalho de sensibilização e enfrentamento da epidemia. Em termos de práticas sexuais, pelo menos as que são discutidas em grupo, observamos que há ambigüidades marcantes relacionadas a valores morais entre o que se diz e o que se faz realmente sexualmente. Alguns meninos oscilavam entre uma heterossexualidade afirmada e uma homossexualidade circunstancial (que afirmam serem ativos com outros homens). As meninas, uma visão do sexo cheia de tabus e contradições relacionadas à liberdade, marcada pela “perda” da virgindade, experiências com aborto, incesto e abandonos afetivos. Tal realidade expõe a necessidade de diversificação da metodologia utilizada para intervenção, aspecto que exige muita atenção nas tomadas de decisões e nas respostas a perguntas feitas em grupo.
Mas vale destacar que os jovens de baixa renda têm grande capacidade de adaptação às novas informações e atitudes, mas para isso devem sentir-se influentes na construção do que podem ou não podem fazer sexualmente. Necessitam aceitar, aderir comportamentos como um novo valor que dá status, soberania no seu grupo, autoconfiança perante a sociedade. Portanto, a prática do “sexo seguro” associada a uma revelação de mudança que traz status, ajuda a produzir no jovem morador em comunidades com grandes aglomerados populacionais como as favelas, um sentimento de auto-estima, de segurança, de poder e maturidade nas suas relações afetivas. Dinâmicas de grupo associadas a representações teatrais que refletem cenas cotidianas e problemas difíceis associados a sexualidade, ajudam ao empoderamento.
É um fato, mesmo que os jovens tenham informação apropriada e queiram evitar comportamento de alto risco, eles podem não ter habilidade, ou prática, ou disposição de comunicar seus desejos. Em muitas situações as meninas não compram preservativos e nem pensam em usá-los, pois portar a camisinha na bolsa ou comprá-la na farmácia pode afetar a sua “imagem moral”. Por outro lado, os meninos parecem estar usando a camisinha mais como um símbolo de virilidade e atividade sexual do que como um instrumento para o sexo seguro cotidiano. A busca de acesso fácil e anônimo para a obtenção do preservativo, articulando pontos alternativos para distribuição, junto a um marketing adequado, deve ser uma estratégia importante do programa.
De maneira geral, ao lidar com questões que envolvem a sexualidade destes jovens ao longo do trabalho de prevenção que a TRANSFORMARTE desenvolve a 8 anos na Rocinha, observamos que parece haver uma movimentação no sentido de se falar mais abertamente sobre a sexualidade praticada no cotidiano. Sexo antes do casamento, incesto, homossexualismo, estupro, prostituição, aborto, gravidez, orgasmo, virgindade, doenças sexualmente transmissíveis, fazem parte do script da experiência sexual e do silêncio de muitos jovens que moram em favela. Ao encontrarem espaço para debaterem suas angústias e medos, compartilhando suas experiências a partir de atividades teatrais, os jovens encontram para si mais alternativas de enfrentamento diante da vida, adquirem cidadania, confiam, compartilham suas angústias e se fortalecem em um espaço que possuem outros jovens com problema comuns.
As experiências com atividades culturais possibilitam ao jovem encontrar respaldo prático nos trabalhos de prevenção desenvolvidos. Interessante notar que os jovens falam sobre as suas sexualidades, quando acham que podem e que devem, principalmente quando encontram espaço e confiança para fazê-lo. Logo, é importante reconhecer que a fala da sexualidade, tarefa importante no contexto da busca de consciência sobre o corpo e sobre o reconhecimento da vulnerabilidade aos riscos de contágio da aids, deve ser estimulada ao máximo nas atividades de prevenção, sem que o educador/interventor tome posições morais, deixando para o grupo o debate e as conclusões.
É obvio que dificuldades são encontradas. Podemos destacar que os jovens estão em movimento, ou seja, suas vidas estão marcadas por inúmeras prioridades onde a questão da prevenção da aids está longe de ser aferida como atividade em si, aspecto muito compreensível. Os problemas relacionados à sobrevivência coloca-os frente a frente com a necessidade de ganhar dinheiro muito cedo. Os constantes problemas familiares associados ao uso indiscriminado da bebida e outras drogas ilícitas, a baixa escolaridade, o desemprego e o subemprego oferecem a alguns jovens pouca expectativa na sua própria vida, pouco estímulo. Todas estas questões, condicionadas a um ambiente de violência nos colocam diante de uma realidade que tem exigido muita criatividade e perspicácia para o desenvolvimento de atividades sistemáticas que venham contribuir para que os jovens permaneçam numa proposta de solidariedade específica focalizada na prevenção das DST/Aids.
O desenvolvimento de atividades com teatro aplicados ao trabalho de prevenção ajuda na interiorização e consciência dos riscos relacionados às DST/Aids. Além disso, o desenvolvimento de um programa que dê ênfase em articular a mídia comunitária, tais como: rádio, TV e jornais dão ampla visibilidade aos moradores, além de possuírem um arcabouço profissional prático para o trabalho desenvolvido.
Trata-se então de atuar junto à mídia comunitária, desenvolvendo programas de rádio, de vídeo, atuando nas festas, reuniões comunitárias, colocando a prevenção da Aids menos como uma questões específica e mais como algo articulado com todas as outras questões da vida comunitária. A TRANSFORMARTE ao colocar a prevenção da Aids canalizada no contexto do debate político mais amplo, coloca a questão da sexualidade para os jovens dentro do sentido dos direitos e deveres, relativização dos estereótipos de gênero e à consciência da cidadania.
Murilo Peixoto da Mota é Sociólogo da UFRJ e Diretor da ONG TRANSFORMARTE
E-mail: mpmota@uol.com.br
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