foto de Antônio Saggese
Ao pensarmos no Teatro, sempre o identificamos a um talento especial. Achamos que, o interpretar, só os atores e atrizes podem fazê-lo. Acreditamos que eles têm um dom premiado por Deus.
Posso dizer-lhes com segurança que essa crença é um equívoco.
O Teatro-arte veio da Grécia Antiga. É uma linguagem artística, e tem em sua base a emoção e o objetivo de contar história, seja ela triste ou engraçada.
Na origem, fazer Teatro não é outra coisa senão um tipo de jogo, brincadeira de faz de conta.
Todos nós, quando crianças, brincamos desse teatro de: fazer de conta que é pai, mãe, avô de uma boneca, de um irmão menor, etc.
Nas brincadeiras de imitação de bichos, também aí estamos fazendo teatro.
É comum escondermos de uma pessoa uma surpresa que a ela queremos fazer, ou uma notícia triste. Aí também estamos fazendo de conta, e isso é teatro. No entanto, para ser ator ou atriz profissional, é necessário que a pessoa estude e prepare-se para exercer esse ofício.
Sendo professora de teatro há 36 anos, e a mais antiga nesse ofício em São Paulo, não tenho dúvidas de que a experiência de fazer teatro, sem pretensões profissionais, num grupo de amigos, com a família ou num grupo terapêutico é de extrema eficiência. Essa vivência desperta, desenvolve a sensibilidade, a percepção de nós mesmos e do outro como um ser semelhante e diferente de nós.
Fazer e ver Teatro cria a possibilidade de nos colocar no lugar e papel de outra pessoa de uma forma espontânea. Na Rússia, existiu um grande ator, Constantin Stanislavski (1863-1938). Esse ator criou uma espécie de método para ensinar atores e estudantes de Teatro, como criar personagens verdadeiros e espontâneos. Os seus livros têm vários ensinamentos, alguns simples, outros mais complexos. É por meio desses ensinamentos que ensino meus alunos e atores para terem um bom desempenho. Os atores maravilhosos do cinema americano, a maior parte deles aprendeu por esse “método”.
Os livros de Stanislavski primeiro chegaram aos E.E.U.U. antes de serem publicados na Rússia.
Aqui nesse artigo não seria adequado falar dos ensinamentos mais sofisticados da criação de personagens. Quero apenas destacar aquilo que o mestre russo chama de se mágico. E o que seria enfim? Trata-se de você imaginar-se no lugar de outra pessoa e agir como se fosse ela própria.
Assim por exemplo, e se eu fosse fulano? Como me sentiria?
Em apenas alguns minutos, usando-se o se, nossa imaginação pode entrar em ação e nos colocar imediatamente no papel e lugar daquela pessoa. Não importa se essa pessoa seja jovem, velha, homem, mulher, criança, feia, bonita, inteligente ou não, doente, sã; qualquer um deles é um ser humano e tem sensibilidade.
Ao terminar de ler este artigo, experimente fazer esse exercício do
se mágico. Não precisa fechar os olhos, nem ficar sentado. Imagine-se sendo outra pessoa que você conhece ou de que ouviu falar. É interessante e saudável para cada um de nós pensar por minutos no se mágico de Stanislavski:
Se eu estivesse naquele lugar?
e se isso fosse comigo?
Esse treino de imaginação tão simples do se mágico pode ser um exercício de consciência sensível, necessário a todos nós, os humanos.
Daí nasce a emoção, matéria prima do teatro.
Eugênia Thereza de Andrade é Professora e Diretora de Teatro em São Paulo. Contato: eugeniandrade@uol.com.br
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