O poder de seu voto e da esperança

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Eu vivo com hiv e não sou uma despesa.

Eu sou Ramon Nunes Mello. Sou uma das mais de um milhão de pessoas que vivem com hiv/aid$ no Brasil. Tenho uma vida antes e depois do diagnóstico. E tenho futuro.

Escrevo porque falar de hiv/aid$ é falar de vidas. É falar de tratamento, prevenção, respeito à ciência, ao SUS e aos direitos. É falar de um namorado, uma namorada, um pai, uma mãe, irmãos, amigos. De quem está aqui e de quem poderia ter ficado.

Nenhuma dessas vidas cabe apenas em um prontuário.

Em 2020, Jair Bolsonaro, então presidente, afirmou que uma pessoa com hiv era “uma despesa para todos aqui no Brasil”.

“Uma despesa.”

Volto a essa palavra porque ela não desapareceu depois de pronunciada. Ficou. E, quando é dita por um presidente da República, pode encontrar outras bocas, chegar a outros lugares. Pode chegar à mesa de uma família, a uma entrevista de emprego, a um encontro amoroso.

Não somos despesa.

Somos pessoas. Merecemos respeito.

Temos desejos, trabalho, cansaço, alegria, contas para pagar, amigos para encontrar, domingos que gostaríamos que demorassem um pouco mais a passar. A vida acontece principalmente onde o diagnóstico não é assunto.

Não quero precisar provar que a minha vida merece cuidado. Ninguém deveria.

O medicamento antirretroviral que recebo pelo SUS carrega uma história. Antes de chegar às minhas mãos, houve pesquisa, luta e gente que levantou a voz quando quase ninguém queria escutar.

Defender o SUS também é preservar essa história e não abandonar quem abriu esse caminho para quem veio depois.

Em 2021, durante a pandemia, Bolsonaro fez e divulgou uma informação falsa: associou a vacina contra a covid-19 ao desenvolvimento de aids. Vacina contra a covid-19 não causa aids. O UNAIDS precisou reafirmar o que a ciência já sabia.

Mas a mentira já estava solta.

Mais uma vez, a aids era usada para assustar. Mais uma vez, nossas vidas eram atravessadas por palavras ditas sem responsabilidade. E quem vive com hiv sabe que o preconceito não desaparece quando a câmera é desligada.

Nós continuamos amando, trabalhando, fazendo tratamento, pagando impostos, construindo nossas vidas e enfrentando um preconceito que não deveria encontrar abrigo na voz de quem governa.

Também precisamos falar do acesso aos medicamentos. Durante aquela gestão, houve relatos de desabastecimento e dificuldades no fornecimento. A revista Radis, da Fiocruz, registrou denúncias sobre problemas ocorridos em 2019 e sobre a falta de antirretroviral no Ceará em 2020.

Para quem depende de um medicamento todos os dias, a falta ou o atraso no acesso ao tratamento não é apenas um problema de logística.

É medo. É angústia. É não saber se o medicamento estará disponível quando você precisar.

É contar os comprimidos e perceber que o calendário tem mais dias.

Nenhuma pessoa deveria precisar fazer essa conta.

O corpo não espera uma licitação. Quem vive com hiv precisa continuar o tratamento todos os dias, enquanto a administração pública procura uma solução.

Por isso, neste momento de eleição, eu olho para os registros e para os compromissos. Olho para o que foi feito e para o que está sendo proposto. Escuto as palavras, mas também procuro saber o que existe por trás delas.

O programa de governo de Flávio Bolsonaro para 2027–2030 não apresenta nenhuma política específica para hiv e aid$. Também não menciona hiv, aids ou PrEP.

Isso também é uma informação.

Quando falamos da vida de mais de um milhão de brasileiros que vivem com hiv, precisamos olhar não apenas para os discursos, mas para aquilo que cada programa efetivamente apresenta.

No governo Lula, há uma política de saúde pública com metas estabelecidas pelo Ministério da Saúde para eliminar a aids e a transmissão do hiv como problemas de saúde pública até 2030, com ampliação do diagnóstico e do tratamento, fortalecimento da prevenção e do acesso à PrEP e enfrentamento do estigma e da discriminação.

Quero ver esses compromissos chegarem à vida real: ao serviço de saúde, à farmácia, ao atendimento de quem mora longe, a quem ainda está sozinho diante de um diagnóstico.

E quero poder cobrar. Apoiar um governo não significa entregar a ele o nosso silêncio.

A história da luta contra a aids foi escrita por pessoas que se recusaram a desaparecer. Pessoas que enfrentaram o medo, denunciaram o abandono, fizeram política, cuidaram umas das outras e exigiram o direito de continuar vivendo.

Essa história continua em nós.

Quando uma política pública é interrompida, não é apenas uma planilha que muda. Pessoas podem ficar sem tratamento. E isso significa afetos, projetos, trabalho, encontros, possibilidades. Tudo aquilo que uma pessoa ainda pode viver e que ninguém tem o direito de considerar dispensável.

O meu voto é para quem investe na saúde pública e respeita as pessoas que vivem com hiv/aid$. O seu também pode ser.

Depois da eleição, continuarei aqui. Com a minha voz, as minhas palavras e o direito de cobrar.

Eu vivo com hiv.

E há muita vida e esperança nessa frase.

 

* Ramon Nunes Mello, poeta e ativista de direitos humanos

email: ramonnunesmello@gmail.com

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