A 20 ª Conferência Internacional de Aids, realizada de 20 a 25 de julho, em Melbourne, Austrália, trouxe o debate sobre a necessidade de voltarmos os olhares para a população- chave da doença : gays e outros homens que fazem sexo com homens (HSH), trans, usuários de drogas injetáveis e prostitutas. Como representante da Articulação Brasileira de Gays –ARTGAY, observei as diversas críticas às ações de prevenção do HIV, apenas com a preocupação de que as tendências, como a juvenização, a feminilização, a pauperização e a interiorização, não dão conta de solucionar o problema.
No Brasil, há 13 anos, vivemos a descentralização dos recursos da aids para estados e municípios. Constatamos que, apesar de mais de 50% dos casos estarem concentrados na população- chave, há mais de três décadas, secretarias de saúde só deram conta de prevenir a transmissão vertical.
A população de 20 milhões de gays no Brasil ficou , nesta última década , refém da homofobia institucional de várias coordenações municipais e estaduais de aids, que jogam a culpa na burocracia do estado pelo não investimento em prevenção para HSH. As poucas ações realizadas priorizaram apenas a faixa etária dos gays mais jovens. Apesar de todos os dados de 30 anos anunciarem que todas as faixas etárias de gays têm 19 vezes mais risco de se infectarem pelo HIV do que a população em geral, poucas medidas têm sido anunciadas para elas.
A ARTGAY deseja ampliar o diálogo com gestores nacionais, estaduais e municipais da aids, conforme preconiza o consenso de Melbourne, de que a epidemia não será solucionada até 2030 se não houver participação e investimentos nas Populações-Chave, especialmente de gays e outros homens que fazem sexo com homens. Nesse sentido, a nova equipe do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais , lideradas por Fábio Mesquita , Adelle Benzaquem, Renato Girade , Damiana Oliveira, Denise Serafim , Cristina Raposo , Kátia Guimarães entre outras demonstram estar dispostos a fortalecer as relações com os ativistas gays do Brasil.
Concordamos com a idéia do 90,90 e 90 ( 90% dos gays testados, 90% dos Gays infectados em tratamento e 90% dos Gays com carga viral zeradas ) até 2020. A universalização da testagem ( com diagnóstico rápidos em ONG Gays, vendas em farmácias e prioridade nas unidades de saúde ) , o uso de tecnologias como a profilaxia pré-exposição – Prep , a popularização da profilaxia pós –exposição PEP para os gays , e o aumento de aporte para mobilização dos gays ( jovens e adultos ) são saídas necessárias para o país liderar o controle do HIV.
Enquanto apenas 0,4 % da população em geral está infectada no Brasil, o índice sobe para 10 a 15 % entre os gays. Esse é o resultado real de 12 anos de descentralização e negligência com a comunidade gay. Na Austrália , as novidades para a comunidade gay variavam de estudos sobre a circuncisão , uma nova camisinha recoberta por um gel anti- HIV , um medicamento anti-aids a ser usado uma vez por semana, o comprimido 3 em 1 , a Prep como prevenção , a junção da experiência de gays adultos com a energia dos jovens gays e a luta contra leis anti-homossexuais pode levar a redução drástica da epidemia até 2030. Outro objetivo é aprovar uma lei contra o ódio, a discriminação e o preconceito no Brasil. Infelizmente , o Senado Federal, liderado pelo Senador Aloysio Nunes do PSDB-SP , enterrou o PLC 122 .
Prevenir, testar e tratar é a demanda da comunidade gay do Brasil para a prevenção do HIV. A ARTGAY deseja que os índices de Aids na comunidade em geral, e especialmente entre os gays seja uma realidade, depende da superação da Gayfobia Institucional e uma agenda urgente entre Gestores e Comunidade Gay para vencermos a epidemia. Melbourne renova nossa esperança de que zerar a transmissão da Aids até 2030 para isso é preciso combinar o jogo com os mais afetados: os Gays.
Léo Mendes é presidente da Articulação Brasileira de Gays – ARTGAY
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