Na semana da diversidade e durante a parada gay em São Paulo os homossexuais recebem todos os holofotes, são adulados pela mídia, acolhidos pelos comerciantes e são até mais tolerados pela população.
O clima de comemoração vem no embalo da recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que reconheceu a união entre casais do mesmo sexo e da resolução da ONU que afirmou a igualdade de direitos humanos sem distinção da orientação sexual.
O Brasil e o mundo estão finalmente fazendo justiça aos homossexuais e todos querem posar de amigos dos gays, dessa gente bonita, alegre e sangue bom, certo?
Hellooo, volte para o mundo real, diria a drag animadora de trio elétrico.
Cotidianamente, os homossexuais brasileiros são muitas vezes reduzidos a cidadãos de segunda categoria.
Vejam um dos piores exemplos: os gays continuam proibidos de doar sangue no Brasil. Uma nova portaria federal considera inaptos homens que tiveram relações sexuais com outros homens nos últimos 12 meses.
O Ministério da Saúde editou uma “pegadinha” e fez divulgar que a orientação sexual não deve ser usada como critério para seleção de doadores, desde que os gays vivam a castidade ou uma improvável homossexualidade transitória, com prazo de validade.
Na prática, nos hemocentros, as perguntas que visam identificar o gay sexualmente ativo continuarão a promover o preconceito e a causar constrangimentos.
Prevalece a norma antiquada que evoca o risco do sangue dos homossexuais apresentar resultados falsos negativos, sob a alegação de que são mais suscetíveis ao HIV do que a população em geral.
Os homossexuais, de fato, são mais vulneráveis à infecção pelo HIV. Essa evidência deve ser usada para alcançarmos políticas eficazes de prevenção (que vão muito além da luta pela afirmação de direitos e contra a homofobia, jamais pode ser usada para discriminar. Mesmo mais expostos, a esmagadora maioria dos gays, mais de 90% dessa população, tem sorologia negativa para o HIV.
Até mesmo os homossexuais que mantêm relações estáveis e declaradamente praticam sexo seguro são impedidos de doar sangue. Já os heterossexuais que têm múltiplos parceiros em relações desprotegidas e ocasionais, sujeitos à infecção, são facilmente aceitos, ou porque não são abordados com a mesma ênfase na triagem ou porque muitas pessoas costumam mentir sobre hábitos reprovados por parte da sociedade.
A proibição definitiva imposta aos homossexuais é baseada no suposto comportamento individual e no pertencimento ao superado conceito de grupo de risco da década de 1980. Trata-se de justificativa antiética, com frágeis argumentos científicos.
O mesmo Ministério da Saúde promotor da diretriz que segrega e estigmatiza, mantém uma política de prevenção equivocada e vacilante, corresponsável pela altíssima prevalência do HIV entre os gays.
O movimento homossexual, em parte atrelado ao Executivo federal, não exige a extinção da regra com o mesmo ímpeto com que defende outras bandeiras inclusivas.
Para economizar recursos, o Ministério da Saúde há oito anos mantinha na gaveta a obrigatoriedade da realização do teste NAT (Teste de Ácido Nucléico) nos bancos de sangue. Ao investigar a presença do material genético do vírus e não dos anticorpos, o exame encurta o período da janela imunológica do HIV, de 21 dias, nos métodos atuais, para 10 dias.
Finalmente, após a produção por laboratórios estatais, acaba de ser anunciada pelo Ministro da Saúde a expansão do teste NAT para todos os hemocentros do País.
Existe tecnologia capaz de definir novos parâmetros da restrição. É possível compatibilizar a segurança transfusional com a vigilância epidemiológica e o princípio de igualdade previsto na Constituição.
Ao fugir dessa responsabilidade o governo se junta, mais uma vez, aos grupos conservadores e religiosos que não suportam e nem toleram os homossexuais.
Em meio à Parada desse ano, com diversão garantida, não deixe também de se indignar. Pense que você não poderá doar sangue, mesmo se um membro de sua família, companheiro, amigo próximo ou querido precisar urgentemente de transfusão. Lembre que seu sangue não presta, pois lhe é negado o direito de exercer livremente seu altruísmo, o direito de ser solidário, o direito de ser cidadão.
Mário Scheffer é presidente do Grupo Pela Vidda-SP.
Parte desse artigo foi publicado originalmente pelo autor no Jornal da Tarde (JT) no dia 18/05/2011.
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