O que a AIDS 2026 – IAS revelou sobre o futuro da resposta ao HIV

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A Conferência Internacional de AIDS 2026, realizada no Rio de Janeiro, reuniu especialistas de todo o mundo para discutir os avanços científicos, as políticas públicas e as estratégias de enfrentamento ao HIV. Mais do que um encontro científico, a conferência reafirmou seu papel como o principal espaço mundial para discutir os rumos da resposta ao HIV.

Logo no primeiro dia, um artigo publicado na The Lancet HIV chamou atenção ao projetar que, até 2040, metade das pessoas vivendo com HIV no mundo terá mais de 50 anos. Essa mudança demográfica reforça a necessidade de integrar os serviços especializados em HIV ao cuidado de doenças crônicas comuns nessa faixa etária, como diabetes, hipertensão, dislipidemias e câncer.

A Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) dominou os debates. Além das modalidades orais, ganharam destaque o Cabotegravir, aplicado a cada dois meses, o Lenacapavir, administrado semestralmente, e o Alimatravir, um comprimido mensal de longa duração. O consenso foi claro: não existe uma estratégia ideal para todos; as pessoas precisam ter opções para escolher a modalidade que melhor se adapta à sua realidade.

No Brasil, o SUS oferece atualmente a PrEP oral de uso contínuo e sob demanda. As tecnologias mais recentes, embora algumas já aprovadas pela ANVISA, ainda aguardam incorporação. Nesse contexto, uma notícia positiva veio durante a conferência. Em entrevista, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou que o Cabotegravir deverá ser incorporado ao SUS ainda em 2026.

Outro tema importante foi o avanço das pesquisas sobre a cura do HIV, vacinas e anticorpos monoclonais, além da apresentação da Doxy-PEP como estratégia para reduzir infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis, clamídia e gonorreia. Também houve preocupação com a redução do financiamento internacional para programas de combate ao HIV, por decisão unilateral de Donald Trump, o que pode dificultar o alcance das metas globais de controle da epidemia.

Sob a presidência da brasileira Dra. Beatriz Grinsztejn, a AIDS 2026 reuniu cerca de 7.500 participantes e reafirmou que a resposta ao HIV continua sendo construída pela ciência, pelas políticas públicas, pelos movimentos sociais e pela cooperação internacional.

Mas a conferência também demonstrou que esse futuro não é desenhado apenas nas sessões científicas. Na Global Village, comunidades de diferentes segmentos e de diferentes partes do mundo mostraram que a participação social segue sendo uma das maiores forças da resposta à epidemia.

A criação da primeira Networking Zone dedicada ao chemsex representou uma conquista histórica para os movimentos de redução de danos, enquanto iniciativas como a Tenda Paulo Freire de Educação Popular em Saúde, a Estação Ocupe SUS Juventudes e a expressiva participação de estudantes de medicina evidenciaram o protagonismo das novas gerações.

Outros segmentos, como redes de pessoas vivendo com HIV, povos indígenas, movimento negro, organizações de trabalhadoras do sexo, pessoas trans, a Rede Lusófona, a Coalizão + Brasil e outras organizações, reafirmaram que o enfrentamento ao HIV é uma construção coletiva.

Ficou ainda mais evidente que, se a ciência desenvolve novos medicamentos e tecnologias, são os movimentos sociais que lutam para que esses avanços alcancem quem mais precisa. Como disse o jovem ativista Jean Vinicius: “O Brasil já encontrou a cura da aids, ela se chama solidariedade!”

* Dr. Fábio Mesquita é professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) – Campus Baixada Santista – e Diretor Técnico da Empresa Municipal Praia-Grandense de Ensino e Saúde (EMPES).

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