Cristina Raposo*
06/06/2016 – É impossível colocar uma etiqueta de preço no sofrimento humano. Saber que no mundo existem milhares de pessoas doentes, sofrendo e morrendo deveria ser motivo mais que suficiente para incomodar a todos nós que andamos por este planeta. E quando esses milhares deixam de ser apenas números e conseguimos vê-los mais próximos? Sim, não podemos desistir principalmente quando se trata de falta de recursos para a saúde.
O que fazer diante da possibilidade de que 21 milhões de pessoas podem morrer de doenças relacionadas ao HIV e aids, e que mais 28 milhões de novos casos de infecção pelo HIV podem ocorrer até 2030? Mesmo sabendo que iniciativas que salvam vidas estão para além, tanto das estatísticas do ganha e perde do mercado quanto da lógica custo/benefício que rege a sociedade de consumo, vale lembrar que o mundo terá de desembolsar a bagatela de 24 bilhões de dólares/ano somente em terapia antirretroviral até 2030, conforme aponta um estudo do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids).
O que fazer então diante de doenças como a aids, a tuberculose e a malária, que têm arrasado países de renda baixa, trazendo perdas humanas irreparáveis e causando um peso imenso para a economia? Se a tuberculose e o HIV, sozinhos, lideram mundialmente as taxas de mortalidade por doenças infecciosas, dá para imaginar quando estão associados entre si e ainda com o impacto da malária? Esta é a realidade de muitos países.
Quando os países membros do G8 e seus apoiadores criaram o Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária (GFATM) houve um reconhecimento mundial de que estes agravos mereciam uma atenção maior. Além de reconheceram o impacto humanitário causado por essas doenças, os criadores do Fundo Global também levaram em conta os altos custos que a aids, a tuberculose e a malária exercem sobre a economia dos países afetados.
Desde então, o Fundo Global tem produzido resultados impressionantes no campo de prevenção, cuidados e tratamento para HIV e aids. Mais de 470 milhões de pessoas foram testadas para o HIV enquanto aproximadamente 8,6 milhões de pessoas estão recebendo terapia antirretroviral. Além disso, cerca de 3,3 milhões de mães receberam tratamento para prevenir a transmissão do HIV aos seus bebês.
Mas, infelizmente, mesmo com toda a contribuição que o Fundo Global prestou a muitos países, desde 2010 as metas de provisionamento não foram atingidas, ou seja, os países doadores de recursos financeiros não estão cumprindo com a promessa de financiamento. Se continuar nesse ritmo, a viabilidade do Fundo estará em risco, podendo, inclusive, conduzir a um desmoronamento completo da resposta coordenada para as três epidemias. É provável que a resposta global às três epidemias apresente um déficit acumulado de US$ 19 bilhões para o período de 2017 a 2019. Alterar esse quadro de estagnação é a melhor chance de fazer com que as previsões do Unaids não se concretizem. Para isso, é necessário um aumento no financiamento do Fundo Global até 2020.
É preciso sensibilizar as autoridades e informar a sociedade sobre seus direitos. É uma questão humanitária. Se o financiamento global permanecer nos níveis dos últimos anos, os índices de novos casos de infecção e morte continuarão a crescer. A consequência? Um aumento exponencial no número de pessoas que vão necessitar de tratamento e, por conseguinte, os custos com o setor de saúde serão mais elevados. Um peso para países cujos recursos para o HIV já são escassos. É uma questão também de opção econômica que pode ser feita neste momento. Você sabia que para cada dólar investido na erradicação da malária há um retorno de US$ 36? Estes dados do Copenhagen Consensus mostram também que em relação à tuberculose o retorno é de US$ 43, enquanto para o HIV é de US$ 38.
Com a proximidade da 5ª rodada de reposição financeira de Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária (GFATM) prevista para outubro desse ano, é urgente que os países se comprometam com o pleno financiamento dos subsídios para o período 2017-2019.
Para sensibilizar os países doadores é que a AHF (Aids Healthcare Foundation) aproveita a sua liderança global no campo do HIV e aids e relança a campanha “Fund the Fund”. Estamos divulgando um documento comprovando e enfatizando a obrigação que as maiores potências mundiais têm para com a sustentabilidade e o financiamento do Fundo, especialmente Alemanha, China e Japão. Por que estes países principalmente? Por que o investimento per capita desses três países foram abaixo das expectativas no período de 2010 a 2105. Alemanha investiu US$ 3,17; enquanto o Japão US$ 1,71 e a China apenas US$ 0.003, muito distante, por exemplo, do praticado pela Inglaterra e França com US$ 6,14 e US$ 5,65 respectivamente.
Embora o Brasil não seja mais beneficiado pelos recursos do Fundo Global é importante lembrar que existem países na América do Sul que são e, portanto, serão afetados diretamente na medida em que menos recursos estejam disponíveis. Muitas pessoas que estão em regiões de fronteira no norte e no sul do Brasil já buscam o tratamento em território brasileiro graças aos princípios do SUS. Portanto, é urgente pensar que todos nós podemos apoiar para que o HIV, a tuberculose e a malária tenham um menor peso para os países vizinhos levando o tratamento para quem precisa e aumentando os esforços de prevenção.
Depois que bilhões de dólares e esforços humanos incomensuráveis foram investidos na tentativa de estancar a disseminação da aids, da tuberculose e da malária, será um “desastre humanitário inaceitável” se os doadores hesitarem em manter a promessa de recursos para a 5ª Rodada de Reposição Financeira do Fundo Global. A AHF conclui que, em termos morais e econômicos, o mundo não pode desistir. Afinal, como disse o ativista americano Paul Farmer "se o acesso aos cuidados de saúde é considerado um direito humano, o que é considerado humano o suficiente para ter esse direito?" O mundo não pode simplesmeste desistir.
* Cristina Raposo, coordenadora de país da AHF Brasil
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